Borelli Cia. de Dança

Dirigida por Sandro Borelli, a Borelli Cia. de Dança retoma com “Carta ao Pai” (título provisório) a pesquisa sobre o universo kafkiano. Os ensaios – Daniela Rocco, Nilson Muniz, Roberto Alencar, Samanta Barros e Vanessa Macedo, além de Borelli, formam o elenco – começaram nesta semana. Inspirado nas atmosferas opressivas do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924) – mais especificamente em “Carta ao Pai” –, o espetáculo deve estrear em agosto. “O grupo já estava precisando de um espetáculo novo, passamos dois anos viajando com o repertório”, conta o coreógrafo e bailarino. Borelli trabalha no projeto desde dezembro. “Preciso de um tempo sozinho para me convencer das coisas que pretendo fazer”, revela. Além da pesquisa teórica, ele se dedicou a “uma auto-análise para tentar juntar as revoluções internas de Kafka às minhas e ajudar os intérpretes a buscar aquele material sensível que gera imagens”. Para ele, o momento da criação é “o mais gostoso”: “É dolorido, mas você sente falta depois que passa por ele”. A montagem reafirma a linha de trabalho da companhia, que evolui no campo da dança-teatro, e segue a pesquisa sobre Kafka a que Borelli se entrega desde 2002, quando concebeu e dirigiu “A Metamorfose”. Também inspirado no autor theco de origem judaica que escrevia em alemão, Borelli já montou “O Processo” e “O Abutre”. “O universo de Kafka é o da dor da existência, o da fraqueza do ser humano perante tudo, o da falta de perspectiva. E é muito atual”, diz. Viajar pelo território kafkiano significa trafegar pela angústia do mundo contemporâneo. Isso pode incomodar, mas Borelli gosta mesmo é de colocar o dedo na ferida. “Kafka é um espelho do mundo. Por isto há quem não se sinta bem diante dele: porque começa a se enxergar.” O coreórafo e bailarino refuta a tese de que a arte deve ser agente de evasão da realidade. “A arte tem de bater, não de alisar. Sou contra aquela idéia de que a arte deve trazer bem-estar, leveza da alma.” Borelli, porém, afasta de “Carta ao Pai” qualquer motivação ideológica. “É um embate entre um pai e um filho. Kafka não contestou nada, não existe um sentido político em sua obra. Ele fala o tempo todo sobre o terror da condição humana, mas do ponto de vista de quem não tem forças para mudar essa situação”, afirma. E acende a polêmica: “Contestar está fora de moda. Para começar, você tem de contestar a si mesmo. As pessoas estão falidas mas olhando para o vizinho. A transformação deve partir de si próprio”. Borelli não acredita mais em utopias. “A cada dia que passa, elas vão desmoronando.” O projeto ganhou o Prêmio Estímulo da Secretaria de Estado de Cultura de São Paulo (R$ 50 mil). Mas o grupo, que conta com sala de ensaio cedida pela Univesidade Anhembi Morumbi, procura mais apoiadores. O local de estréia ainda é incerto. “É aquela velha luta por espaço. Acredito, sim, que a dança pode ficar em cartaz em temporadas, não apenas em fins de semana. Já fizemos temporadas de quatro semanas no Centro Cultural São Paulo e nos surpreendemos com o aumento gradativo do público. Mas, se em teatros públicos é complicado por causa da procura, em particulares é complicadíssimo por conta dos custos”, diz.
Escrito por Mauro Fernando às 16h18
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"A Noite Antes da Floresta"

Uma esquina em uma metrópole. Noite de chuva. Sob condições precárias de sobrevivência, um homem tenta estabelecer contato com outro. “Ele tenta fazer com que o outro seja seu interlocutor”, afirma Francisco Medeiros, que dirige “A Noite Antes da Floresta”, espetáculo solo escrito pelo dramaturgo francês Bernard-Marie Koltès (1948-1989) que estréia nesta sexta-feira (17/2) no Espaço dos Satyros, em São Paulo. Otávio Martins se encarrega do personagem. Além de essencial, a presença do interlocutor é ambígua. “Ele existe mesmo ou o interlocutor é o mundo?”, questiona o diretor. Quem dá a resposta é o público. Não fechar leituras é a preocupação da montagem: “As possibilidades são infinitas. O público deve se sentir provocado para construir sua visão e não intimidado para desvendar o que é a peça”. Em cena, conforme Medeiros, “relações de poder, incluindo amor, intolerância, preconceito, o lugar do desejo no mundo contemporâneo”. O texto confronta “vida e morte, sinceridade e cinismo”. E existe um embate especial, “altamente político, mas não no sentido da política partidária” entre desilusão e utopia – o personagem “tem um projeto pronto de um sindicato internacional de proteção aos fracos”. “A peça aborda a intolerância dos pontos de vista coletivo e individual”, diz o ator. O personagem “não se conforma, permanece na condição de indignado porque tem esperança”. “Ele acredita na mudança, e isso prescinde de convicção política.” Uma das características do texto é a carga extrema de provocação. “Ela apresenta um impossível cheio de possibilidades, e é desse paradoxo que aquele ser humano se alimenta, é desse conflito direto e claro que nasce a vida”, afirma Medeiros. [Mais informações abaixo.]
Escrito por Mauro Fernando às 14h42
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"A Noite Antes da Floresta"
O diretor Francisco Medeiros fez com que “A Noite Antes da Floreta” se movesse pelo caminho da “sintonia com a contemporaneidade”. “Há uma interpenetração de linguagens, mas sem perda de identidade”, revela. “Fugimos do diapasão do realismo. A mímese da realidade cotidiana não seria um apoio saudável.” Assinado por Duda Arruk e José Silveira, o espaço cenográfico “também não busca uma lógica aristotélica, cartesiana”, segundo o diretor. É reforçada, então, a noção de ambiguidade. “Há elementos importantes que estão na iminência de se tornar escombro. As paredes [da sala de espetáculos, um palco não tradicional] contêm superfícies reflexivas que de vez em quando dão a possibilidade de ver aquele ser por outro prisma. Há um aspecto que lembra vestígios, como pegadas na areia. Alguém pode se perguntar sobre o que restou da civilização ocidental.” A iluminação, de Domingos Quintiliano, e a trilha, de Aline Meyer, rejeitam a função de sublinhar estados de espírito do personagem. “Elas não adjetivam a cena, não propiciam determinada atmosfera”, diz Medeiros. São provocações e estímulos para que o espectador não se transforme em um contemplador passivo. [Mais informações abaixo.]
Escrito por Mauro Fernando às 14h37
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"A Noite Antes da Floresta"
Além de pisar no palco, Otávio Martins produz “A Noite Antes da Floresta”. Em nome da autonomia artística, o ator e produtor procura “concretizar o que se tem vontade de dizer”. “Se o texto não fala ao coração, não há razão para levá-lo para o palco. Não quero bater cartão. Fiz quatro comerciais para montar essa peça”, afirma. Diante da possibilidade de tornar viável o que gosta de fazer, mesmo sabendo do risco de ver a bilheteria pouco freqüentada, Martins discute “o que é ser bem sucedido”: “É sair na capa da 'Caras' e da 'Contigo'? É ser galã de novela?”. Francisco Medeiros se sentiu desafiado quando recebeu o convite para dirigir o espetáculo. “A sensação inicial é de que a peça é impossível de montar. E é justamente por isso que tive vontade de fazê-la. Eu me apaixono pelo impossível, e ela desperta isso”, conta.
A Noite Antes da Floreta". De Bernard-Marie Koltès. Direção de Francisco Medeiros. Com Otávio Martins. No Espaço dos Satyros - Praça Roosevelt, 214, São Paulo, SP. Fone (11) 3258-6345. Sextas e sábados, às 21h30. R$ 20. Até 8/4.
Escrito por Mauro Fernando às 14h35
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De acordo com Luiz Paulo Vasconcellos, autor de “Dicionário de Teatro”, rotunda é a “cortina, geralmente de cor preta, que cobre todo o fundo do palco”. “Conjugada a três ou quatro rompimentos”, continua a descrição, a rotunda “forma um espaço cênico que é a imagem mais próxima possível da neutralidade”. E neutralidade (isenção) é palavra obrigatória nos manuais de jornalismo. Este espaço pretende abordar as artes cênicas respeitando os princípios jornalísticos saudáveis, com informação e opinião, além de atualização diária. Mauro Fernando
Escrito por Mauro Fernando às 14h46
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"Um Credor da Fazenda Nacional", de Qorpo-Santo

ATO SEGUNDO CREDOR (entrando) - É a vigésima... não me lembro se quinta ou sétima vez que venho a esta casa haver aluguéis de casa! E talvez ainda hoje saia sem dinheiro! (À parte:) Mas eles hão de se arranjar! (A um dos empregados, o contador:) Vossa Senhoria faz-me o obséquio de dizer se está despachado o conteúdo, ou quer que seja, quanto a um requerimento que aqui tenho? CONTADOR - Será... (lendo) Castro... Car... Cirilo, Dilermando!? CREDOR - Não! É um requerimento meu, assinado: José Joaquim de Campos Leão, Qorpo-Santo. CONTADOR - Ah! Esse está no chefe da quarta seção. CREDOR - Bem, então lá irei. (Dirigindo-se ao chefe:) Faz-me o obséquio de dizer se já está despachado um requerimento que aqui tenho? CHEFE (apontando) - Fale ali com o senhor Barbosa. CREDOR (dirigindo-se a este) - Ainda não encontrou o que procurava a meu respeito? BARBOSA - Ainda não! Há aqui tantos papéis!
Escrito por Mauro Fernando às 11h20
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"O Diletante", de Martins Pena

CENA II JOSEFINA – Chamou-me, meu pai? JOSÉ ANTÔNIO – Vem cá, loucazinha. Que fizeste da Casta Diva? JOSEFINA – Está sobre o piano. JOSÉ ANTÔNIO – Vai procurá-la. JOSEFINA – Quer cantá-la? JOSÉ ANTÔNIO – Divirta-se a menina comigo. JOSEFINA – Se é para eu cantar, não a procuro. Já não posso aturá-la. É maçada! JOSÉ ANTÔNIO – Que dizes, bárbara? A Casta Diva maçada? Esta sublime produção do sublimíssimo gênio?... JOSEFINA – Será sublimíssima, mais como há algum tempo para cá que eu a tenho ouvido todos os dias cantada, guinchada, miada, assobiada e estropiada por essas ruas e casas, já não a posso suportar. Todos cantam a Casta Diva – é epedimia!
Escrito por Mauro Fernando às 09h01
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"Macbeth", de William Shakespeare

ACT V. SCENE V. MACBETH Life's but a walking shadow; a poor player, That struts and frets his hour upon the stage, And then is heard no more: it is a tale Told by an idiot, full of sound and fury, Signifying nothing.
Escrito por Mauro Fernando às 19h24
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