DIÁRIO BALDIO
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Gabriel Bodstein, Esio Magalhães e o cotidiano de duas máscaras Máscara, de acordo com o Dicionário de Teatro de Luiz Paulo Vasconcellos: “Possivelmente, o mais simbólico elemento de linguagem cênica através de toda a história do teatro”. Máscara, segundo o Dicionário do Teatro Brasileiro (coordenação de J. Guinsburg, João Roberto Faria e Mariangela Alves de Lima): “Transforma o mascarado em outro ser, tornando-o um arquétipo. Representa uma ideia, um tipo ou os anseios de uma comunidade ou de indivíduos”. Bufão, conforme o Dicionário de Teatro de Patrice Pavis: “O bufão, como o louco, é um marginal. (...) (sempre mascarado, é o revelador dos outros e nunca fala em seu próprio nome, e nunca assume o papel sério dos outros, sem incorrer em sua perda). Como Arlequim, o bufão guarda, na verdade, a lembrança de suas origens infantis e simiescas”. Diário Baldio, que o Barracão Teatro coloca em cartaz neste sábado (6/8) no Tusp, em São Paulo, parte de pesquisa sobre a dramaturgia da máscara. Duas pessoas excluídas pela sociedade, o travesti Lady (Gabriel Bodstein) e o disforme Cotoco (Esio Magalhães), expõem um relacionamento pautado ao mesmo tempo pela crueldade e pelo afeto. E, sobretudo, pelo desamparo. Duas máscaras, a da androgenia (Lady) e a da deformação (Cotoco), que buscam a reinvenção da vida. A crítica social permeia o espetáculo, dividido em quatro blocos que somam 13 cenas. O espaço cênico remete à degradação do tecido social – um beco onde Lady vive, decorado com objetos pinçados do lixo. A diretora Tiche Vianna explica que a máscara é o ponto de partida da montagem e a bufonaria, o de chegada. “Quando vimos, as duas máscaras já se achavam no universo do bufão”, afirma. Um cosmos pontuado pela ironia e pelo sarcasmo, o que garante à peça momentos de uma comicidade especial, repleta de elementos da paródia. A ambiguidade de Lady, mais próxima do grotesco, e a puerilidade de Cotoco, mais voltada à bufonaria, se mostram em situações urbanas, contemporâneas. “Lady se bane do mundo oficial e cria uma ficção, forjada em cima do que ela rejeitou. Cotoco não constrói um mundo, vive aquele que se apresenta diante dele”, diz Tiche. A dramaturgia (de Magalhães, Bodstein, Guga Cacilhas e Tiche) aponta não para um texto final modulado por bifes, pausas e rubricas, consoante o modelo usual, mas para um roteiro de ações inspirado nos canovacci da Commedia dell’Arte. Resultado de um processo que privilegiou o jogo de improvisos, depois organizados dramaturgicamente. O Barracão Teatro ainda reestreia em 12/8, também no Tusp, Encruzilhados – Entre a Barbárie e o Sonho, peça cuja dramaturgia é assinada por Antônio Rogério Toscano. No tablado, dirigidos por Tiche: Andrea Macera, Eduardo Brasil e Magalhães. Encruzilhados rendeu a Magalhães sua segunda indicação ao Prêmio Shell – a primeira foi por A Julieta e o Romeu, espetáculo de clowns em que dividia a cena com Andrea. A montagem investiga as possibilidades de escolhas que a vida propõe, se as pessoas têm nas mãos as rédeas de suas existências ou se são conduzidas. Uma moça desmemoriada chega à tenda dos mistérios, espaço onde três personagens exercitam seu charlatanismo e onde paulatinamente são reveladas as razões que a levaram para lá. DIÁRIO BALDIO. Dramaturgia de Esio Magalhães, Gabriel Bodstein, Guga Cacilhas e Tiche Vianna. Direção de Tiche Vianna. Com Esio Magalhães e Gabriel Bodstein. Sábados, às 21h, e domingos, às 19h. De 6/8 a 25/9. ENCRUZILHADOS – ENTRE A BARBÁRIE E O SONHO. Dramaturgia de Antônio Rogério Toscano. Direção de Tiche Vianna. Com Andrea Macera, Eduardo Brasil e Esio Magalhães. Quintas e sextas, às 21h. De 12/8 a 23/9. No Tusp. Rua Maria Antônia, 294, São Paulo, SP. Fone (11) 3123-5233. R$ 20.
Escrito por Mauro Fernando às 03h55
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UM DIA OUVI A LUA
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Valores femininos, de resistência, em jogo narrativo Christine Greiner, no livro O Teatro Nô e o Ocidente, anuncia que o nô “é um produto da cultura do Japão medieval, do século XIV”. “Nascido na sociedade rural, o drama nô possui uma dramaturgia relativamente simples, baseada na forma narrativa e poética podendo lançar mão, inclusive, do canto e da dança”, explica Adélia Nicolete na apresentação do livro Luís Alberto de Abreu: Um Teatro de Pesquisa. “O nô hoje é um clássico”, afirma Abreu, “mas sua origem é popular”. “Era um teatro de camponeses quando começou.” O dramaturgo conta que o elemento fundamental do nô é a personagem e o do teatro ocidental, o enredo. “O nô me encanta muito porque é fortemente narrativo e poético”, diz. Três das peças selecionadas para Luís Alberto de Abreu: Um Teatro de Pesquisa (que reúne 14 peças das mais de 50 escritas pelo dramaturgo, além de três textos teóricos) têm o nô como eixo. Um Dia Ouvi a Lua foi escrita no ano passado especialmente para a Cia. Teatro da Cidade, de São José dos Campos (SP), e estreia na capital paulista na sexta-feira (10/6), no Teatro Coletivo. Dirigido por Eduardo Moreira, do Grupo Galpão, de Belo Horizonte (MG), o espetáculo ganhou o Prêmio Cooperativa Paulista de Teatro na categoria trabalho apresentado no interior e litoral paulista. Um Dia Ouvi a Lua é o segundo texto escrito pelo dramaturgo para a Cia. Teatro da Cidade – o primeiro é Maria Peregrina, de 1999. A fim de escrever Um Dia Ouvi a Lua, Abreu inspirou-se em três canções do tradicional universo caipira, em consonância com as origens do nô. São elas: Adeus, Morena, Adeus (Piraci / Luiz Alex), Cabocla Tereza (João Pacífico / Raul Torres) e Rio Pequeno (Tonico / João Merlini). “As músicas são narrativas, de uma época diferente da nossa”, conta. Não há, porém, saudosismo na montagem, garante o dramaturgo. “Mas existem valores interessantes, tanto musicais como morais.” Apagados na sociedade atual, apegada ao urbanismo, “são valores da imaginação, da cultura comunitária, que não poderiam morrer completamente”. “Não agimos comunitariamente, apesar de vivermos em grandes cidades”, constata. As letras das músicas narram, do ponto de vista masculino, histórias de paixão, abandono e crime. Abreu, porém, inverte a equação: recria-as sob o ângulo feminino. Quem não tinha voz, pois, passa a tê-la. “As personagens centrais da peça (Beatriz, Tereza e S’a Maria) são mulheres defendendo valores femininos, liberdade, amor, paixão”, conta. “Os valores femininos fundamentais são a geração, a criação e a conservação, muito caros no mundo de hoje”, aponta o dramaturgo. A esse “universo de resistência”, então, contrapõe-se o masculino, patriarcal, caracterizado por “agressão e luta”. A narrativa é outro traço marcante de Um Dia Ouvi a Lua. Abreu indica a grande diferença entre ela e a representação: a relação mais íntima com a plateia. “Com a narrativa, o jogo se faz mais diretamente com a imaginação do público. O espetáculo não é dado inteiramente, o público participa ativamente, não fica aquela coisa passiva. A narrativa propicia um trabalho poético mais forte e mais sintético.” O dramaturgo já foi premiado por diversos textos. Entre eles estão as peças Foi Bom, Meu Bem?, Bella Ciao, O Rei do Riso, O Livro de Jó, Auto da Paixão e da Alegria e Borandá: Auto do Migrante, o roteiro do filme Os Narradores de Javé (com Eliane Caffé) e a microssérie de TV Hoje É Dia de Maria (com Luiz Fernando Carvalho). UM DIA OUVI A LUA. De Luís Alberto de Abreu. Direção de Eduardo Moreira. Com a Cia. Teatro da Cidade. No Teatro Coletivo. Rua da Consolação, 1.623, São Paulo, SP. Fone (11) 3255-5922. Sextas-feiras e sábados, às 21h, e domingos, às 20h. R$ 40. De 10/6 a 14/8.
Escrito por Mauro Fernando às 18h27
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AS FOLHAS DO CEDRO
Fernando Stankuns 
Marina Flores e Helio Cicero em As Folhas do Cedro: o homem contemporâneo em cena Samir Yazbek ganhou o prêmio de melhor autor de 2010 da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) por As Folhas do Cedro, peça na qual investiga a identidade do homem contemporâneo. Yazbek volta à cena nesta quarta-feira (18/5), quando lança o texto na Livraria da Vila, em São Paulo, em edição da Terceiro Nome (R$ 29). O livro contém imagens e ficha técnica do espetáculo, apresentação de Jefferson Del Rios e fortuna crítica. Para o dramaturgo, que também dirigiu a montagem, a importância da publicação – de qualquer edição de um texto teatral em livro, por sinal – está no legado que fica para as gerações futuras. Yazbek conta que o texto sofreu mudanças ao longo do processo de montagem e que o livro contém a versão final. “Transformei em rubricas soluções cênicas encontradas durante o processo. E as fotos quase totalmente acompanham a evolução do espetáculo”, diz. A Cia. Arnesto nos Convidou, que o dramaturgo fundou ao lado do ator Helio Cicero, prepara-se para colocar nova peça em cartaz no fim do ano: envereda-se pelo mito de Fausto, que fez um pacto com Mefistófeles. “É inspirada, não uma adaptação”, esclarece Yazbek. Diversos autores, como Joahann von Goethe (1749-1832) e Fernando Pessoa (1888-1935), debruçaram-se sobre esse mito. “A ideia é rastrear o que resultou desse Fausto na sociedade de consumo”, indica o dramaturgo. “A versão de Goethe é voltada para o conhecimento da vida; a de Pessoa, para o autoconhecimento; a nossa, para o reconhecimento, para as preocupações mais mundanas. É um mergulho no mundo contemporâneo por meio de um teatro reflexivo e poético. O caráter metafísico presente em outras versões está completamente abortado na nossa, na qual o pacto é feito por conta de um ganho material.” Yazbek revela o “ponto crucial” que a companhia quer explorar: “Estamos vendendo a alma por muito pouco”. Existe, pois, uma abordagem crítica em relação às miudezas da sociedade do espetáculo, a acomodação, a alienação. “Há uma banalização da vida. Estamos em um mundo em que as pessoas vivem em função de um sistema que obriga a comportar-se, agir, sentir de uma determinada maneira muito ligada ao mercado, ao dinheiro, ao reconhecimento que se busca de forma irrefletida.” A peça deve contar com três ou quatro atores, incluindo Cicero. Antonio Januzelli já está escalado para a preparação do elenco. Yazbek e Cicero trabalham na Oficina Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo, onde estão agendadas palestras com os pensadores Luiz Felipe Pondé (23/5), Marcus Mazzari (25/5) e Cassiano Sydow Quilici (1º/6). Leitura dramática da primeira versão do texto, que ainda não tem título, está marcada para 29/6. O dramaturgo e o ator já ministram oficinas de estudos teóricos e de práticas teatrais. Outra das preocupações atuais de Yazbek é o universo da juventude, as contradições da nossa sociedade nele embutidas. A peça O Ritual foi escrita especialmente para o Connections 2012, festival organizado pelo National Theatre, de Londres, que reúne grupos de teatro britânicos formados por jovens. Yazbek é o primeiro autor brasileiro a participar desse programa, ao qual a Mostra Conexões de Teatro Jovem, realizada em São Paulo, está ligada. “A peça não trata de um ritual de iniciação, mas de perdição. São sete personagens jovens em uma metrópole qualquer do planeta”, relata o dramaturgo. No tablado, relações pessoais e amorosas próprias da juventude. “Como estão traduzindo o texto, tenho tempo para eventuais reajustes. Entregarei a versão final em julho.” AS FOLHAS DO CEDRO. Na Livraria da Vila. Rua Fradique Coutinho, 915, São Paulo, SP. Fone (11) 3814-5811. Dia 18/5. A partir das 18h30.
Escrito por Mauro Fernando às 01h20
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A INVASÃO
Sergio Massa 
Questão social e condição humana sob concepção poética A esperança de mudanças sociais nos anos 1960 fez com que o teatro procurasse uma dramaturgia que fizesse refletir e questionasse o País. Dias Gomes (1922-1999) foi um dos autores mais perseguidos pela censura nessa época – o Brasil mergulhara em uma ditadura militar em 1964. Identificou-se com o chamado teatro de resistência, uma produção diversificada que buscou uma dramaturgia de caráter sociopolítico. Escreveu peças importantes como O Pagador de Promessas – convertida por Anselmo Duarte (1920-2009) em filme que ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1962 –, A Revolução dos Beatos, A Invasão, Odorico, o Bem-Amado, O Berço do Herói e O Santo Inquérito. Migrou para a TV no fim da década de 1960, assinando novelas como O Bem Amado, Saramandaia e Roque Santeiro. Dirigida por Antonio Netto, a Cia. das Artes colocou A Invasão em temporada de cinco semanas, encerrada em 1º/5, no Teatro Commune. O espetáculo volta ao cartaz neste sábado (7/5) no Teatro Coletivo, também em São Paulo. A montagem original estreou em 1962 no Rio de Janeiro, dirigida por Ivan de Albuquerque. Inspirado em uma situação real, o dramaturgo aborda a invasão de um prédio em construção por um grupo de favelados. A pesquisa para a edificação do espetáculo incluiu visitas a um edifício no centro paulistano. “O grupo foi atrás de um prédio na esquina das Avenidas Ipiranga e São João, que era um hotel, onde há uma organização política forte. Os atores ficaram um mês lá, fizeram oficinas para os moradores, que são ligados ao Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST)”, relata o diretor. De acordo com ele, a pesquisa foi importante para aproximar mais o elenco da temática desenvolvida pelo autor. “Todo o trabalho de Dias Gomes passa pela questão social, pela qual é possível perceber o País e a condição humana dos personagens”, afirma. “A Invasão diferencia-se um pouco porque não há tipos engraçados. É um drama social. Há uma crueldade no texto, mas a concepção do espetáculo é poética.” Netto conta que a montagem é uma parceria da companhia com a Oficina de Atores de São Paulo. “É um elenco numeroso, de 36 pessoas, com dois atores convidados (Camila Flores e Paulo Pompéia)”, diz. A direção se concentra no realismo, “embora lide com signos”: “A encenação trabalha com movimento corporal abstrato”. Inexiste cenário. “Bambus constroem o esqueleto do edifício invadido.” O foco da história é a invasão. “São 13 personagens”, informa o diretor. Filho de Isabel (Camila Flores), Lula (Douglas Fonseca) “briga, vai atrás dos seus direitos, luta por ideais” e se envolve com Malu (Paloma Santos), que chega do Norte com a família. Mané Gorila (Paulo Pompéia) é o “canalha que explora as pessoas”. A INVASÃO. De Dias Gomes. Direção de Antonio Netto. Com a Cia. das Artes. No Teatro Coletivo. Rua da Consolação, 1.623, São Paulo, SP. Fone (11) 3255-5922. Sábados, às 21h, e domingos, às 20h. De 7/5 até 4/8. R$ 20.
Escrito por Mauro Fernando às 17h20
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2º FESTIVAL N.EX.T DE TEATRO GROTESCO
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A feia, a bonitinha e a inteligente, não necessariamente da esquerda para a direita O dramaturgo e diretor Antonio Rocco diz que “‘grotesco’ não tem uma definição precisa, é quase um sentimento”. Mesmo assim, arrisca palavras-chave como “estranho” e “engraçado” e um exemplo: “Toda mutação é algo grotesco, não usual, que espanta”. Centro de produção e difusão da dramaturgia brasileira contemporânea dirigido por Rocco, o Núcleo Experimental de Teatro (N.Ex.T) inicia nesta quinta-feira (24/3) o 2º Festival N.Ex.T de Teatro Grotesco. São sete peças curtas e inéditas, em cartaz até 30/4, de dramaturgos da cena paulista. A primeira edição do festival foi realizada em novembro de 2008, e Rocco sustenta que o grotesco é um tema atual. “O século XXI é grotesco, com grande mistura de coisas, fragmentação, acúmulo de informação”, diz. O Dicionário de Teatro, de Patrice Pavis, registra que “no mundo atual, famoso por sua deformidade – isto é, por sua falta de identidade e de harmonia –, o grotesco renuncia a nos fornecer uma imagem harmoniosa da sociedade: ele reproduz ‘mimeticamente’ o caos em que ele está nos oferecendo sua imagem retrabalhada. (...) Ele firma a existência das coisas, criticando-as”. Rocco relata que o convite aos autores para que escrevessem para o festival não estipulou uma definição de grotesco. Isso deu a eles – Alexandre Machado, Fernanda Young, Chico de Assis, Mário Viana, Maurício Paroni de Castro, Otávio Frias Filho e Sérgio Roveri, além do próprio Rocco – a condição de criar a partir das próprias convicções. O que resultou em um painel diversificado do grotesco. “Há de dramas terríveis a humor sarcástico”, revela Rocco. Pavis conta que “o grotesco está estreitamente associado ao tragicômico (...). Gêneros mistos, o grotesco e o tragicômico mantêm um equilíbrio instável entre o risível e o trágico (...)”. As três peças sob a direção de Rocco pouco têm em comum além do grotesco (na concepção de cada autor). O Ovo e a Galinha, de Assis, “é meio teatro do absurdo”. Em A Feia, a Bonitinha e a Inteligente, de Machado e Fernanda, “o público está presente, é como se fosse uma palestra”. Sábados, do próprio Rocco, é “uma comédia dramática”. Essa diferença de estilos faz com que a tarefa de dirigir seja “um desafio”. Marcos Loureiro assina a direção de Boi da Cara Preta, de Roveri, Atirei no Dramaturgo, de Viana, e A Emancipação da Mulher ou Um Outro Mundo É Possível, de Frias Filho; Castro, de A Carne dos Arrogantes (Camera Oscura I e II), dele mesmo. Pavis define grotesco como “aquilo que é cômico por um efeito caricatural burlesco e estranho”. “Sente-se o grotesco como uma deformação significativa de uma forma conhecida ou aceita como norma. (...) As razões da deformação grotesca são extremamente variáveis, desde o simples gosto pelo efeito cômico gratuito (...) até a sátira política ou filosófica (...)”, afirma. De acordo com Pavis, “o grotesco”, para Max Frisch, Friedrich Dürrenmatt e Bertolt Brecht, “é uma última tentativa de compreender o homem tragicômico de hoje em dia, seu dilaceramento, mas também sua vitalidade e sua regeneração através da arte”. 2º FESTIVAL N.EX.T DE TEATRO GROTESCO Quintas-feiras, às 21h30: BOI DA CARA PRETA. De Ségio Roveri. Direção de Marcos Loureiro. Com Jacqueline Obrigon, Luciana Caruso e Marcos Gomes. (O aspecto pouco comum de Nenezinho é menos aterrador que seu comportamento.) ATIREI NO DRAMATURGO. De Mário Viana. Direção de Marcos Loureiro. Com Celso Melez, Fania Espinosa e Mário Matias. (Ladrões atiraram em um dramaturgo famoso durante assalto a um bar.) Sextas-feiras, às 21h30: A EMANCIPAÇÃO DA MULHER OU UM OUTRO MUNDO É POSSÍVEL. De Otávio Frias Filho. Direção de Marcos Loureiro. Com: Antonio Destro, Celso Melez, Fania Espinosa, Luciana Caruso, Mário Matias e Melissa Vaz. (Uma feminista ensina uma jovem esposa a domesticar seu marido chauvinista.) O OVO E A GALINHA. De Chico de Assis. Direção de Antonio Rocco. Com Antonio Destro, Fania Espinosa, Celso Melez, Marcos Gomes, Mário Matias e Melissa Vaz. (Marido acusa mulher de traí-lo. Familiares, advogado e veterinário são convocados para examinar um estranho ovo.) Sextas-feiras, às 23h30: A CARNE DOS ARROGANTES (CAMERA OSCURA I e II). Texto e direção de Maurício Paroni de Castro. Com o grupo Atelier de Manufactura Suspeita. (Otelo encarnado em ator faz confissão pública sobre sua condição de traído; Fedra encarnada em uma atriz faz confissão pública de suas atrocidades.) Sábados, às 21h30: TELEFONE PÚBLICO. Texto e direção de Antonio Rocco. Com Antonio Destro, Celso Melez, Fania Espinosa, Jacqueline Obrigon, Luciana Caruso, Marcos Gomes e Mário Matias. (No centro de São Paulo, ao lado de um telefone público: expectativas frustradas, amores impossíveis e um assalto relâmpago.) A FEIA, A BONITINHA E A INTELIGENTE. De Alexandre Machado e Fernanda Young. Direção de Antonio Rocco. Com Luciana Caruso, Maira Galvão e Melissa Vaz. (Três estereótipos femininos debatem as dores e delícias de ser o que são.) No N.Ex.T. Rua Rego Freitas, 448, São Paulo, SP. Fone (11) 3259-9636. R$ 30. Até 30/4.
Escrito por Mauro Fernando às 17h33
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BIELSKI
Akemi Mitsueda 
Resistência e sobrevivência A Cia. Levante coloca Bielski em cartaz nesta segunda-feira (7/2) no Sesc Consolação, em São Paulo, já com a chancela da Cooperativa Paulista de Teatro (CPT). A peça obteve quatro indicações para o Prêmio CPT: dramaturgia (Antônio Rogério Toscano), trabalho apresentado em espaços não convencionais, trabalho apresentado no interior e litoral paulista e projeto sonoro (Cristiano Meirelles). A premiação está marcada para a data da estreia paulistana do espetáculo, que no ano passado circulou pelo interior de São Paulo – participou de festivais em Campo Limpo Paulista e em Piracicaba e passou por Diadema, Mogi das Cruzes e São Caetano do Sul. Além da dramaturgia, Toscano assina a direção da montagem, que aborda a resistência de judeus bielorrussos durante a 2ª Guerra Mundial a fim de estruturar uma analogia para os dias atuais. Três irmãos – Tuvia, Asael e Zus Bielski – refugiaram-se de tropas nazistas em floresta da Bielo-Rússia, onde agregaram 1,2 mil judeus em esconderijos subterrâneos, em regime comunitário. “Trata-se de uma metáfora do coletivo que se apresenta na trajetória dos irmãos”, conta o dramaturgo e diretor. Bielski, observa Toscano, não se preocupa em defender a causa judaica. “O que interessa é como essa história fala de nós mesmos, de como precisamos criar redes de sobrevivência neste mundo que nos engole. Os irmãos criam um mundo em que existe a relação de interdependência. A vida comunitária cria a possibilidade da sobrevivência.” O dramaturgo e diretor ainda se recusa a colar no líder desse movimento de resistência, Tuvia, o rótulo de heroi. “Um camponês rústico, ele é uma figura contraditória. Lidou com o material do povo judeu muito livremente, teve a coragem de reinventar a tradição, não estabeleceu um referencial tão palatável para a comunidade judaica.” Egresso da Escola Livre de Teatro de Santo André, o elenco é formado por Cleide Mariano, Conrado Gallucci, Cristiano Meirelles, Daniela Cavagis e Felipe Gomes Moreira. Toscano relata que o texto foi construído em processo colaborativo, com a participação dos atores. O ponto de partida: o livro Os Irmãos Bielski, de Peter Duffy. “A companhia resolveu trabalhar com material documental, com uma perspectiva histórica.” O espetáculo, no entanto, não traça um desenho realista do percurso dos Bielski. “O que a peça narra é factual, mas há uma abordagem livre dos fatos”, afirma o dramaturgo e diretor. “A premissa do trabalho é o treinamento do jogo do ator, a produção de sentido no espaço vazio”, de acordo com princípios de Peter Brook. “Não tentamos dar conta do figurativismo, mas criar imagens que pretendem dar um sentido poético a um material não realista.” A montagem, então, ganha um aspecto performático, com elementos da dança – Juliana Monteiro responde pela direção de movimento. “Chegamos perto de Pina Bausch”, diz Toscano. A direção musical de Cristiano Meirelles também contribui para o discurso narrativo. Heiner Müller é outra referência. “Trabalhamos na fronteira entre o lírico e o épico”, anuncia o dramaturgo e diretor. Uma característica de Bielski é o afastamento da maneira linear de desenvolvimento de uma história. “Todos os atores fazem todas as personagens. Às vezes a personagem não é representada, é narrada pelo ator. A linha narrativa não é muito aristotélica.” BIELSKI. Dramaturgia e direção de Antônio Rogério Toscano. Com a Cia. Levante. No Sesc Consolação. Rua Dr. Vila Nova, 245, São Paulo, SP. Fone (11) 3234-3000. Segundas e terças, às 21h. R$ 2,50 a R$ 10. Até 1º/3.
Escrito por Mauro Fernando às 12h13
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MARCHA PARA ZENTURO
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Um encontro nada fortuito Observador agudo da sociedade, o dramaturgo Anton Tchékhov (1860-1904) trabalhou com o fluxo da vida. O autor de A Gaivota – o primeiro êxito do Teatro de Arte de Moscou, de Konstantin Stanislávski (1863-1938) e Vladímir Nemírovitch-Dântchenko (1858-1943) –, Tio Vânia, As Três Irmãs e O Jardim das Cerejeiras, entre outras obras, esquadrinhou a relação do ser humano com o tempo. O tempo que conformistas e inaptos para transformá-lo veem passar, tornando o fluxo da vida modorrento e perdendo oportunidades para concretizar suas aspirações. Não por acaso, Tchékhov está presente em Marcha para Zenturo, espetáculo que reúne no Centro Cultural São Paulo dois coletivos, o paulista Grupo XIX (Hysteria, Hygiene e Arrufos) e o mineiro Espanca! (Por Elise, Amores Surdos e Congresso Internacional do Medo). Luiz Fernando Marques (Grupo XIX) assina a direção e Grace Passô (Espanca!), a dramaturgia. De maneira original, a peça aborda a passagem do tempo – passado, presente e futuro – e a relação que o ser humano mantém com ele. Trata da (falta de) sincronia presente nas relações pessoais. Amigos que há tempos não se viam – Noema (Janaína Leite), Patalá (Marcelo Castro), Gordo (Gustavo Bones), Lóri (Juliana Sanches) e Marco (Rodolfo Amorim) – se reencontram para o Réveillon de 2441. (A peça utiliza o futuro como projeção do presente.) A expectativa é grande. Mas eles não estão na mesma frequência. Existe uma carência de reciprocidade e uma incapacidade de enxergar o outro expressos tanto no belo texto como na criativa encenação. Há a metalinguagem, o teatro dentro do teatro – como em Hamlet, de William Shakespeare (1554-1616) –, que joga luz sobre intenções e subtextos. Contratada por Gordo, a companhia formada por Konstantin (Ronaldo Serruya), Bóris (Paulo Celestino) e Nina (Grace Passô) encena Tchékhov na festa. Realizado no apartamento de Noema, o encontro tem como objetivo atrair Marco para uma conversa. Sobra gelo no recinto. O personagem tratado como doente é aquele que percebe a ausência de sintonia em que todos estão mergulhados. É aquele que percebe um sintoma de uma doença social – a superficialidade que rege as ações humanas. A Marcha para Zenturo – na qual os personagens não se integram –, representa, enfim, uma utopia. Qual? Não há indicações. Cada um, na plateia, tem a possibilidade de definir – é no que o espetáculo aposta, abrindo perspectivas de leitura. Uma montagem singular, repleta de signos, com bons intérpretes, que rejuvenesce o teatro pela inventividade que a permeia. Os temas perimetrais que se ligam ao assunto central – como a perda de referências culturais, exemplificada na estranheza com que os personagens lidam com a figura de Cristo na cruz – a enriquecem. As ironias inteligentes endereçadas, por exemplo, a líderes políticos como George W. Bush e Silvio Berlusconi também apontam para a postura questionadora que a norteia. MARCHA PARA ZENTURO. Dramaturgia de Grace Passô. Direção de Luiz Fernando Marques. Com o Espanca! e o Grupo XIX. No Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000, São Paulo, SP. Fone (11) 3397-4002. Sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 20h. R$ 20. Até 13/2.
Escrito por Mauro Fernando às 16h53
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O HOMEM QUE QUERIA SER RITA CADILLAC
Beto Garavello 
Thiago Pinheiro, Marcos Amaral e Wilton Andrade: uma grande brincadeira O ator Wilton Andrade garante que a comédia O Homem que Queria Ser Rita Cadillac, de Márcio Américo, “é inteligente e faz uma crítica sutil à sociedade”. A peça, montada como uma grande brincadeira para fazer rir e pensar, estreou em 2004 e fez carreira, passou por mostra em Suzano (SP) e festival em Piracicaba (SP). Está de volta ao cartaz no Espaço Cultural Lélia Abramo, na capital paulista. Gabriel Pinheiro assina a direção. Há no espetáculo lances improváveis e situações nonsense que dão o tom humorístico do enredo. A sinopse: Clovão (Andrade), um fã da ex-chacrete, tenta enriquecer para conquistá-la. Ou, nas palavras do ator: “Um personagem desamparado vai em busca do seu sonho e tem de fazer coisas para realizá-lo que a sociedade considera ilegais”. O conflito, portanto, está no descompasso entre o indivíduo e o conjunto em que ele se insere. O Homem que Queria Ser Rita Cadillac, então, desfere um golpe contra a sociedade? “Sim, e é por isso que estamos remontando”, afirma. “A peça mexe em feridas: ciúme, inveja, poder, traição.” Como consequência da crítica que tece, o espetáculo propõe outro modelo de organização social? “Sim, mas de uma forma lúdica. E isso está nas entrelinhas, não vem exposto, mastigado.” Andrade explica que o texto partiu de uma situação em uma festa na casa do ator Milhem Cortaz. “Sou péssimo fisionomista, embora tenha boa memória para outras coisas, decoro textos com facilidade. Estava na festa e, em certo momento, comentei com o (ator, diretor e dramaturgo) Mário Bortolotto que uma mulher se parecia com a Rita. Era a própria, e ele colocou essa história em seu blog. O Márcio leu e teve a ideia de escrever a peça com todo o humor refinado dele. Sua mulher contou que ele escrevia soltando gargalhadas”, relata. Rita esteve na estreia. “Ela incentivou, concedeu um vestido que usamos na montagem”, conta. “Senti que ela ficou feliz.” A fim de justificar a remontagem, o ator evoca “a atualidade e a pegada comercial” do texto. Por “pegada comercial”, entenda-se não uma fragilidade conceitual, mas a capacidade de atrair público. Assegura ainda que o elenco está mais bem preparado: “Estamos em momentos diferentes, temos mais segurança em cena”. Andrade já trabalhou com Bortolotto no Grupo Cemitério de Automóveis e com os diretores Ariela Goldman e Marcos Loureiro. Américo é o autor do romance Meninos de Kichute – e coautor, ao lado do diretor Luca Amberg, do roteiro do longa-metragem homônimo sobre um menino que sonha em ser goleiro mas tem de enfrentar os princípios religiosos do pai. A película ganhou o Prêmio do Público de melhor filme brasileiro da 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, encerrada em 4/11. Andrade participa do longa. O HOMEM QUE QUERIA SER RITA CADILLAC. De Márcio Américo. Direção de Gabriel Pinheiro. Com Wilton Andrade, Walter Figueiredo (ou Gustavo Brandão, em dias alternados), Thiago Pinheiro, Marcos Amaral e Leandro Aguiar Domingues. No Espaço Cultural Lélia Abramo. Rua Carlos Sampaio, 305, São Paulo, SP. Fone (11) 3284-7873. Sextas e sábados, às 21h. R$ 12. Até 4/12.
Escrito por Mauro Fernando às 14h02
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ANTONIO PETRIN - SER ATOR e MARCIO AURELIO - O QUE ESTAVA ATRÁS DA CORTINA?
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Antonio Petrin: a vida no teatro Para o ator Antonio Petrin, o teatro “é uma arte dura, difícil, complicada”. “Às vezes o público gosta (de uma peça) e a crítica torce o nariz. E vice-versa. É uma carreira de altos e baixos”, diz. Petrin, porém, não reclama da opção. “Às vezes você cai numa profissão que não tem nada a ver e, por questão de sobrevivência, tem de seguir nela. Escolhi ser ator e reiniciaria tudo de novo. É uma profissão difícil para se firmar, mas não tenho do que me queixar, há mais alegrias que tristezas. Fiz grandes personagens no teatro, que me deram muitas possibilidades de ver a vida, me ensinaram muitas coisas e me transformaram como ser humano.” O percurso de 45 anos de carreira de Petrin, que inclui mais de 60 peças, quase 20 filmes e cerca de 50 participações na TV, agora está imortalizado em livro. Antonio Petrin – Ser Ator, obra assinada pelo jornalista Orlando Margarido, membro da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), tem lançamento marcado para esta quinta-feira (28/10), no Centro de Convenções Frei Caneca, em São Paulo. O livro pertence à Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial. Nascido em 1938 em Laranjal Paulista (SP) e formado pela Escola de Arte Dramática em 1967, o ator conta que foi procurado por Margarido, que propôs seu nome à Coordenação Geral da Coleção Aplauso. Petrin revela que ainda não leu a obra – “Quero ter uma surpresa”, afirma – e que alimenta “uma grande confiança” no jornalista. “É uma biografia de trabalho, não tem nada a ver com a vida particular.” O livro passa, portanto, pela fase amadora em Santo André (SP) e pela fundação em 1968, sob a influência da diretora Heleny Guariba, do Grupo de Teatro da Cidade (GTC). Entre os trabalhos que marcaram sua trajetória, por indicarem novas veredas, pelo reconhecimento da crítica ou pelo aplauso da plateia, Petrin menciona a estreia profissional: Jorge Dandin, de Molière, em 1968 (direção de Heleny). Cita também O Homem de La Mancha. Sábato Magaldi e Maria Thereza Vargas, no livro Cem Anos de Teatro em São Paulo, apontam O Homem de La Mancha, musical de Dale Wasserman dirigido por Flávio Rangel e protagonizado por Paulo Autran e Bibi Ferreira, como um dos melhores espetáculos da temporada de 1972. Sem esconder sua predileção pelo palco, recorda também Ponto de Partida, de Gianfrancesco Guarnieri (direção de Fernando Peixoto), de 1976. E o monólogo A Última Gravação de Krapp, de Samuel Beckett, que montou duas vezes: em 1989, dirigido por Iacov Hillel, e em 2000, por Francisco Medeiros. “Dou muito valor artístico (a esse espetáculo)”, conta. O ator foi indicado ao Prêmio Shell de Teatro em 2000. A grande repercussão que Tenório, seu personagem no folhetim Pantanal (1990-91), da extinta TV Manchete, obteve não o ilude. “O sucesso em novela é relativo. Quando uma termina, entra outra no lugar e outros atores passam a ser cortejados”, declara. Outro “momento especial” é o filme O Último Chá, de David Kullok, sem data de estreia prevista. “É meu único protagonista no cinema. É um filme que foge dos padrões, bastante experimental.” Antonio Petrin – Ser Ator integra um pacote de lançamentos da Imprensa Oficial. Entre as obras que a Coleção Aplauso coloca à disposição do público estão Lilian Lemmertz – Sem Rede de Proteção (de Cleodon Coelho), Ziembinski – Mestre do Palco (de Antônio Gilberto), Carlos Alberto Soffredini – Serragem nas Veias (de Renata Soffredini), Rubens Corrêa – Um Salto Para Dentro da Luz (de Sergio Fonta), Jefferson Del Rios – Críticas Teatrais e O Teatro de Marici Salomão. O presidente da APCA, Aguinaldo Cristofani Ribeiro da Cunha, lança Marcio Aurelio – O que Estava Atrás da Cortina?. “Esse projeto nasceu de um convite da Imprensa Oficial”, relata Cunha. “Fui indicado pelo (dramaturgo) Alcides Nogueira e pela (atriz) Tuna Dwek. Eu e Marcio trabalhamos durante quatro anos, com frequentes e inúmeras interrupções, motivadas pelo ritmo de trabalho dele, muito intenso. Usamos dois métodos nesse período: depoimento oral dele, gravado, com perguntas feitas por mim, e depoimento escrito por ele e revisto, formatado e trabalhado por mim.” Aurelio recebeu cinco prêmios da APCA: revelação de cenógrafo (1980), cenografia (por Fim de Jogo, 1996), espetáculo (por Srta. Else, 1997, e por Agreste, 2004) e direção (por Anatomia Frozen, 2009). Também ganhou o Prêmio Shell de diretor (por Pólvora e Poesia, 2001). “Ele tem um trabalho de vanguarda único e uma trajetória sempre na contra-mão (do ramerrame)”, diz o crítico. “O trabalho de pesquisa de linguagem sério, constante, ininterrupto, feito em profundidade, com teoria e método, fez dele um grande nome do teatro brasileiro no campo do teatro não comercial.”
O Dicionário do Teatro Brasileiro (coordenação de J. Guinsburg, João Roberto Faria e Mariangela Alves de Lima) aponta no verbete Grupos Teatrais “Os Farsantes, autores da pesquisa coletiva que resulta em Tietê, Tietê, espetáculo dirigido por Marcio Aurelio em 1979, com texto final de Alcides Nogueira”, como uma das trupes mais atuantes na segunda metade da década de 1970. O verbete Pós-Moderno (Teatro) lembra que “Pássaro do Poente, espetáculo de Marcio Aurelio, de 1987, fundia uma tradicional lenda nipônica com elementos da Commedia dell’Arte, bonecos de kyôgen e paródia sertaneja, teatro nô e kabuki, para narrar uma história de trás para frente”. Aurelio iniciou sua carreira nos anos 1970, em São Paulo, informa Cunha. “Fundou os grupos Pompa e Circunstância e Os Farsantes. Dirigiu peças de grande impacto na cena brasileira, como Lua de Cetim, Tietê, Tietê, A Banda de Najas, A Farsa da Noiva Bombardeada, O Filho de Carcará, Hamletmachine, Eras, Inimigos de Classe, Édipo e Pássaro do Poente.” O crítico destaca também o 20º aniversário da Cia. Razões Inversas, fundada pelo diretor com seus alunos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), comemorado neste ano. “Há grandes sucessos em seu repertório, como Agreste, Anatomia Frozen, A Arte da Comédia, Srta. Else, Ricardo II e Torquato Tasso.”
Além de Marcio Aurelio – O que Estava Atrás da Cortina?, o crítico prepara para a Coleção Aplauso, para 2011, Elizabeth Henreid – Uma Atriz do TBC. Ainda negocia outro projeto, a reunião de críticas publicadas nos jornais Diário Popular e Diário de S.Paulo, nas revistas Around e A-Z e em outros veículos. ANTONIO PETRIN – SER ATOR. MARCIO AURELIO – O QUE ESTAVA ATRÁS DA CORTINA?. Lançamento no Centro de Convenções Frei Caneca. Shopping Frei Caneca. Rua Frei Caneca, 569, 4º andar, São Paulo, SP. Dia 28/10. A partir das 19h.
Escrito por Mauro Fernando às 11h48
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CIA. LIVRE DEZ ANOS
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Arena Conta Danton: a memória do presente Fundadora da Cia. Livre, a diretora Cibele Forjaz evita a palavra “ambição” quando aborda a trajetória da trupe. Prefere falar em “desejo”. “O mundo se move por desejos”, diz. “Fazer do impossível o possível é a nossa utopia.” O primeiro desejo do grupo foi montar “três textos de Nelson Rodrigues, colocá-las num ônibus e viajar”, revela. A companhia trabalhou com dois, Os Sete Gatinhos e Toda Nudez Será Castigada. A trupe abre nesta sexta-feira (20/8) no Tusp, em São Paulo, o Projeto Cia. Livre Dez Anos. São leituras encenadas, palestras, mesas-redondas e uma instalação cênica móvel que revisitam o repertório do grupo. Estão programadas leituras encenadas de Toda Nudez Será Castigada, Um Bonde Chamado Desejo, Arena Conta Danton, Vem Vai – O Caminho dos Mortos, Depois do Expediente e Raptada pelo Raio. Atores que passaram pela Cia. Livre (ou a integram), como Christian Amêndola, Edgar Castro, Eucir de Souza, Helio Cicero, Isabel Teixeira, Leona Cavalli, Luah Guimarães, Lúcia Romano, Luciano Chirolli, Paula Cohen, Tatiana Thomé, Vadim Nikitin e Vanderlei Bernardino, participam do projeto. Cibele faz uma participação especial como atriz. Assim como a exposição pública dos processos criativos – “a troca de fluidos com o público”, como assinala a diretora –, a pesquisa de linguagem e o trabalho coletivo são características do grupo. Arena Conta Danton, por exemplo, “foi uma encenação urdida por todos”. O que não implica na anulação das individualidades. Afinal, “as estrelas iluminam o céu”. Para ela, o coletivo significa a soma das individualidades. “A ideia de grupo em que todos comem juntos, dormem juntos não existe. Os atores têm seus desejos.” Esse processo colaborativo é um dos fatores de união da companhia. “A direção de arte, a iluminação e a direção permanecem em relação intensa com os atores-criadores”, afirma Cibele. A imersão no estudo constitui outro: “O desenvolvimento da ideia de pesquisa e prática teatral dá unidade ao grupo”. A relação entre passado e presente – hoje a companhia mantém uma sede, o que facilita a continuidade de seu trabalho – está embutida no projeto. “A memória não está no passado, está no presente. O tempo presente tem todos os tempos passados nele em conflito. Está prenhe de passado e de futuro. É olhar para ela e ver o que ela nos tornou. É olhar para essa trama e ver o que é fundamental. Quando a memória é atualizada, fica claro o presente”, diz Cibele. A diretora se esquiva de incluir o grupo, um dos mais relevantes do País, na história do teatro brasileiro. “Não sei se se trata de inscrever o nome na pedra. Interessa-me estudar o passado para ter uma ação transformadora consciente. Nesse sentido estamos na história”, afirma. A Cia. Livre ganhou o prêmio especial da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) pela peça Arena Conta Danton e pelo Projeto Arena Conta Arena 50 Anos, pelo qual ocupou o Teatro de Arena Eugênio Kusnet em 2004. Leona Cavalli recebeu o Prêmio Shell de melhor atriz por Toda Nudez Será Castigada. O Projeto Cia. Livre Dez Anos, que ainda engloba um documentário a ser filmado por Evaldo Mocarzel, foi contemplado pelo Programa Petrobras Cultura. CIA. LIVRE DEZ ANOS Leituras encenadas Toda Nudez será Castigada. De Nelson Rodrigues. Dias 20 e 21/8, às 16h, e dia 22/8, às 21h. Um Bonde Chamado Desejo. De Tennesse Williams. De 27 a 29/8, às 21h. Arena Conta Danton. Texto original de Georg Büchner. Dramaturgia de Fernando Bonassi, em processo colaborativo. Dias 10 e 11/9, às 21h30, e dia 12/9, às 21h. Vem Vai – O Caminho dos Mortos. Dramaturgia de Newton Moreno, em processo colaborativo. De 17 a 19/9, às 21h. Depois do Expediente. De Franz Xavier Kroetz. Dia 24/9, às 21h. Raptada pelo Raio. Dramaturgia de Pedro Cesarino, em processo colaborativo. Dia 25/9, às 21h. Deglutição Cênica do Projeto Cia. Livre Dez Anos. Atores que participaram das leituras anteriores criam algo inédito sobre o projeto. Dia 26/9, às 21h. Mesas-redondas Mediação de Cecília de Almeida Salles. Com o elenco de cada leitura encenada. Processo de Criação de Toda Nudez Será Castigada. Dia 22/8, às 16h. Processo de Criação de Um Bonde Chamado Desejo. Dia 29/8, às 16h. Processo Colaborativo nos Anos 2000. Dia 5/9, às 20h. Processo de Criação de Arena Conta Danton. Dia 12/9, às 16h. Processo de Criação de Vem Vai – O Caminho dos Mortos. Dia 19/9, às 16h. Dramaturgia do Ator. Dia 26/9, às 16h. Palestras A Universidade e o Teatro de Pesquisa dos Anos 2000. Com Elizabeth Azevedo. Dia 1º/9, às 20h. Estudo Público dos 50 Anos do Teatro de Arena Realizado pela Cia. Livre. Com Isabel Teixeira. Dia 2/9, às 20h. A Criação Coletiva dos Anos 60 e 70. Com Silvana Garcia. Dia 3/9, às 20h. Instalação cênica móvel Criada pela diretora de arte Simone Mina e pela iluminadora Alessandra Domingues, a Ocupação Livre conta um pouco da história da companhia por meio de adereços, músicas, objetos cênicos e vídeos dos espetáculos. As leituras são encenadas dentro da instalação, que, portanto, modifica-se a cada semana. De 20/8 a 26/9 (de quinta-feira a domingo), das 19h às 22h. No Tusp. Rua Maria Antônia, 294, São Paulo, SP. Fone (11) 3255-1782. Entrada franca.
Escrito por Mauro Fernando às 00h19
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VERSOS ÍNTIMOS e PONTO FINAL DA ÚLTIMA CENA
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O rosto de Danilo Firmo e as mãos de Elizandro Carneiro: intensos e pungentes “Toma um fósforo. Acende teu cigarro! / O beijo, amigo, é a véspera do escarro, / A mão que afaga é a mesma que apedreja. // Se a alguém causa inda pena a tua chaga, / Apedreja essa mão vil que te afaga, / Escarra nessa boca que te beija!” Os tercetos do soneto Versos Íntimos, de Augusto dos Anjos (1884-1914), exemplificam os desnorteantes paradoxos contidos na visceral obra do poeta paraibano. A Cia. Borelli de Dança está em temporada no Kasulo Espaço de Cultura e Arte, em São Paulo, com programa duplo: Versos Íntimos e Ponto Final da Última Cena, criações que exploram um tema caro ao coreógrafo Sandro Borelli: a morte. Não à toa, o projeto em que se inserem, contemplado pelo Programa Municipal de Fomento à Dança de São Paulo, se chama Morte – Manifestação e Reflexão. As montagens, claro, também jogam com as contradições intrínsecas ao ser humano – característica que permeia a obra de Borelli, cinco vezes premiado pela Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA). Intensa e pungente, a cena do aquário em Versos Íntimos, com Danilo Firmo e Elizandro Carneiro, demonstra como crueldade e compaixão podem conviver e remete a momentos memoráveis da companhia, como o banho de leite em Jardim de Tântalo. Uma riqueza particular à coreografia em cartaz consiste em abrir-se a diversas leituras – existencial, psicológica, semiológica, sociológica. O problema está nos intérpretes mais jovens, que insistem no gesto cotidiano, realista. Anticonvencionais, as criações de Borelli trafegam pela área da dança-teatro e são repletas de signos – o gesto como uma cortina diáfana que permite vislumbrar os recônditos da existência, não aquele mecânico, resultado da repetição. Inspirada em Dos Anjos, Versos Íntimos alcançaria dimensão maior se boa parte do elenco – são sete bailarinos – observasse melhor essa peculiaridade. A busca pela ancestralidade do ser humano é bem definida em Ponto Final da Última Cena, que parte de pesquisa sobre o Alzheimer. As pulsões sexual e de morte surgem vívidas nesse dueto com Mariana Molinos e seu consorte de cena, Elizandro Carneiro. A trilha sonora, de Gustavo Domingues, sublinha a percepção da morte como fuga para um universo próprio, longínquo das vicissitudes da vida. Falta experiência a Mariana, mas ela dá conta do recado. As montagens foram concebidas para a Cia. Distrito de Dança (Versos Íntimos, em 2002) e para o Balé da Cidade de São Paulo (Ponto Final da Última Cena, em 2004). Borelli incorporou-as neste ano ao repertório de sua trupe. Soam mais apropriadas em corpos acostumados ao trabalho do coreógrafo. Criada para a Cia. de Dança Palácio das Artes em 2007, Carne Agonizante apresentou com nitidez um elenco atolado na dificuldade de lidar com a complexa gramática de Borelli. VERSOS ÍNTIMOS. PONTO FINAL DA ÚLTIMA CENA. Direção geral, concepção e coreografia de Sandro Borelli. Com a Cia. Borelli de Dança. No Kasulo Espaço de Cultura e Arte. Rua Sousa Lima, 300, São Paulo, SP. Fone (11) 3666-7238. Quartas-feiras a sábados, às 21h, e domingos, às 19h. R$ 5. Até o dia 15.
Escrito por Mauro Fernando às 03h51
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VIOLETAS MURCHAS OU QUALQUER COISA QUE A SENHORA QUISER
Fernando Pião 
Sônia Lopes Soares e as incertezas da vida A coreógrafa e intérprete Sônia Lopes Soares conta como passou a se interessar pela escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941): “Comecei a ler Momentos de Vida, que são esboços da vida dela não publicados antes da morte. É atraente como o artista se mistura com a obra. É um lugar que me mostra como tudo é efêmero”. É sob essa perspectiva que Sônia concebeu Violetas Murchas ou Qualquer Coisa que a Senhora Quiser, que entra em temporada nesta sexta-feira (30/7) no Viga Espaço Cênico, em São Paulo. Não se trata, porém, de um espetáculo sobre a escritora. “Virginia é um suporte. Não tenho a pretensão de retratá-la. Ela é muito complexa”, diz. Inexiste, portanto, uma transposição literal. Violetas Murchas, então, aborda as incertezas, a “condição transitória do mundo, das coisas que a gente vive”. “O mundo é um lugar de extrema sensibilidade. As coisas não são totalmente explicáveis. Às vezes não há a relação causa/consequência”, afirma Sônia. A intérprete e coreógrafa, no entanto, admite que ficou “com o aroma de Virginia”. “Em algum lugar ela está lá (no espetáculo), com certeza. Fiquei impregnada dela. Há uma cena em que uso um trechinho do livro. É impressionante como ela traz de dentro (os sentimentos) e leva para a superfície.” Estão em cena os intérpretes-criadores Guilherme Jorge, Luciana Paes e Tatiana Guimarães, além de Sônia. Essa é uma produção da Cia. Viga, que ela dirige. “A companhia é muito interessada no corpo sutil, em proporcionar um movimento que pluralize o olhar”, revela. Um Lugar de Sarah ou Qualquer Coisa que a Senhora Quiser (inspirado na artista plástica inglesa Sarah Lucas) foi considerado o melhor espetáculo de dança do 11º Cultura Inglesa Festival (2007). VIOLETAS MURCHAS OU QUALQUER COISA QUE A SENHORA QUISER. Concepção, direção e coreografia de Sônia Lopes Soares. Com a Cia. Viga. No Viga Espaço Cênico. Rua Capote Valente, 1.323, São Paulo, SP. Fone (11) 3801-1843. Sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 17h e às 20h. R$ 5. Até 5/9.
Escrito por Mauro Fernando às 11h53
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AS FOLHAS DO CEDRO
Fernando Stankuns 
Cicero, Gabriela e as contradições do ser humano Em busca de recompor sua identidade, a Filha (Gabriela Flores) visita suas origens. Por meio da memória e da imaginação, vai à Amazônia dos anos 1970, quando a Mãe (Daniela Duarte) procura o Pai (Helio Cicero), que trabalhava como empreiteiro na construção da Rodovia Transamazônica. Nessa jornada, a fim de desvendar a figura emblemática do Pai, confronta-se com o Empreiteiro (Douglas Simon), a Gerente (Rafaella Puopolo) e a Nativa (Mariza Virgolino). As Folhas do Cedro – texto e direção de Samir Yazbek – estreia nesta sexta-feira (23/7) no Sesc Vila Mariana, em São Paulo. A peça contrapõe o progresso à tradição e aponta para a integração. A Filha narra a história – a maior parte das ações está localizada na década de 1970 – no tempo presente. Yazbek mobiliza a Cia. Arnesto nos Convidou, que fundou ao lado de Helio Cicero, nesse projeto há um ano, quando o texto ainda se chamava Canto para um Pai Ausente. De lá para cá, conta o autor e diretor, “ficou mais clara a idéia da narração”. “Enquanto narra de frente para o público, a Filha lembra-se e imagina ao mesmo tempo.” Mas não há uma fusão entre esses planos. “Existe uma distinção. Por meio da necessidade de estabelecer um vínculo com o Pai, uma grande ausência, ela imagina cenas para uma espécie de acerto de contas. São histórias que ela conhecia pela ótica da Mãe.” A relação da Filha com o Pai “é o grande percurso dramático da peça”, explica Yazbek. “A Filha imagina relações com os outros personagens. O que é salientado, sobretudo, é a relação com o Pai. Os outros personagens contribuem para fortalecer essa relação.” A Menina (Marina Flores) – ora a Filha, ora a Mãe, ora um antepassado – representa a ancestralidade. O autor e diretor foi ao Líbano, onde nasceram seus pais, no ano passado. “A viagem não foi fundamental para escrever a peça, mas para construir melhor sua atmosfera”, diz. “O principal foi o aspecto pessoal, a importância de mergulhar nas raízes e ver como o passado está dentro de todos. Revelo na Filha, um personagem contemporâneo, contradições que há nas relações entre Ocidente e Oriente, razão e emoção, tradição e contemporaneidade, sagrado e profano.” As Folhas do Cedro, então, discute na linha poético-filosófica que caracteriza a obra de Yazbek (O Fingidor, A Terra Prometida, A Entrevista) o estado de desnorteamento em que o ser humano se encontra. “O que está por trás são os valores perenes que assolam a alma humana desde que o mundo é mundo. São os velhos dilemas sob novos pontos de vista”. Ele define a peça como um “épico lírico dramático”, por conta da narrativa, da imaginação e da memória, respectivamente. AS FOLHAS DO CEDRO. Texto e direção de Samir Yazbek. Com Helio Cicero, Daniela Duarte, Douglas Simon, Gabriela Flores, Mariza Virgolino, Rafaella Puopolo e Marina Flores. No Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141, São Paulo, SP. Fone (11) 5080-3000. Sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 18h. R$ 5 a R$ 20. Até 22/8.
Escrito por Mauro Fernando às 23h00
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FERRO EM BRASA
Ligia Jardim 
Três gerações: choque entre o arcaico e o contemporâneo O palhaço Benjamin de Oliveira é considerado o criador do circo-teatro. Por volta de 1910, por questão financeira, ele resolveu introduzir a apresentação de uma peça após as exibições dos circenses. Formados por comédias (a maioria de autores desconhecidos) e por dramas como O Céu Uniu Dois Corações, de Antenor Pimenta, os repertórios deram grande popularidade às companhias e chegaram aos dias de hoje. O grupo Os Fofos Encenam (A Mulher do Trem, Assombrações do Recife Velho, Memória da Cana) está em cartaz em sua sede, em São Paulo, com Ferro em Brasa, texto de Antonio Sampaio adaptado por Newton Moreno. Dirigida por Fernando Neves, a montagem parte de pesquisa sobre o circo-teatro. As ações se passam no século passado, em uma aldeia portuguesa. O casamento de Judith (Erica Montanheiro ou Maria Stella Tobar, em dias alternados) e Júlio (Chico Carvalho) é adiado. Mãe de Judith, Margarida (Carol Badra ou Katia Daher) vê no enlace motivo de infelicidade para a filha. O pai da noiva, João (Eduardo Reyes), discorda. Júlio começa a se interessar por Margarida. Tia Emília (Cris Rocha) e o avô de Judith, Leonardo (Marcelo Andrade), notam que as peças desse quebra-cabeça não estão se encaixando bem. A oposição entre o arcaico e o contemporâneo é evidente no espetáculo. Há um ambiente em que a repressão condena ao confinamento os novos pensamentos que buscam arejar a sociedade. O choque entre esses polos – expresso nas aflições femininas de Margarida, bem como nos costumes religiosos – prenuncia a tragédia que se avizinha. A figura do avô, uma espécie de corifeu que comenta (à parte) as ações no proscênio, se encarrega de salientar a extensão da questão. A condição feminina está presente também em Joana (Katia Daher ou Carol Badra), amiga da família, que não encontra no país as circunstâncias necessárias para o pleno desenvolvimento de sua vida. As menções ao ditador António de Oliveira Salazar – ao autoritarismo que grassou em Portugal de 1932 a 1974 – reforçam o conflito entre o arcaico que sufoca e o contemporâneo que liberta. A trupe classifica Ferro em Brasa como um drama trágico. Há uma forte e inequívoca dimensão trágica no texto, condizente com a tradição ibérica – Yerma, de Federico García Lorca, por exemplo, principalmente quanto à questão feminina. O desempenho do elenco é muito bom. O cenário, de Leopoldo Pacheco e Marcelo Andrade, explora a estética do circo-teatro. Ferro em Brasa levou Cris Rocha a uma indicação ao Prêmio Shell em 2006, quando a peça estreou, e concorreu na categoria especial, pela pesquisa sobre o circo-teatro. FERRO EM BRASA. De Antonio Sampaio. Adaptação de Newton Moreno. Direção de Fernando Neves. Com Os Fofos Encenam. No Espaços dos Fofos Encenam. Rua Adoniran Barbosa, 151, São Paulo, SP. Fone (11) 3101-6640. Amanhã, às 21h, domingo, às 19h, e segunda-feira, às 20h. R$ 30. Até segunda-feira.
Escrito por Mauro Fernando às 18h31
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HELENA PEDE PERDÃO E É ESBOFETEADA
Cris Lyra 
Tablado de Arruar usa o melodrama para negar a indústria cultural
O melodrama é um gênero dramático que atingiu o auge no século 19, mas se faz presente, dissimulado, até hoje. A telenovela – entretenimento que sucedeu a radionovela, herdeira do folhetim – trabalha com recursos típicos desse gênero. O apelo ao sentimentalismo, o enredo pródigo de reviravoltas – no qual a punição do vício (do vilão) e a recompensa da virtude (do heroi) são constantes – e personagens estereotipados são algumas características do melodrama. Esse gênero se distingue pela busca pelo entendimento fácil do público – diálogo que, quase sempre, o levou ao rebaixamento da qualidade artística, ainda que sob a proteção do gosto popular. Não confundir, porém, com a definição do linguista russo Mikhail Bakhtin para cultura popular: a produção simbólica não-oficial. A telenovela já ganhou no País o caráter de entretenimento oficial. Helena Pede Perdão e É Esbofeteada (dramaturgia de Alexandre Dal Farra e direção de João Otávio) coloca o grupo Tablado de Arruar na Praça da Liberdade (às sextas-feiras) e na Praça Santa Cecília (aos sábados), em São Paulo. A peça brinca com o gênero melodramático. A companhia procura um teatro popular com a ajuda de recursos da TV – as cenas são exibidas em telão, ao vivo. Helena e Augusto formam um casal burguês falido – moram em uma mansão hipotecada. Mary e Jack invadem a casa – a princípio, parece tratar-se de um assalto, mas depois se revelam ativistas políticos. Envolvem Helena e Augusto em atividades subversivas. Tentam deixar Helena para trás em suas ações, mas ela sempre retorna. Mudanças repentinas e bom humor marcam o roteiro. Proferido diretamente ao público – dispensada a quarta parede –, o discurso contra as mazelas de toda ordem que se encontram em São Paulo quebra as regras do melodrama e serve à desconstrução desse gênero. O espetáculo se afirma como uma resposta à sociedade de consumo, perniciosa por ser excludente. Helena Pede Perdão levanta uma questão: se, pelo desfecho que nega premissas melodramáticas, enfraquece a indústria cultural ou se, mesmo em chave de paródia, a corrobora ao usar as mesmas armas dela. No primeiro caso, ponto positivo para o Tablado de Arruar, já que é essa a sua proposta; no segundo, ponto negativo. À plateia cabe essa reflexão. HELENA PEDE PERDÃO E É ESBOFETEADA. Dramaturgia de Alexandre Dal Farra. Direção de João Otávio. Com Alexandra Tavares, Clayton Mariano, Ligia Oliveira, Vitor Vieira e Joana Flor. Na Praça da Liberdade (sextas, às 16h) e na Praça Santa Cecília (sábados, às 16h), São Paulo, SP. Entrada franca. Até o dia 31.
Escrito por Mauro Fernando às 08h31
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