ROTUNDA


CIDADE DESTERRADA

Divulgação

A potência transformadora do teatro a serviço da população

 

As memórias do bairro paulistano de Cidade Tiradentes, entrelaçadas à vivência do Grupo Pombas Urbanas. Essa é a matéria-prima de Cidade Desterrada, peça que estreia hoje no Centro Cultural Arte em Construção, a sede da companhia. A população do bairro é alçada à condição de protagonista da própria história.

Adriano Mauriz, Cinthia Arruda, Juliana Flory, Marcelo Palmares, Marcos Kaju, Natali Santos, Paulo Carvalho e Ricardo Big desdobram-se em diversos personagens. E, conforme afirmam os diretores Mauriz, Palmares e Carvalho em uníssono, dedicam-se a construir uma “utopia presente”.

 

Rotunda - O que a vivência em Cidade Tiradentes demonstra / ensina ao Grupo Pombas Urbanas?

Mauriz, Palmares e Carvalho - Quando o grupo buscava uma sede na periferia de São Paulo, encontrou um galpão abandonado de 1,6 mil metros em ruínas no bairro de Cidade Tiradentes e passou a ocupá-lo. Nesse processo, decidiu morar no bairro e iniciou uma interlocução sensível com seus moradores, buscando a todo o momento fazer um teatro que fosse parte da vida das pessoas. Com essa ação consolidou um processo artístico comunitário “com, na e para a comunidade”, reconhecendo que todo ser humano é capaz de produzir arte. Essa vivencia nos ensina que, quando o indivíduo reconhece suas potências por meio da arte, é possível construir um projeto artístico que faça sentido para a vida.

Rotunda - Que tipo de troca de experiências há entre os membros da companhia e a população?

Mauriz, Palmares e Carvalho - A comunidade é protagonista em nosso fazer. É expressá-la o que dá razão ao nosso trabalho. Somos hoje moradores de Cidade Tiradentes. Construímos um intenso processo de formação artística e de público ao longo destes mais de dez anos no bairro.  Nossa dramaturgia é constantemente atravessada pelas problemáticas da comunidade, e a comunidade também se transforma pelo fato de existir um teatro aqui.

Rotunda - Os personagens de Cidade Desterrada são inspirados em moradores de Cidade Tiradentes?

Mauriz, Palmares e Carvalho - A pesquisa para o espetáculo parte do evento Café Memória, no qual os moradores eram convidados a tomar um cafezinho e falar das memórias do bairro. Foram dezenas de encontros entre 2012 e 2013, nos quais as pessoas contavam histórias de vida e sobre a região que tiveram grande relevância para a formação da identidade local. A partir disso, criávamos improvisações sobre essas histórias e compartilhávamos nos encontros seguintes. Os personagens são muitas vezes sínteses de muitos desses moradores, que constroem dia a dia a história de Cidade Tiradentes.

Rotunda - Quais as aspirações, as decepções, as lutas, os medos desses personagens?

Mauriz, Palmares e Carvalho - A história dos moradores de Cidade Tiradentes é marcada por lutas e pela força da mulher. O bairro tem 31 anos e em sua inauguração foram trazidas mais de 40 mil famílias para um lugar onde tudo o que existia eram prédios e nenhuma infra-estrutura, como educação, saúde e transporte. As pessoas chegaram aqui com o desafio de construir suas vidas diante de todas essas adversidades e, a partir de suas lutas, conquistaram sua dignidade. O espetáculo busca retratar a potência desses homens e mulheres e suas ações transformadoras para a melhoria de suas vidas.

Rotunda - Como se estrutura o texto do espetáculo? Histórias que se entrelaçam? Narrativa linear? Há protagonista?

Mauriz, Palmares e Carvalho - A partir da pesquisa sobre memória, território e identidade, o grupo identificou três eixos para construção da dramaturgia. A narrativa é atravessada pelas histórias ancestrais desse território, pela vivência do próprio grupo de teatro em sua sede e também pelas histórias de luta dos moradores do bairro. Um grupo de teatro chega a um território exilado da cidade. A partir de suas ações, desterra a memória de um povo sofrido e de lutas. Inventa novos mitos do lugar, criando um espaço de celebração e festa. Fazendo do teatro parte do dia a dia da comunidade. Só assim sua arte tem sentido. O Teatro está vivo! Viva o Teatro!

Rotunda - Como se deu o trabalho de pesquisa da montagem? Por quanto tempo?

Mauriz, Palmares e Carvalho - Com o projeto Pombas Urbanas 25 Anos: Compartilhando e Celebrando Nossa Arte em Construção, contemplado pela Lei de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, o grupo retoma a pesquisa sobre a poética da cidade, colocando um recorte sobre o bairro de Cidade Tiradentes. Essa dramaturgia própria era uma característica desenvolvida pelo diretor Lino Rojas (1942 –2005) e que foi interrompida com seu falecimento. Desde então, o grupo tem montado espetáculos de autores latino-americanos. No espetáculo Cidade Desterrada, o grupo retoma criação dramatúrgica coletiva e traz temas relevantes ao seu fazer artístico e social.

Rotunda - Cidade Desterrada propõe mudanças sociais?

Mauriz, Palmares e Carvalho - O espetáculo coloca o cidadão comum que habita o bairro de Cidade Tiradentes, que é historicamente excluído e marginalizado, como protagonista de sua própria história. Cidade Desterrada traz narrativas a partir de histórias reais de uma população esquecida pelo Estado, que conquistou melhores condições de vida a partir de suas lutas. O espetáculo fala de potências, conquistas e transformações como a própria história do Grupo criando o Centro Cultural Arte em Construção e organizando uma maneira própria de produzir arte com os moradores do bairro é em si uma utopia presente.


 

CIDADE DESTERRADA. Texto do Grupo Pombas Urbanas. Direção de Adriano Mauriz, Marcelo Palmares e Paulo Carvalho. Com o Grupo Pombas Urbanas. No Centro Cultural Arte em Construção. Avenida dos Metalúrgicos, 2.100, São Paulo, SP. Fone (11) 2285-7758. Terças a sextas, às 15h e às 20h, e sábados, às 20h. Até 4/12. Entrada franca.



Escrito por Mauro Fernando s 18h14
[ ] [ envie esta mensagem ]


HOTEL LANCASTER

João Caldas Fº

Entre o pé no chão e o voo desesperado, em meio a um modelo ético degradante

 

O ator, diretor e dramaturgo Mário Bortolotto utiliza a cultura pop como matéria-prima em seus textos. E isso não resulta em cooptação, pois se trata de autor que não abandona o universo autoral, evita sua pasteurização e não permite que elementos da cultura de massa o contaminem. E isso o coloca entre os expoentes do teatro de resistência, aquele que não se conforma com o ramerrame nem aceita o jogo neoliberal.

Peças como Medusa de Rayban, Nossa Vida não Vale um Chevrolet e A Frente Fria que a Chuva Traz sugerem uma escassez de referências éticas na contemporaneidade, embora Bortolotto se desvie sutilmente do niilismo e aponte a redenção para seus personagens. E revelam a (assumida) influência da geração beat, um contraponto ao bom gosto burguês.

Texto escrito em 2000 para um concurso de dramaturgia contra as drogas, Hotel Lancaster foi à cena pela primeira vez em 2002, sob a direção de Marcos Loureiro, no Teatro N.Ex.T, na capital paulista. Diversos cidades, tablados e temporadas depois, sempre sob a batuta de Loureiro, a montagem está em cartaz no Teatro Cemitério de Automóveis, em São Paulo, com três dos sete atores do elenco original: Henrique Stroeter, Jorge Cerruti e Sergio Mastropasqua.

Noite de Réveillon em um quarto no Hotel Lancaster, ordinário reduto de traficantes e de viciados. O mal-humorado Samuel (Cerruti) atende o homossexual Rick (Paulo Vinicius), que busca heroína, quando surge o viciado Cláudio (Carcarah), que oferece a irmã Debbie (Débora Estter) em troca de droga. Lola (Thereza Piffer) é a traficante a quem Rick apela após verificar que Samuel não tem a mercadoria almejada. O descompassado Odosvaldo (Stroeter) irrompe a cena antes de o psicopata Lobo (Mastropasqua) aparecer para cobrar uma dívida.

Os diálogos ao mesmo tempo rascantes e surpreendentemente bem-humorados não abrem espaço para psicologismos. À primeira vista um simplório embate entre marginais e vítimas em um ambiente degradante, Hotel Lancaster vai muito além da violência entre lunpens, estejam em crise de abstinência ou sob pleno efeito de entorpecente.

Eventuais vestígios de um moralismo maniqueísta estão fora do radar de Bortolotto, que fornece aos seus personagens a possibilidade da batalha existencial entre o porto seguro e o mar encapelado em um mundo carente de solidariedade e farto de valores deteriorados. É do inusitado encontro entre o afeto escamoteado e a delinquência explícita que o autor extrai o conteúdo poético com o qual banha suas criações.

 

 

HOTEL LANCASTER. De Mário Bortolotto. Direção de Marcos Loureiro. Com Carcarah, Débora Estter, Henrique Stroeter, Jorge Cerruti, Paulo Vinicius, Sergio Mastropasqua e Thereza Piffer. No Teatro Cemitério de Automóveis. Rua Frei Caneca, 384, São Paulo, SP. Fone (11) 2371-5743. Segundas e terças, às 21h30. R$ 30. Até 15/12.



Escrito por Mauro Fernando s 21h19
[ ] [ envie esta mensagem ]


10 MOSTRA LATINO-AMERICANA DE TEATRO DE GRUPO

Alécio César

Ledores no Breu, da Cia. do Tijolo: inspiração no educador Paulo Freire

 

Realizada pela Cooperativa Paulista de Teatro, a 10ª Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo começa no dia 30 e tem como eixo temático o artivismo, o trabalho sob a ótica do ativismo cultural. São 12 espetáculos com entrada franca – oito nacionais e quatro internacionais. Companhias de Natal (RN), Ribeirão Preto (SP), São Paulo (SP), Argentina, Chile, Cuba e Equador apresentam-se na capital paulista até 8/11.

Entre as trupes estão a Cia. do Tijolo, com Ledores no Breu, e OPOVOEMPÉ, com Arqueologia do Presente – A Batalha da Maria Antônia. A programação completa está em www.cooperativadeteatro.com.br. O produtor Sérgio Audi fala sobre o evento – costura às próprias palavras um texto escrito pelo coordenador geral da Mostra, Edgar Castro.

 

Rotunda – Por que mostras internacionais de teatro são importantes?

Audi – Porque fazem circular a informação e a prática teatral, que de outro modo não circulariam, visto que o teatro é uma prática viva, que se materializa e se transforma na ação do fazer e na relação com a recepção do público

Rotunda – Quais as novidades da 10ª Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo em relação à edição anterior?

Audi – Nesta mostra as atividades se espalham pela cidade de São Paulo em dez pontos diferentes (Centro Cultural São Paulo, Centro Cultural da Juventude, SP Escola de Teatro, Instituto Pombas Urbanas, Estações de trem da CPTM, CEU Inácio Monteiro, CEU Perus, CEU Casa Blanca, CEU Azul da Cor do Mar,  Espaço Sobrevento), capilarizando seu alcance, numa significativa expansão do campo de alcance da programação, riscando uma traçado geográfico que diminui distâncias construídas pela exclusão. Este, talvez, o sentido maior: minar os naturalismos que nos distanciam uns dos outros, imaginando criativamente outras possibilidades comunitárias. Além disso, há uma maior quantidade de grupos brasileiros.

Rotunda – O que há em comum entre os trabalhos das companhias convidadas, dos pontos de vista ético e estético?

Audi – Todas trabalham sob o ponto de vista do ativismo cultural, ou o que chamamos de artivismo, trazendo à tona, mais que a sempre presente dimensão política da ação artística, a ação que intencionalmente instaura uma outra perspectiva de experiência social, na tentativa de abrir clareiras na selva dos automatismos cotidianos para a vivência de outros paradigmas de relação pública.

Rotunda – Que critérios orientaram a escolha dos grupos?

Audi – A realização da décima edição da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo é a atualização de um território de resistência, uma escrita histórica onde o protagonismo do coletivo guia o modus operandi dos laboratórios sociais que são os grupos de teatro. Não por acaso, neste momento em que as democracias ocidentais estertoram nos seus balanços contábeis e as mandíbulas do fascismo se hidratam na saliva do oportunismo, a Cooperativa Paulista de Teatro elege o artivismo como eixo temático e critério de curadoria. Além, é claro, da excelência artística, originalidade dos trabalhos e importância histórica dos grupos.

Rotunda - Qual o objetivo das atividades paralelas da mostra?

Audi – Um espaço de encontro e espelhamento crítico, no qual as trocas artísticas constituem um tráfico de matéria subversiva que pretende corroer as estruturas calcificadas de um tipo de sociabilidade que coisifica nossas humanidades ao organizar nossas vidas dentro do previsível e da ausência de poesia.



Escrito por Mauro Fernando s 21h01
[ ] [ envie esta mensagem ]


OS MEQUETREFE

Luiz Doroneto

Os Parlapatões e a palhaçaria que contesta a lógica do cotidiano

 

Quatro palhaços chamados Dias têm um dia atribulado no espetáculo Os MeQueTreFe, do grupo Parlapatões. Uma jornada cômica do despertar à hora de dormir, inspirada no nonsense e que desafia a lógica. Os quatro transformam ações cotidianas em situações inusitadas e sugerem outras maneiras de encarar a vida.

A peça estréia no dia 18 no Espaço Parlapatões, na capital paulista. Raul Barretto, Hugo Possolo, Fabek Capreri e Alexandre Bamba atuam sob a direção de Alvaro Assad, membro do Centro Teatral e Etc e Tal. Além de montagens da própria trupe, como No Buraco, Assad dirigiu, por exemplo, A Noite dos Palhaços Mudos, da Cia. La Mínima, baseada nos quadrinhos de Laerte.

 

Rotunda – Como definir o nonsense que norteia Os MeQueTreFe? Por que esse ponto de partida?

Assad – Termo criado por Edward Lear, ilustrador e poeta inglês, nonsense é a falta do senso e opções lógicas. Nada mais confortável dentro do inesperado caminho tomado pelos palhaços. Os Parlapatões, Patifes e Paspalhões têm em seu nome de grupo um jogo que já parte desse princípio. MeQueTreFe é o encontro dessa possibilidade que a palhaçaria dialoga com o divertido e inusitado universo do surreal.

Rotunda – Além do nonsense, há outras referências na criação do espetáculo?

Assad – Uma mistura de gags clássicas com objetos que se transformam em elementos lúdicos e literalmente voam pelo palco. Enormes escadas, latões de 100 litros, cabideiros, figurinos e os próprios atores estimulam o público à imaginação constante, transformando o espaço cênico em referências do mundo contemporâneo, mas subvertendo a ordem a que estamos acostumados. Tirar dessa zona de conforto é e sempre foi uma busca do jogo do palhaço.

Rotunda – Por que os palhaços têm o mesmo nome? O que os difere e em que se assemelham?

Assad – Somos Dias há dias. Outros tantos Silvas, Souzas, Mouras. No caso de MeQueTreFe, são todos de uma mesma família(?). A dos palhaços e suas curiosidades e ilógica que comunga. No jogo da palhaçaria temos como uma das bases as figuras do Augusto e do Branco. Aquele que recebe o suporte para realizar a piada (Augusto) e o outro que prepara, “levanta a bola” para execução (Branco). No espetáculo as figuras podem ser alternadas ou manter essa linha durante toda a linha de encenação. Definitivamente, a diversão é o que os move. Não há inércia nesse jogar de cena.

Rotunda – Que situações os quatro vivenciam na montagem?

Assad – Os Dias vivenciam o seu próprio pleonasmo homônimo. Como uma piada de trocadilho, realizam suas ações cotidianas, do despertar a enfrentar a labuta diária. Obstáculos que são comuns aos ditos seres sérios e racionais, não passam nem um segundo perto de qualquer dia do dia dos Dias. Um acordar, despertar, vestir, alimentar, deslocar, trabalhar é transformado em uma variação de ação hercúlea ou mesmo em facilidade.

Rotunda – A desconstrução da lógica cotidiana que os palhaços promovem na peça resulta em transgressão ao establishment?

Assad – Fiz essa pergunta aos quatro Dias. Estão em estado de choque me olhando pra entender o que se passa com a lógica, desconstrução e principalmente ao establishment. Risos. Definitivamente, a desconstrução é o elemento mais fértil na relação do palhaço com a realidade. E, claro, se esse palhaço for urbano, uma escada será tudo, menos um elemento de usar os degraus para subir ou descer.

Rotunda – O palhaço é um crítico da realidade? Por quê?

Assad – O olhar do palhaço vem com uma busca de contraponto. O real nos força a seguir regras impostas, estabelecidas e definidas. Para o palhaço, a palavra definir não tem nem começo, quanto mais encerramento. Usar e abusar dessas opções são praticamente reflexos de ação de um palhaço.

Rotunda – Como são cenografia, figurinos, trilha sonora e iluminação?

Assad – Elementos do universo cotidiano de palhaços misturados com a loucura e o inusitado. A sonoplastia traz uma pontuação precisa pontuando a cena, tal como a iluminação que recorta o palco nos levando a espaços inusitados. Dialogam sempre com a estrutura mais que cativante desses devaneios dos quatro palhaços. No figurino, hélices podem cobrir chapéus, como mini-livros adornam grandes sapatos. O cenário traz barris, escadas e bacias em diversos tamanhos que podem se transformar em tudo, menos naquilo para que foram concebidos. Afinal, em MeQueTreFe o esperado não é o óbvio.


 

OS MEQUETREFE. Roteiro de Hugo Possolo. Direção de Alvaro Assad. Com os Parlapatões. No Espaço Parlapatões. Praça Franklin Roosevelt, 158, São Paulo, SP. Fone (11) 3258-4449. Terças, às 21h, e sábados e domingos, às 17h. De 18/10 a 6/12. R$ 20.



Escrito por Mauro Fernando s 11h54
[ ] [ envie esta mensagem ]


Mariana Beda

Nichos que exacerbam o individualismo e desconstroem a coletividade

 

O programa de Poema Suspenso Para uma Cidade em Queda avisa: “Trata-se de uma fábula contemporânea sobre a sensação de suspensão e paralisia geral do mundo contemporâneo”. “Cada personagem fica preso em sua metáfora, ignorando o conjunto em sua volta”, assinala. Produção da Cia. Mungunzá de Teatro, a montagem está em cartaz no Teatro João Caetano, em São Paulo.

Os atores/criadores Lucas Bêda, Marcos Felipe, Sandra Modesto, Verônica Gentilin e Virginia Iglesias e os técnicos performers Leonardo Akio e Pedro Augusto estão em cena sob a direção de Luiz Fernando Marques. Conhecida pelo premiado espetáculo Luís Antônio-Gabriela, a Cia. Mungunzá trabalha, pois, com o diretor fundador do premiado Grupo XIX de Teatro, responsável pelas peças Hysteria e Hygiene.

Um andaime configura o cenário Poema Suspenso Para uma Cidade em Queda, assinado pela companhia, por Marques e pelo diretor assistente, Paulo Arcuri. Os personagens se instalam em nichos que exalam o individualismo em que cada um se prende. O espectador senta em uma arquibancada no palco – um dos méritos da montagem, que aproxima a plateia da cena.

Amparada na narrativa, a dramaturgia capta no cotidiano histórias pessoais que não se conectam, a reverberar uma coletividade que não se configura. O mote: uma pessoa cai do topo de um edifício, mas não chega ao chão, metáfora para o imobilismo que enreda os personagens.

Marques, no texto de apresentação do espetáculo à imprensa, fala em provocar um “estranhamento na platéia”, o que remete ao recurso épico anti-ilusionista explorado por Bertolt Brecht – “quando uma reflexão crítica é preferível à identificação comovida com a cena”, como registra Patrice Pavis em Dicionário de Teatro. “O ator não deve despertar emoção no espectador, mas provocar sua consciência crítica”, como escreve Margot Berthold em História Mundial do Teatro.

A peça lança um olhar questionador sobre a contemporaneidade ao apresentar uma interrogação à platéia e efetiva o que anuncia no programa. Não se trata, portanto, de estelionato cultural. A dramaturgia e a encenação, porém, não realizam plenamente a concepção brechtiana, que rejeita a identificação entre espectador e personagem, pela carga de lirismo, que quase chega a resvalar no sentimentalismo, aplicada ao texto e à cena.

 

 

POEMA SUSPENSO PARA UMA CIDADE EM QUEDA. Dramaturgia da Cia. Mungunzá. Direção de Luiz Fernando Marques. Com a Cia. Mungunzá. No Teatro João Caetano. Rua Borges Lagoa, 650, São Paulo, SP. Fone (11) 5573-3774. Quintas a sábados, às 21h, e domingos, às 19h. Entrada franca. Até 22/11. Recursos de audiodescrição e interpretação em libras para deficientes visuais e auditivos em 18/10 e em 15/11.



Escrito por Mauro Fernando s 21h04
[ ] [ envie esta mensagem ]


DEZEMBRO

Renato Mangolin

Carolina Fabri, Ernani Sanchez, Michelle Gonçalves e um embate ideológico

 

Uma reflexão sobre a guerra. É o que o núcleo teatral Isso Não É Um Grupo, fundado em 2014 pela atriz e gestora cultural Michelle Gonçalves e pelo dramaturgo e diretor Cássio Pires, promove a partir do dia 7 com a reestreia de Dezembro, do chileno Guillermo Calderón. Diego Moschkovich responde pela direção da montagem, a primeira produção brasileira de um texto de Calderón.

O chileno apresentou Escola, peça escrita e dirigida por ele, na 1ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), no ano passado – em cena, aulas (teóricas e práticas) sobre a mais-valia, a contrainformação na revolução, a postura guerrilheira. Espetáculo sustentado, portanto, na paixão política.

A ideologia também alimenta Dezembro. Duas gêmeas grávidas, Paula (Carolina Fabri) e Trinidad (Michelle Gonçalves), encontram-se na noite de Natal e com o caçula Jorge (Ernani Sanchez), que volta da guerra que engloba Chile, Peru e Bolívia. Conflitos sociais misturam-se a problemas pessoais. Há uma disputa entre elas, um jogo de poder que envolve o irmão? Moschkovich prefere não falar sobre isso: “Estraga a surpresa de quem ainda não viu”.

O diretor, no entanto, não evita a discussão sobre que questões iluminam a peça: se religiosas, étnicas ou ideológicas. “Não sei se consigo diferenciar muito as questões étnicas e religiosas da ideologia. Certamente essas questões são também ideológicas”, afirma.

E justifica: “O apartheid não era fundamentado em ideologia? Outro dia li sobre a senhora que não queria ser atendida por negros em Salvador. Em Salvador, a cidade mais negra fora da África. Como explicar isso senão através da herança ideológica de uma elite colonial dependente da Europa?”.

Moschkovich também coloca a religião na berlinda. “Leia a Bíblia e encontre um parágrafo que diga que os não-cristãos devem ser queimados. Ainda assim, a Igreja católica usou e abusou desse recurso. Como explicar isso sem ideologia? Ou as tropas paramilitares evangélicas, que estão dispostas a castigar fisicamente a população LGBT, em nome da religião. Isso é ideologia”, explica.

O diretor ainda revela o que o seduziu em Dezembro: “A mestria com que o dramaturgo trata os temas de que trata”. “Às vezes”, diz, “você coloca os atores para ler uma peça e eles leem, falam as palavras, mas não estão lá. Outras vezes, vão num fôlego só, até o final, e quando termina há um silêncio profundo. Quando isso acontece, é porque a peça está pedindo para ser montada”.

O cenário, assinado por Rafael Souza, evoca simultaneamente um bunker e uma sala de estar. Moschkovich enfatiza o jogo dos atores, que operam luz e som. “É uma maneira de propor o retorno da centralidade do ator na cena: o ator-ativo, atuante, o ator que intermedeia todos os elementos da cena. Esse é o teatro em que eu acredito”, relata.

 

 

DEZEMBRO. De Guillermo Calderón. Direção de Diego Moschkovich. Com Carolina Fabri, Ernani Sanchez e Michelle Gonçalves. No Tusp. Rua Maria Antônia, 294, São Paulo, SP. Fone (11) 3123-5233. Quartas e quintas, às 21h. R$ 20. De 7/10 a 12/11.



Escrito por Mauro Fernando s 19h44
[ ] [ envie esta mensagem ]


A MORTE DE BESSIE SMITH

Divulgação

Racismo e violência

 

O tema da nona edição do ciclo anual 7 Leituras, 7 Autores, 7 Diretores é a violência social, conta Eugênia Thereza de Andrade, que assina a concepção e a direção geral do evento. A leitura encenada de A Morte de Bessie Smith, de Edward Albee, está agendada no Sesc Consolação (no dia 29) e no Sesc Osasco (em 6/10), sob a direção de Juliana Galdino e Roberto Alvim. Trata-se do quinto texto em cartaz neste ano – também estão previstas as leituras de “A Lei de Lynch”, de Walter Quaglia, e de “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess. Eugênia, Marco Antônio Pâmio e Mika Lins respondem pela seleção das peças.

Amor, intolerância e utopia são alguns dos temas explorados pelo ciclo em anos anteriores. “Mika escolheu o tema deste ano pela obviedade. A violência está no cotidiano. O mundo e o País estão violentos”, afirma Eugênia. “O problema da imigração, por exemplo, é uma coisa assustadora. Nas fotos que circularam pelo mundo todo, é só substituir os imigrantes pelos que foram enviados aos campos de concentração por causa da Segunda Guerra Mundial. É a mesma cena.”

Augusto Cesar, Jhe Oliveira, Jorge Luiz Alves, Luiz Felipe Lucas, Maíra Dvorek, Oswaldo Mendes e Tuna Dwek formam o elenco de A Morte de Bessie Smith. Escrita em 1959, a peça estreou no ano seguinte em Berlim. Ainda em 1960, Luiz Carlos Maciel a traduziu e a dirigiu em Salvador. “Era uma peça moderna na época. E ainda é”, diz Eugênia. “O texto é a síntese da violência.” A Morte de Bessie Smith associa o racismo à violência. Conhecida como Imperatriz do Blues, Bessie faleceu em 1937, aos 43 anos, em decorrência de um acidente de carro no Mississippi. A peça aborda as circunstâncias da morte – por ser negra, a cantora teve atendimento hospitalar negado.

Titus Andronicus, de William Shakespeare, e Dois Perdidos Numa Noite Suja, de Plínio Marcos, ganharam leituras neste ano. “Plínio Marcos, que é o maior autor brasileiro, trabalha com a violência gerada pela miséria, com a miséria mobilizando o que há de mais violento em nós”, relata Eugênia. Há embutida nos textos escolhidos, pois, uma crítica à sociedade. No ciclo, os diretores costumam ir além da simples leitura dramática – esboçam uma encenação, com ambientação cenográfica e adereços que a aproximam de uma montagem teatral.

 

A MORTE DE BESSIE SMITH. De Edward Albee. Direção de Juliana Galdino e Roberto Alvim. Com Augusto Cesar, Jhe Oliveira, Jorge Luiz Alves, Luiz Felipe Lucas, Maíra Dvorek, Oswaldo Mendes e Tuna Dwek. Entrada franca.

No Sesc Consolação. Rua Dr. Vila Nova, 245, São Paulo, SP. Fone (11) 3234-3000. Dia 29, às 19h30.

No Sesc Osasco. Avenida Sport Club Corinthians Paulista, 1.300, Osasco, SP. Fone (11) 3184-0900. Em 6/10, às 19h30.



Escrito por Mauro Fernando s 19h23
[ ] [ envie esta mensagem ]


FILOCTETES

João Caldas

Um conflito ético entre o indivíduo e a coletividade

 

No livro Marcio Aurelio – O que Estava Atrás da Cortina?, de Aguinaldo Cristofani Ribeiro da Cunha, o diretor Marcio Aurelio explica o nascimento da Cia. Razões Inversas: “Com alunos da primeira turma de formandos do Departamento de Artes Cênicas da Unicamp aconteceu a criação da Companhia Razões Inversas. Sou seu diretor artístico desde sua criação, em 1989/1990. Temos como foco principal a encenação de grandes autores no sentido de pensar o diálogo com a contemporaneidade”.

O grupo comemora os 25 anos da estreia de sua primeira montagem, Vem... Senta Aqui ao meu Lado e Deixa o Mundo Girar: Jamais Seremos tão Jovens, com outra estreia: Filoctetes, de Heiner Müller (1929-1995), entra em cartaz na Funarte, em São Paulo, no dia 25. Marcelo Lazzaratto, Paulo Marcello e Washington Luiz compõem o elenco. Conhecida também pelos espetáculos Senhorita Else (de 1997), Agreste (de 2004) e Anatomia Frozen (de 2007), a trupe realiza projeto de ocupação da Funarte.

Müller escreveu Filoctetes inspirado na tragédia grega de Sófocles (496 a.C.-406 a.C.). “No Filocteto sofocliano”, assinala Sábato Magaldi no livro O Texto no Teatro, “o tema (...) é a nobreza de caráter (...).” “Um oráculo predisse que os gregos só conquistariam Troia se Filocteto, abandonado há dez anos na ilha de Lemnos, por causa de uma ferida no pé, voltasse ao campo de batalha, com o seu arco. Ulisses leva Neoptólemo, filho de Aquiles, a incumbir-se da difícil missão, tal o ódio votado pelo solitário aos seus compatriotas. Num primeiro movimento, usando de astúcia, Neoptólemo consegue apoderar-se da arma salvadora. Mas depois, arrependido, retorna ao local, para devolver o arco, sem o qual o enganado não poderia sobreviver (...)”, conta.

“Hércules surge em cena e promete ao protagonista que enviará Esculápio a Troia, para libertá-lo dos males”, finaliza Magaldi. A versão de Müller, indica, “abole o coro grego e o desfecho dado por Hércules, concentrando a ação em Filocteto, Odisseu (Ulisses) e Neoptólemo.” Müller contrapõe os escrúpulos éticos individuais ao dever para com a coletividade. “Os episódios acompanham, em linhas gerais, o modelo sofocliano, só que a ‘nobreza de caráter’ de Neoptólemo não se encerra na devolução do arco a Filocteto, pondo em risco a própria vida, a de Odisseu e a dos gregos em luta.”

Magaldi ainda relata: “Odisseu se dispõe ao sacrifício, desde que Filocteto siga Neoptólemo a Troia e invente uma mentira sobre a sua morte, para que os comandados se mantenham na guerra”. Enfim, a questão em jogo: “Não se trata apenas da ética em relação a Filocteto, nem de salvar suas vidas em perigo, mas da responsabilidade para com o exército grego, cuja vitória dependia do arco devolvido. Por isso, Neoptólemo pega a espada e a finca nas costas de Filocteto”.

Aurelio sinaliza uma diferença importante entre os dois textos. “Para Sófocles, Filoctetes tem de viver. Müller, dois mil anos depois, aponta que outra maneira de fazer política venceu”, afirma. Lazzaratto diz que “Neoptólemo cria uma ética para novos tempos”. O diretor esclarece que a ideia de Müller “não é resolver uma angústia pessoal, mas estabelecer um embate social, a fragilidade do indivíduo em face do poder do Estado”. Marcello, por sai vez, afirma que o espetáculo não toma partido de personagem algum: “Não queremos fazer uma peça moralista, mas provocar o espectador”.

O projeto de ocupação da Funarte pela Razões Inversas traz também peças de outras companhias. Criaturas Alaranjadas Cia. de Teatro apresenta, a partir do dia 16, Eros Impuro. Escrito e dirigido por Sérgio Maggio, o monólogo com o ator Jonas Abreu tem o abuso sexual contra crianças e adolescentes como tema. O Grupo Instante reestreia A Espera Dela no dia 30 e coloca em cartaz, em 31/10, o infantil A Primeira Palavra, dois textos de Maria Cláudia Mesquita. Marcello assina a direção de A Espera Dela, que trata do universo feminino. Sob a direção de Day Porto, A Primeira Palavra aborda, conforme a autora, “tudo que existe pra ser contado e recontado”.

 

FILOCTETES. De Heiner Müller. Direção de Marcio Aurelio. Com a Cia. Razões Inversas. De 25/9 a 20/12. Sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 20h. R$ 20.

EROS IMPURO. Texto e direção de Sérgio Maggio. Com a Criaturas Alaranjadas Cia. de Teatro. De 16/09 a 20/09. Quarta a sábado, às 21h30, e domingo, às 19h30. R$ 20.

A ESPERA DELA. De Maria Cláudia Mesquita. Direção de Paulo Marcello. Com o Grupo Instante. De 30/9 a 17/12. Quartas e quintas, às 21h. R$ 20.

A PRIMEIRA PALAVRA. De Maria Cláudia Mesquita. Direção de Day Porto. Com o Grupo Instante. De 31/10 a 20/12. Sábados e domingos, às 16h. R$ 10.

 

Na Funarte. Alameda Nothmann, 1.058, São Paulo, SP. Fone (11) 3662-5177.



Escrito por Mauro Fernando s 13h57
[ ] [ envie esta mensagem ]


MANUAL DE AUTODEFESA INTELECTUAL

Divulgação

Kiwi questiona o senso comum e o pensamento hegemônico

 

 

O diretor Fernando Kinas, da Kiwi Cia., opina: “O teatro deveria divertir, informar e incomodar as pessoas. Em outras palavras, ‘organizar o escândalo público’”. A companhia recoloca em cartaz Manual de Autodefesa Intelectual em 3/7, no Galpão do Folias, em São Paulo. Fernanda Azevedo, Maíra Chasseraux, Maria Carolina Dressler e Vicente Latorre compõem o elenco, além dos músicos Eduardo Contrera e Elaine Giacomelli. O próprio Kinas assina o roteiro. Cenas independentes, costuradas em torno de um eixo – superstições, mistificações e crendices que povoam o cotidiano –, formam o espetáculo.

Aparentemente inócuos, superstições, obscurantismos, crendices, mistificações e senso comum interferem na vida das pessoas e, consequentemente, na sociedade. Para Kinas, “são potencialmente muito graves para a autonomia das pessoas”. “Podemos ser facilmente enganados, tanto em nossas decisões pessoais e cotidianas, quanto em nossas escolhas públicas mais gerais, como aquelas que envolvem opções políticas. Podemos tanto perder dinheiro, enganados por charlatões de todo tipo, quanto contribuir para a manutenção de uma sociedade sexista, homofóbica, racista e profundamente desigual”, indica.

Superstições, mistificações e crendices fazem com que “tomemos como certo e verdadeiro aquilo que muitas vezes não passa de engano e ideologia mistificadora” e tendem a adormecer consciências e a levar a um comportamento acrítico. “Uma das críticas que se houve no Brasil é ‘você é muito crítico’. Na verdade, nós somos muito pouco críticos, e esta situação não é um defeito pessoal, mas uma construção social de séculos de dominação política, cultural, social, educacional”, aponta o diretor. Horóscopo, numerologia, pensamento circular, religiões, teorias da conspiração estão em discussão, em tom bem-humorado.

Teatro documentário, música, dança e audiovisual são recursos utilizados na montagem – Kinas evita enquadrá-la em um gênero. “A clássica teoria dos gêneros não é suficiente para dar conta da multiplicidade e das novas opções do teatro contemporâneo. Mas podemos citar como uma das nossas influências o teatro documentário, sobretudo aquele que se filia às contribuições críticas do agit-prop e de (Erwin) Piscator, do teatro dialético de (Bertolt) Brecht, das contribuições de Peter Weiss e do teatro popular anti-hegemônico”, afirma.

Manual de Autodefesa Intelectual estreou no Sesc Belenzinho, em São Paulo, em abril. A trupe já tratou de assuntos como a violência do Estado (em Morro como um País, de 2013) e a opressão de gênero combinada com a exploração de classe (em Carne, de 2010). “Tentamos formular as melhores questões e estimular o debate sobre temas que nos parecem essenciais para a sociedade”, explica o diretor. “Nossa aposta é que o teatro possa dialogar com a sociedade em que é produzido, problematizando o que parece natural, perturbando os cânones e, na medida do possível, indicando algumas pistas de mudança.”

 

 

MANUAL DE AUTODEFESA INTELECTUAL. Roteiro e direção de Fernando Kinas. Com a Kiwi Cia. de Teatro. No Galpão do Folias. Rua Ana Cintra, 213, São Paulo, SP. Fone (11) 3361-2223. Sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 19h. R$ 20 (R$ 7 para moradores de Campos Elíseos com comprovante de residência). Até 2/8.



Escrito por Mauro Fernando s 19h56
[ ] [ envie esta mensagem ]


A EXCEO E A REGRA

Jonatas Marques

A Cia. Estável e os mecanismos do capital que mascaram a relação entre opressor e oprimido

 

 

A Cia. Estável, definitivamente, rompeu com a cultura burguesa. O grupo recoloca em cartaz nesta sexta (10/4) o Projeto Expedições, uma série de apresentações do espetáculo A Exceção e a Regra por estações da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). As Linhas Esmeralda e Rubi já o receberam, e estão agendadas quatro apresentações na Turquesa – nas Estações Ribeirão Pires (10/4), Mauá (17/4), Santo André (20/4) e São Caetano (27/4). As sessões são gratuitas.

Peça de Bertolt Brecht (1998-1956) dirigida por Renata Zhaneta, A Exceção e a Regra traz a relação entre explorador e explorado, expõe os instrumentos sociais que justificam o abuso de um e a sujeição do outro e apresenta a injustiça mascarada de justiça. Uma pequena expedição cruza um deserto – um comerciante, um guia e um cule viajam à cidade de Urga. O comerciante quer uma concessão para explorar petróleo – para isso, no entanto, precisa chegar à cidade antes de seus concorrentes.

O ator Nei Gomes conta o que motiva a companhia a montar Brecht e, mas especificamente, A Exceção e a Regra. “Para um grupo de teatro que se considera político, a obra de Brecht é referência como leitura por abordar as questões de luta de classes de forma dialética, sem ‘vilanizar’ ninguém além do próprio sistema de exploração que legitima as relações como aí estão. Lemos a obra e fizemos vários exercícios a partir dela, até enfim decidirmos montá-la como um espetáculo de rua”, afirma.

O texto foi escrito em 1930, e Gomes não o vê envelhecido. “Mais importante do que Brecht diz, acreditamos ser a forma como ele expõe as relações entre os homens. As obras têm bastante coisa do tempo em que Brecht viveu, porém as relações estão sempre expostas e vemos que continuam ou até se aperfeiçoaram no que diz respeito à divisão de classes sócias. Além disso, em suas obras teóricas e entrevistas, Brecht sempre disse que sua obra estava aí para ser uma referência. Muita coisa é possível de ser adaptada para nosso tempo”, observa.

Há uma postura ideológica na decisão de ir à CPTM encenar uma peça? “A primeira partida nessa busca foi a rua, que entendemos ser um posicionamento político, sendo mais que ideológico”, responde o ator. “Nosso interlocutor é a classe trabalhadora, e a rua, como lugar aberto e de passagem, é o local em que essa possibilidade se verticaliza. Você para se quiser e se puder, não paga por isso e muitas vezes interfere no espetáculo, como costuma acontecer. Escolhemos as saídas de trem da CPTM por serem locais de passagem dos trabalhadores e trabalhadoras, além de tentarmos sempre um horário que as pessoas possam acompanhar o maior tempo possível.”

Além de Gomes, formam o elenco Andressa Ferrarezi, Daniela Giampietro, Juliana Liegel, Luiz Calvvo, Osvaldo Pinheiro, Sérgio Zanck, Paula Cortezia e Zeca Volga. O grupo desenvolve desde 2006 um trabalho de pesquisa junto a 1,2 mil homens em situação de rua acolhidos no Arsenal da Esperança, albergue localizado na Zona Leste de São Paulo. A residência artística no Arsenal da Esperança originou também o espetáculo Homem Cavalo & Sociedade Anônima.

Gomes relata que houve mudanças em A Exceção e a Regra desde a primeira temporada, no Arsenal da Esperança. “Nossa referência para a mudança é o tempo que vivemos. As questões políticas do nosso país estão bem diferentes se compararmos 2009 e 2015, as coisas estão acontecendo numa velocidade muito grande e, a nosso ver, o teatro tem de ser uma arte antenada com seu tempo, pois acontece ali, naquele momento em relação com sujeitos históricos que são o público.”


A EXCEÇÃO E A REGRA. De Bertolt Brecht. Direção de Renata Zhaneta. Com a Cia. Estável. Nas Estações Ribeirão Pires (10/4), Mauá (17/4), Santo André (20/4) e São Caetano (27/4), da Linha Turquesa, da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), às 20h. Apresentações gratuitas.



Escrito por Mauro Fernando s 14h43
[ ] [ envie esta mensagem ]


FIGURAS E VOZES

Arnaldo J. G. Torres

O Ballet Stagium e o desafio de investigar o estado de espírito dadaísta

 

 

O crítico de arte Giulio Carlo Argan aponta no livro Arte Moderna – Do Iluminismo aos Movimentos Contemporâneos que “o movimento Dada é uma contestação absoluta de todos os valores, a começar pela arte”. O Ballet Stagium investiga o espírito dadaísta em Figuras e Vozes, que fica em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, de hoje (27/3) a domingo (29/3).

“Enveredar pelo Dadaísmo não é tarefa simples em nossos dias”, reconhece a fundadora (ao lado de Décio Otero) do Stagium, Marika Gidali. “É necessário o desafio de trabalhar com o aleatório e o acaso num mundo totalmente institucionalizado e movido pela rapidez das informações. O movimento Dadá propõe o retorno às coisas essenciais. Sugeria-se começar do zero e fazer uma arte ‘nova’”. A fundação de um círculo literário e artístico por Tristan Tzara, Richard Huelsenbeck, Hugo Ball e Hans Arp em 1916 marca a criação do Dadaísmo. Marcel Duchamp, Max Ernst, Francis Picabia e Man Ray também são expoentes do movimento.

A desmistificação de valores artísticos é uma das características do Dadaísmo. O ready made de Duchamp – um objeto qualquer, como um mictório ou uma roda de bicicleta, apresentado como se fosse uma obra de arte – exemplifica essa postura. “O que determina o valor estético já não é um procedimento técnico, um trabalho, mas um puro ato mental, uma atitude diferente em relação à realidade”, indica Argan.

“Para o movimento Dadaísta importava, mais que a inventividade, a seleção e a reorganização dos elementos, permitindo que os objetos selecionados servissem a outra coisa, com função diferente da que comumente lhe era atribuída”, reforça Marika. “Sendo assim, a criação artística orientava esse novo olhar, que obrigava também o espectador a mudar o ângulo de visão”. É por essa via que o Dadaísmo propõe a transformação de valores sociais.

O processo de criação do espetáculo? “Trabalhamos junto aos participantes estudos e pesquisas no Dadaísmo, mais como um estado de espírito que propriamente um movimento com leis e estruturas próprias”, explica Marika. “Foram desenvolvidos laboratórios de ação, criando um grande diálogo entre os participantes. Ambientação, figurinos e elementos cênicos também foram incorporados nesse processo.”


FIGURAS E VOZES. Coreografia de Décio Otero. Direção de Marika Gidali e Décio Otero. Com o Ballet Stagium. No Teatro Sérgio Cardoso. Rua Rui Barbosa, 153, São Paulo, SP. Fone (11) 3288-0136. Hoje e amanhã, às 21h, e domingo, às 18h. R$ 20.



Escrito por Mauro Fernando s 14h26
[ ] [ envie esta mensagem ]


POST SCRIPTUM

Fernando Stankuns

Quatro personagens e o resgate de valores essenciais

 

 

Formada em 2007, a Cia. Teatral Arnesto nos Convidou coloca o conflito entre árabes e judeus em primeiro plano a partir do dia 26, quando Post Scriptum estreia no Festival de Teatro de Curitiba. Samir Yazbek assina texto e direção da peça. “O teatro, em particular, é um tipo de arte em que se pode exercer o espírito crítico sem se ignorar o sensível, procedimento que nos parece imprescindível para abordarmos assuntos tão polêmicos quanto ancestrais”, diz. A montagem cumpriu pré-estreia no dia 18 no Sesc Santos, e datas de apresentações na Grande São Paulo ainda não estão confirmadas.

O radicalismo que recobre essa questão está materializado em uma família constituída pelo Pai (Helio Cicero), palestino e muçulmano, pela Mãe (Daniela Duarte), libanesa e cristã ortodoxa, pelo Primogênito (Fause Haten), brasileiro e muçulmano, e pelo Caçula (Pedro Augusto Monteiro), brasileiro e católico. “O espetáculo apresenta o radicalismo como impeditivo para o estabelecimento de qualquer processo de paz”, afirma Yazbek. “Post Scriptum trabalha com a ideia de que israelenses e palestinos são povos irmãos, filhos de um mesmo pai, partilhando de uma mesma origem.”

Divididas entre os planos da realidade, da imaginação e do mito, as ações da peça se desenrolam a partir do desaparecimento do Pai em um acidente aéreo na Amazônia.​ “O plano da realidade retrata, de forma aristotélica, o cotidiano de uma família brasileira, de origem árabe, em que o casamento entre uma cristã ortodoxa libanesa e um muçulmano palestino, desaparecido num acidente aéreo do Amazonas, origina os conflitos ideológicos, políticos e religiosos que envolvem o filho único do casal, denominado Caçula, e o Primogênito, filho que o homem teve com a empregada doméstica de sua casa”, explica.

O ponto de vista do Caçula, informa Yazbek, estabelece o plano da imaginação. “Resistindo à notícia de que o Pai está morto, passa a criar, por meio de um conjunto de cenas esparsas, que potencializam o conceito da ‘presença da ausência’, um pai mais tolerante em relação aos judeus.” Já o plano do mito “remonta à história bíblica de Abraão, considerando seus dois filhos, Isaac e Ismael, como originários, respectivamente, dos judeus e dos árabes”.

O dramaturgo e diretor assinala que o conflito no Oriente Médio se liga à realidade brasileira por intermédio do Primogênito. “A peça procura fazer uma radiografia de um país – o Brasil – alienado de si mesmo, na medida em que o Primogênito identifica-se com suas raízes árabes paternas em detrimento de suas origens indígenas maternas”, conta. Yazbek ainda descarta ter trabalhado sob o carimbo do maniqueísmo. “A releitura do mito bíblico, ao espelhar a realidade brasileira, permite que a parábola da peça seja interpretada das mais variadas formas, ultrapassando a mera dicotomia entre árabes/judeus ou palestinos/israelenses.”

Yazbek tem cinco peças publicadas: A Entrevista, O Fingidor, As Folhas do Cedro, Os Gerentes e A Terra Prometida. Sob sua direção, O Fingidor cumpre temporada de sexta a domingo, até 19 de abril, no Tucarena (Rua Monte Alegre, 1.024, São Paulo, SP, fone 11 3670-8455). O espetáculo aborda o universo do poeta português Fernando Pessoa (1888-1935). O enredo: disfarçado, o poeta se candidata à vaga de datilógrafo oferecida por um crítico literário, notório conhecedor de sua obra.


POST SCRIPTUM. Texto e direção de Samir Yazbek. Com a Cia. Teatral Arnesto nos Convidou. No Teatro Paiol. Praça Guido Viaro, s/nº, Curitiba, PR. Fone (41) 3213-1340. Dias 26 e 27, às 21h. R$ 60. Ingressos: festivaldecuritiba.com.br/bilheterias.



Escrito por Mauro Fernando s 18h18
[ ] [ envie esta mensagem ]


NO FORNICARS

Divulgação

Os Satyros colocam em xeque o mercado do sexo

 

Sob a coordenação geral do diretor Rodolfo García Vázquez, Os Satyros estrearam o Projeto E se Fez a Humanidade Ciborgue em 7 Dias, pesquisa sobre um novo (atual) modelo de ser humano, em março do ano passado. Um ser humano moldado pelas condições impostas por uma sociedade fundamentada no ambiente virtual e pelas alterações corpóreas decorrentes do avanço da tecnologia.

Sete peças formam o projeto: Não Amarás, Não Fornicarás, Não Morrerás, Não Permanecerás, Não Saberás, Não Salvarás e Não Vencerás. Cada uma a explorar determinado aspecto desse caldo cultural contemporâneo. Guiadas pela ideia central, especular sobre a reconstituição de conceitos como livre arbítrio, igualdade, liberdade e racionalidade, sete unidades autônomas – o que demonstra o retorno ao cartaz, no Espaço dos Satyros Um, em São Paulo, de Não Fornicarás.

A montagem utiliza recursos do cânone brechtiano, como a derrubada da quarta parede, a ruptura com o ilusionismo e o estímulo ao senso crítico, a fim de discutir o sexo em uma sociedade hostil à afetividade. Amarradas pelo próprio assunto e confeccionadas a partir de texto-provocação da roteirista Rosana Hermann, cenas independentes se sucedem e propõem, com um humor instigante, um retrato do universo da libido na era digital.

Um panorama reconhecível por situações que descortinam o mercado do sexo e o desejo narcísico, como a do boneco inflável, a da cópula com espelhos, a do sítio que ensina a incitar o orgasmo feminino e a do telessexo, e que revelam o patético por intermédio da ironia. A cenografia mínima favorece as projeções que se conectam às cenas, comentando-as, e que corroboram o contexto tecnológico que permeia o espetáculo. A nudez se integra à encenação e ofende apenas o falso moralismo – mesmo na prometida cena de sexo explícito.


NÃO FORNICARÁS. Texto-provocação de Rosana Hermann. Direção de Rodolfo García Vázquez. Com Fábio Penna, Daiane Brito, Julia Bobrow, Marcelo Thomaz, Nina Nóbile, Silvio Eduardo e Felipe Moretti. No Espaço dos Satyros Um. Praça Franklin Roosevelt, 214, São Paulo, SP. Fone (11) 3258-6345. Domingos, às 20h. R$ 30. Não recomendado para menores de 18 anos.



Escrito por Mauro Fernando s 12h30
[ ] [ envie esta mensagem ]


O DESVIO DO PEIXE NO FLUXO CONTNUO DO AQURIO

Bob Souza

Significados delicados e cruéis

 

O pesquisador teatral Alexandre Mate comenta o texto O Desvio do Peixe no Fluxo Contínuo do Aquário no nº 2 (março de 2014) da Ateliê Compartilhado, publicação da Cia. Artehúmus. A peça, segundo Mate, “apresenta-se prenhe de significados, provoca diversas interpretações: trata-se de um título-metáfora”. “Apesar de o título ser absolutamente provocante e instigante, a obra, dentre outras questões, denuncia o reificado (como coisificação) das comunicações e relações humanas”, conclui. A montagem reestreia hoje (11/11) no Teatro do Incêndio, em São Paulo.

Uma das questões que O Desvio do Peixe aborda é a solidão relacionada ao individualismo exagerado, em um processo que engloba movimentos de isolamento e tentativas de aproximação. “A peça fala das ausências de nossos dias, das negligências com nós mesmos. Somos engolidos diariamente por necessidades ditadas por um sistema e não percebemos nossas esquizofrenias, nossas pequenas loucuras invisíveis para realizar o que o sistema dita”, sintetiza Evill Rebouças, responsável por dramaturgia e direção.

Cristiano Sales, Daniel Ortega, Edu Silva, Natália Guimarães e Solange Moreno compõem o elenco. Cinco personagens convivem em um condomínio. Um porteiro precisou ler o filósofo Michel Foucault para ser admitido no emprego. Um pai procura o significado da palavra “ausência” para um trabalho acadêmico. Uma mãe tenta ser ecologicamente correta. Uma jovem espera pelo namorado que viajou. E um garoto anuncia, logo no início do espetáculo, que está morto.

O Projeto Teatro de Condomínio – Cartografia Pública e Privada, contemplado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, deu origem à montagem. Um ano de pesquisa de campo, conta Rebouças. “Em albergues, todos estão juntos, mas pouco espaço existe para falarem de suas aflições mais íntimas. Nos cdhus, ocorre o contrário: geralmente, cada um socorre o outro diante das aflições diárias. Nos condomínios de luxo, os moradores nem se conhecem direito, já que possuem elevadores privados. Foi desse painel de relações que construímos a ficção de O Desvio do Peixe.

Trata-se de espetáculo delicado e pungente. “A delicadeza impressa na cena foi uma necessidade em relação ao tema, pois se há isolamentos entre as figuras da ficção, o mesmo não ocorre entre essas figuras e o espectador. Para atingir esse estado de aproximação e cumplicidade, tivemos de jogar fora praticamente todo o repertório teatral convencional que trata o espectador como sujeito que especta apenas. Por outro lado, são figuras que se mostram doces, mas ao mesmo tempo, parecem querer explodir. Esse trabalho de retenção é talvez o que há de mais cruel na encenação”, explica.

Os atores narram cenas e conversam com o público, entre outros recursos que negam o ramerrão teatral. “O enredo é descortinado para que o espectador não desvie seu olhar para aquilo que ainda precisa ser descoberto”, assinala Rebouças. “Por meio desse tipo de estrutura, conseguimos potencializar o olhar do espectador para a reflexão dos assuntos discutidos e ainda tratá-lo como confidente das personagens. Em busca da autonomia do espectador em relação à história, desenhamos trajetórias fragmentadas, de modo que ele monte o trajeto de cada um.”

O DESVIO DO PEIXE NO FLUXO CONTÍNUO DO AQUÁRIO. Dramaturgia e direção de Evill Rebouças. Com a Cia. Artehúmus. No Teatro do Incêndio. Rua da Consolação, 1.219, São Paulo, SP. Fone (11) 2609-8561. Terças e quartas, às 20h (em novembro), e terças a quintas, às 20h (em dezembro). R$ 30. Até 17/12.



Escrito por Mauro Fernando s 01h15
[ ] [ envie esta mensagem ]


A MO DO MEIO (SINFONIA LDICA)

Silvia Machado

A descoberta do próprio corpo

 

 

A experiência da descoberta do próprio corpo, o reconhecimento de diferenças e a busca da identidade. É o que Carolini Piovani, Daniele Santos, Dayana Brito, Jean Valber, Rafael Abreu, Samira Marana, Thaís Lima, Ton Carbones e Zezinho Alves – o elenco da Cia. de Danças de Diadema – mostram a partir de sábado (dia 25). A Mão do Meio (Sinfonia Lúdica) estreia no Sesc Anchieta, em São Paulo – Michael Bugdahn e Denise Nomura assinam concepção e coreografia. Ana Bottosso responde pela direção geral. O espetáculo é voltado ao público infantojuvenil.

 

A protagonista da montagem, de acordo com Ana, é “uma ‘mãozinha’ muito curiosa, que não é nem a direita nem a esquerda, mas a Mão do Meio”. “O espetáculo mostra a trajetória dessa ‘mãozinha’ que acaba de nascer e sai em busca de conhecer outras partes do corpo e de colecionar muitos gestos.” Há uma narrativa por meio da dança? “Sim, pela dança dos gestos dessa mãozinha e das partes do corpo e também por intermédio de um texto, em off, que transita por toda a obra.”

 

A cenografia, conta a diretora, foi elaborada por Bugdahn e Denise para atender a narrativa da peça. “Há em cena um miniteatro de bonecos. O cenário ainda leva cubos de cores diversas, que se contrapõem ao figurino, todo preto. Essa base em preto também tem a função de gerar neutralidade, para que outros acessórios, na cor branca, se somem ao longo da peça, valorizem o momento da história vivido pela ‘mãozinha’ e enfatizem as partes do corpo que atuam com a protagonista.”

 

No final da obra, explica Ana, “as partes do corpo e os objetos tomam vida de forma mágica”. Essa magia, observa, não significa que A Mão do Meio (Sinfonia Lúdica) se escora no ilusionismo, no espetaculoso, em detrimento do conteúdo. “Quanto aos efeitos do teatro negro – a utilização de luzes negras a destacar elementos que adquirem fluorescência –, eles aparecem nos minutos finais da obra, e estão lá a serviço do que aquele conteúdo quer transmitir. O trabalho aposta na simplicidade da comunicação que pode vir, sim, carregada de expressividade e sentimento.”

 

O que diferencia, esteticamente, uma produção vinculada ao público adulto de uma dirigida para o infantojuvenil? “Pode haver inúmeras diferenças inseridas no figurino, no cenário, na trilha, na movimentação, entre outros elementos que compõem a cena”, responde a diretora. “Há uma paleta infinita de cores, formas, objetos, mas o mais importante é o compromisso com o universo infantil, com a magia, com a permanência da crença na capacidade de sonhar e criar que a criança tem por natureza.”

 

A Mão do Meio (Sinfonia Lúdica) é a segunda montagem da companhia voltada para o público infantojuvenil. Trata-se de um bom filão mercadológico? “Quando pensamos e decidimos por uma criação, tentamos ouvir nossos anseios, no que diz respeito mais aos aspectos artísticos, estéticos e desafiadores do que à tendência do mercado”, afirma Ana. “O sucesso de uma obra se deve mais à verdadeira entrega em que todos estão mergulhados, à real dedicação que se deposita na obra e, obviamente, à capacidade expressiva de quem a concebe e quem a executa.”

 

 

A MÃO DO MEIO (SINFONIA LÚDICA). Concepção e coreografia de Michael Bugdahn e Denise Namura. Ideia original, texto e dramaturgia de Michael Bugdahn. Direção geral de Ana Botosso. Com a Cia. de Danças de Diadema. No Sesc Anchieta. Rua Doutor Vila Nova, 245, São Paulo, SP. Fone (11) 3234-3000. Sábados, às 11h. Até 15/11. R$ 1,60 a R$ 8. Recomendação: 6 anos.



Escrito por Mauro Fernando s 17h15
[ ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]
 
Histrico
08/11/2015 a 14/11/2015
01/11/2015 a 07/11/2015
18/10/2015 a 24/10/2015
11/10/2015 a 17/10/2015
04/10/2015 a 10/10/2015
27/09/2015 a 03/10/2015
20/09/2015 a 26/09/2015
13/09/2015 a 19/09/2015
21/06/2015 a 27/06/2015
05/04/2015 a 11/04/2015
22/03/2015 a 28/03/2015
15/03/2015 a 21/03/2015
09/11/2014 a 15/11/2014
19/10/2014 a 25/10/2014
21/09/2014 a 27/09/2014
14/09/2014 a 20/09/2014
27/07/2014 a 02/08/2014
29/06/2014 a 05/07/2014
22/06/2014 a 28/06/2014
15/06/2014 a 21/06/2014
08/06/2014 a 14/06/2014
01/06/2014 a 07/06/2014
25/05/2014 a 31/05/2014
18/05/2014 a 24/05/2014
11/05/2014 a 17/05/2014
04/05/2014 a 10/05/2014
27/04/2014 a 03/05/2014
13/04/2014 a 19/04/2014
06/04/2014 a 12/04/2014
30/03/2014 a 05/04/2014
23/03/2014 a 29/03/2014
16/03/2014 a 22/03/2014
09/03/2014 a 15/03/2014
17/03/2013 a 23/03/2013
03/02/2013 a 09/02/2013
20/01/2013 a 26/01/2013
13/01/2013 a 19/01/2013
23/12/2012 a 29/12/2012
16/12/2012 a 22/12/2012
09/12/2012 a 15/12/2012
25/11/2012 a 01/12/2012
18/11/2012 a 24/11/2012
26/08/2012 a 01/09/2012
27/05/2012 a 02/06/2012
31/07/2011 a 06/08/2011
05/06/2011 a 11/06/2011
15/05/2011 a 21/05/2011
01/05/2011 a 07/05/2011
20/03/2011 a 26/03/2011
06/02/2011 a 12/02/2011
16/01/2011 a 22/01/2011
07/11/2010 a 13/11/2010
24/10/2010 a 30/10/2010
15/08/2010 a 21/08/2010
01/08/2010 a 07/08/2010
25/07/2010 a 31/07/2010
18/07/2010 a 24/07/2010
04/07/2010 a 10/07/2010
27/06/2010 a 03/07/2010
10/01/2010 a 16/01/2010
18/10/2009 a 24/10/2009
11/10/2009 a 17/10/2009
27/09/2009 a 03/10/2009
16/08/2009 a 22/08/2009
02/08/2009 a 08/08/2009
14/06/2009 a 20/06/2009
03/05/2009 a 09/05/2009
22/03/2009 a 28/03/2009
15/03/2009 a 21/03/2009
08/03/2009 a 14/03/2009
01/03/2009 a 07/03/2009
22/02/2009 a 28/02/2009
15/02/2009 a 21/02/2009
08/02/2009 a 14/02/2009
18/01/2009 a 24/01/2009
04/01/2009 a 10/01/2009
14/12/2008 a 20/12/2008
07/12/2008 a 13/12/2008
30/11/2008 a 06/12/2008
23/11/2008 a 29/11/2008
16/11/2008 a 22/11/2008
09/11/2008 a 15/11/2008
02/11/2008 a 08/11/2008
26/10/2008 a 01/11/2008
17/08/2008 a 23/08/2008
03/08/2008 a 09/08/2008
25/05/2008 a 31/05/2008
18/05/2008 a 24/05/2008
11/05/2008 a 17/05/2008
30/03/2008 a 05/04/2008
23/03/2008 a 29/03/2008
16/03/2008 a 22/03/2008
09/03/2008 a 15/03/2008
30/12/2007 a 05/01/2008
11/11/2007 a 17/11/2007
02/09/2007 a 08/09/2007
26/08/2007 a 01/09/2007
19/08/2007 a 25/08/2007
15/07/2007 a 21/07/2007
08/07/2007 a 14/07/2007
01/07/2007 a 07/07/2007
03/12/2006 a 09/12/2006
05/11/2006 a 11/11/2006
22/10/2006 a 28/10/2006
15/10/2006 a 21/10/2006
01/10/2006 a 07/10/2006
24/09/2006 a 30/09/2006
17/09/2006 a 23/09/2006
27/08/2006 a 02/09/2006
20/08/2006 a 26/08/2006
13/08/2006 a 19/08/2006
06/08/2006 a 12/08/2006
30/07/2006 a 05/08/2006
23/07/2006 a 29/07/2006
16/07/2006 a 22/07/2006
09/07/2006 a 15/07/2006
04/06/2006 a 10/06/2006
28/05/2006 a 03/06/2006
14/05/2006 a 20/05/2006
07/05/2006 a 13/05/2006
30/04/2006 a 06/05/2006
23/04/2006 a 29/04/2006
16/04/2006 a 22/04/2006
09/04/2006 a 15/04/2006
02/04/2006 a 08/04/2006
26/03/2006 a 01/04/2006
19/03/2006 a 25/03/2006
12/03/2006 a 18/03/2006
05/03/2006 a 11/03/2006
26/02/2006 a 04/03/2006
19/02/2006 a 25/02/2006
12/02/2006 a 18/02/2006