"O Juiz de Paz da Roça", de Martins Pena

ATO ÚNICO CENA I
Sala com uma porta no fundo. No meio uma mesa, junto à qual estarão cosendo Maria Rosa e Aninha.
MARIA ROSA - Teu pai hoje tarda muito. ANINHA - Ele disse que tinha muito que fazer. MARIA ROSA - Pobre homem! Mata-se com tanto trabalho! É quase meio-dia e ainda não voltou. Desde as quatro horas da manhã que saiu; está só com uma xícara de café. ANINHA - Meu pai quando principia um trabalho não gosta de o largar, e minha mãe bem sabe que ele tem só a Agostinho. MARIA ROSA - É verdade. Os meias-caras agora estão tão caros! Quando havia valongo eram mais baratos. ANINHA - Meu pai disse que quando desmanchar o mandiocal grande há-de comprar uma negrinha para mim. MARIA ROSA - Também já me disse. ANINHA - Minha mãe, já preparou a jacuba para meu pai? MARIA ROSA - É verdade! De que ia me esquecendo! Vai aí fora e traz dous limões. (Aninha sai.) Se o Manuel João viesse e não achasse a jacuba pronta, tínhamos campanha velha. Do que me tinha esquecido! (Entra Aninha.) ANINHA - Aqui estão os limões. MARIA ROSA - Fica tomando conta aqui, enquanto eu vou lá dentro. (Sai.) ANINHA, só - Minha mãe já se ia demorando muito. Pensava que já não poderia falar co senhor José, que está esperando-me debaixo dos cafezeiros. Mas como minha mãe está lá dentro, e meu pai não entra nesta meia hora, posso fazê-lo entrar aqui. (Chega à porta e acena com o lenço.) Ele aí vem.
Escrito por Mauro Fernando às 17h54
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"Estéticas: Formas e Conteúdos"
 Engenho Teatral
Enquanto trabalha em “Raízes” (título provisório, com dramaturgia de Reinado Maia e direção de Marco Antonio Rodrigues), o Grupo Folias, de São Paulo, se debruça sobre uma questão cara – ou que, pelo menos, deveria ser – a quem faz (e gosta de) teatro. O Folias promove a partir de hoje (3/3), em sua sede, a mostra “Estética: Formas e Conteúdos”. Até 30 de abril, grupos de linguagens diversas se apresentam de sextas-feiras aos domingos no Galpão do Folias com o compromisso de uma discussão pública, aos domingos, sobre os princípios que fundamentam suas criações. “Estética é uma questão não de hoje, mas de sempre”, afirma Maia. “Quem mexe com arte deveria debatê-la sempre. No Brasil, as necessidades materiais pontuam a vida, mas a arte não vai para a frente dentro de um círculo vicioso de repetições. Não adianta sermos experts em filosofia, história ou sociologia se o nosso instrumental artístico é pobre. Se pretendemos ter uma função social, precisamos verticalizar cada vez mais essa discussão. Não queremos homogeneizar produções, mas verificar as riquezas, ou pobrezas, contidas nas propostas de cada um.” Os debates não serão pautados por problemas político-econômicos, frisa o dramaturgo: “Há entidades mais gabaritadas pera esse tipo de discussão. O Movimento Arte Contra a Barbárie já deu esse diagnóstico”. “O teatro está numa encruzilhada, não tem importância na sociedade, não existe um pacto com o público, com exceção da produção comercial. Só a qualidade pode mudar esse panorama”, analisa a atriz Patricia Barros. Coloca-se na berlinda, portanto, a excelência cênica. Para Patricia, há discussões relativas ao fazer teatral tão importantes quanto essa, “mas não mais urgentes”. “É preciso parar para uma autocrítica, ver se o que estamos fazendo vale a pena, se o teatro serve para alguma coisa.” Em comum entre os grupos que se mostrarão, há “a ambição de procurar caminhos, de não se conformar em fazer o mesmo, de arriscar”, diz Maia. “Se há um espaço para a renovação, é no trabalho continuado de grupos. Claro que isso não surge automaticamente, demanda esforço.” De acordo com Patricia, o ponto de intersecção entre as companhias está “na seriedade do trabalho”. A diversidade norteou a definição dos grupos – há clown, dança, teatro musicado, monólogo, comédia, tragédia, teatro popular, prevalência da palavra ou da ação. São sete produções paulistas, duas mineiras e uma fluminense. [Mais informações abaixo.]
Escrito por Mauro Fernando às 15h14
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"Estéticas: Formas e Conteúdos"
 Doutores da Alegria
“Estéticas: Formas e Conteúdos”. No Galpão do Folias. Rua Ana Cintra, 213, São Paulo, SP. Fone (11) 3361-2223. Sextas-feiras e sábados, às 21h, e domingos, às 20h. Debates aos domingos, às 16h. R$ 20. De 3/3 a 30/4.
3 a 5/3: “Entrevista com Stela do Patrocínio”, textos de Stela do Patrocínio, música de Lincoln Antonio, com Georgette Fadel, Juliana Amaral e Lincoln Antonio. Mediador do debate: Roberto Lage. 10 a 12/3: “Em Pedaços”, dramaturgia e direção de Luiz Carlos Moreira, com o Engenho Teatral. Mediadores: Alexandre Mate e Iná Camargo Costa. 17 a 19/3: “Sonho de um Homem Ridículo”, dramaturgia (baseada no conto homônimo de Fiodor Dostoievski) e interpretação de Celso Frateschi, direção de Roberto Lage. Mediador: Francisco Medeiros. 24 a 26/3: “A Porta de Poe”, de Edgar Allan Poe, adaptação e dramaturgia de Davi Taiu, Mônica Simões e Carlos Gaúcho, com o Grupo Caixa de Imagens. Mediador: Alexandre Mate. 31/3 a 2/4: “Olympia”, de Guiomar de Grammont, direção de Marcelo Bones, concepção e atuação de Ângela Mourão (Teatro Andante). Mediador não definido. 7 a 9/4: “Modos de Dançar”, com Dudude Herrman (Benvinda Cia. de Dança). Mediadora: Christiane Paoli Quito. 14 a 16/4: “Preciosidade”, textos de Clarice Lispector, direção de Vivien Buckup, com a Cia. As Graças. Mediador não definido. 21 a 23/4: “WWW para Freedom”, dramaturgia de Tiche Vianna e Esio Magalhães, criação, direção e atuação de Esio Magalhães (Barracão Teatro). Mediadores: Mário Bolognesi e Valmir Santos. 28 a 30/4: “Inventário”, direção de Andréa Jabor e Beatriz Sayad, com os Doutores da Alegria. Mediadora: Bete Dorgam.
Escrito por Mauro Fernando às 15h05
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"O que Seria de Nós sem as Coisas que não Existem"

O que seria de nós sem as coisas que não existem? É o que pergunta o Grupo Lume, de Campinas (SP). A companhia firmou parceria com o Centro Via Rosse di Produzione Teatrale, da Itália, garimpou histórias em uma fábrica de chapéus campineira e estréia nesta sexta-feira (3/3) no Sesc Belenzinho, em São Paulo, "O que Seria de Nós sem as Coisas que não Existem". Diretor do Via Rosse, o argentino radicado na Itália Norberto Presta assumiu a direção da montagem, que tem no elenco Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini. Três aposentados e um aprendiz se reúnem numa fábrica de chapéus a fim de produzir o chapéu perfeito. "A peça trata da utopia da perfeição. Eles estão em busca de um chapéu que não existe", afirma Souza. Essa procura, "que faz a gente agir, é o que move a humanidade", diz Souza: "É a busca pelo aperfeiçoamento, por uma sociedade mais justa e equilibrada e menos egoísta". Quando se entra no território da utopia, logo se evoca a questão ideológica. Mas a trupe não colocou de pé o espetáculo para que ele se afunile em uma única direção. "Cada espectador fará sua interpretação. O chapéu ideal está na cabeça de cada um. É uma aposta na possibilidade de que o que não existe possa existir. Cada um faz a sua analogia. Uma das características do Lume é o desejo de que o espectador seja ativo, de que as pessoas saiam do espetáculo e reflitam sobre alguma coisa. O teatro é um encontro efetivo." Diversas entrevistas com funcionários e aposentados da fábrica de chapéus ancoram o trabalho. "Criamos a ficção a partir do material coletado. Há alguns relatos reais na história, que tem começo, meio e fim, mas não personagens reais", afirma o ator-pesquisador. O pontapé inicial para a criação de "O que Seria de Nós sem as Coisas que não Existem" foi dado há mais de um ano, quando houve a primeira reunião específica entre Presta e o Lume para iniciar a pesquisa. Souza explica a necessidade de um tempo longo para o amadurecimento das montagens do grupo: "Como somos um núcleo de pesquisa, interessa-nos mais o processo que leva ao resultado que o resultado em si". [Mais informações abaixo.]
Escrito por Mauro Fernando às 19h54
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"O que Seria de Nós sem as Coisas que não Existem"

O namoro do grupo Lume com o Centro Via Rosse di Produzione Teatrale começou em 2002, revela o ator-pesquisador Jesser de Souza, da trupe brasileira: "Apresentamos o espetáculo 'Café com Queijo' no Festival de Itajaí [SC] quando os italianos também estavam lá e ficamos encantados com a simplicidade, o rigor e a beleza do trabalho deles, e a admiração foi recíproca. No ano seguinte, nós os convidamos para conhecer nosso espaço em Barão Geraldo [nos subúrbios de Campinas] e assistir a um pequeno festival com grupos da nossa região". Nasceu assim a intenção de trabalharem juntos. Em 2004, o Lume foi para a Europa. "Fizemos intercâmbio, trabalhando juntos independentemente de resultados, como músicos em uma jam session, e percebemos que temos coisas a compartilhar", conta Souza. O mais difícil no processo foi conciliar a agenda do diretor do Via Rosse, Norberto Presta, com a da companhia campineira. Houve quatro encontros. "Trabalhávamos sozinhos, levantando material, ele vinha e via, retomávamos e assim por diante. Isso foi positivo para as informações decantarem." [Mais informações abaixo.]
Escrito por Mauro Fernando às 19h31
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"O que Seria de Nós sem as Coisas que não Existem"

Núcleo de pesquisas teatrais ligado à Universidade de Campinas, o Grupo Lume tem suas origens na bagagem de Luís Otávio Burnier (1956-1999), que trabalhou na Europa com, entre outros mestres, o polonês Jerzy Grotowski (1933-1999), propositor do Teatro Pobre, centrado na arte do ator em oposição à megalomania cênica. Em 1985, ao fundir essa experiência com a cultura brasileira, Burnier fundou o Lume. Os atores-pesquisadores Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini juntaram-se à companhia nos anos 1990. O Lume possui método próprio de desenvolvimento de técnicas pessoais de representação - a mímesis corpórea, processo de teatralização de ações cotidianas. "Não inventamos a roda, há muita gente dedicada à investigação de metodologias para o trabalho de ator", diz Souza. "O nosso processo começa com a observação e continua com a tentativa de reprodução do objeto observado. Depois da codificação, é a vez da etapa da transformação. A partir da forma já definida, chega-se à teatralização."
"O que Seria de Nós sem as Coisas que não Existem". Criação e concepção de Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Norberto Presta, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini. Direção de Norberto Presta. Pesquisa e atuação de Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini. No Sesc Belenzinho. Avenida Álvaro Ramos, 915, São Paulo, SP. Fone (11) 6602-3700. Sextas-feiras, às 21h30, e sábados e domingos, às 18h. R$ 7,50 a R$ 15. Até 26/3.
Escrito por Mauro Fernando às 19h17
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"O que Restou do Sagrado"

“A tese é: Deus está brincando com a gente. Eu acredito Nele. Ele não devia fazer isso comigo.” Assim o ator, diretor e dramaturgo Mário Bortolotto se refere a “O que Restou do Sagrado”, peça que o Grupo Cemitério de Automóveis apresenta por duas semanas, a partir de sexta-feira (3/3), no Espaço dos Satyros, em São Paulo. O espetáculo integra a Mostra Meia-Noite, exibição do repertório da companhia. Os sete personagens encontram-se numa igreja. O Padre avisa: se se arrependerem de seus atos hediondos (assassinatos associados a homofobia, necrofilia e pedofilia e até genocídio), o mundo se salvará do Armagedon. O problema é que eles não acreditam na salvação do mundo. “Até o Padre está em dúvida”, confirma Bortolotto. Fernanda D'Umbra, Gabriel Pinheiro, Lavínia Pannunzio, Mariana Leme, Nelson Peres e Wilton Andrade, além de Bortolotto, entram em cena. A frase “Deus permitiu o mal para dele extrair o bem”, de Santo Agostinho, é a senha para compreender “O que Restou do Sagrado”. O ex-seminarista Bortolotto, que assina texto e direção da peça, deixa aflorar mais uma vez seu espírito questionador: “Como é que Deus aprontou essa com a gente e foi tirar férias em Cancún?” Bortolotto acredita ainda haver espaço para o sagrado nos dias de hoje, “mas com certeza não é dentro de uma igreja”. Se há esperança para a humanidade? “Eu tenho em esperança em alguns seres humanos. Sempre tive.” [Mais informações abaixo.]
Escrito por Mauro Fernando às 15h37
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"O que Restou do Sagrado"

A Mostra Meia-Noite é a quarta exibição de repertório do Grupo Cemitério de Automóveis. Com bom humor, o ator, diretor e dramaturgo Mário Bortolotto rejeita a idéia de que as mostras sejam uma exigência do público cativo que acompanha as iniciativas da trupe: “E eu sou lá de ceder a alguma exigência? Nós somos o grupo com o maior repertório no Brasil e gostamos de apresentar várias peças ao mesmo tempo. É só isso”. “A princípio”, a mostra se estende até julho. “A princípio”, serão dez montagens. Depois de “O que Restou do Sagrado” deve ser a vez de “O Método”. Bortolotto guarda na manga a nova montagem do grupo, “Chapa Quente”, que estréia no final de abril. “É uma adaptação dos quadrinhos de André Kitagawa. São sete pequenas histórias dele levadas para o teatro.” O livro sobre a trajetória da companhia, fundada em 1982, ainda não está pronto – Bortolotto trabalha nele há quase dois anos. “Gostaria muito de conseguir lançar junto com o espetáculo.” Não é por falta de esforço, mas porque costuma se dividir entre várias frentes de batalha culturais. Literatura, por exemplo: “Tenho em andamento dois romances, um livro de contos, um de textos do blog [http://atirenodramaturgo.zip.net], um de poemas e um roteiro para quadrinhos”. “Nossa Vida não Cabe num Opala”, adaptação cinematográfica da peça “Nossa Vida não Vale um Chevrolet”, deve estrear em novembro. Dirigido por Reinaldo Pinheiro, o longa tem no elenco Paulo César Pereio, Marília Pêra, Jonas Bloch, Maria Luisa Mendonça, Milhem Cortaz, Gabriel Pinheiro e Leonardo Medeiros, ente outros. Erncenado pela primeira vez em 1990, o texto é centrado em uma família de ladrões de automóveis – após a morte do pai, intensificam-se os conflitos entre os quatro filhos. Autor da peça, Bortolotto escreveu a primeira versão do roteiro – a final é assinada por Di Moretti. “Não concordo com algumas mudanças feitas no roteiro e com alguns diálogos acrescentados, mas estou torcendo para que o filme fique legal. Confio no diretor e na equipe toda. O elenco é muito bom e a direção de fotografia também. Apenas acho que deveria ter sido consultado nas mudanças feitas. Devo fazer também a trilha sonora do filme”, conta. Mas as aventuras de Bortolotto na telona não param por aí. No ano passado, ele rodou o longa “Gêtsemani”, inspirado em sua peça de mesmo nome. “Fiz com os meus amigos e com produção da Fernanda [D'Umbra]. Foi todo filmado em digital. As fitas já estão decupadas e devo começar a edição em breve”, revela. Escrita em 2000, “Gêtsemani” narra o seqüestro de um editor de livros de auto-ajuda. Os seqüestradores exigem uma mudança na linha da editora, com a publicação de obras que eles julgam fundamentais.
“O que Restou do Sagrado”. Texto e direção de Mário Bortolotto. Com o Grupo Cemitério de Automóveis. No Espaço dos Satyros. Praça Roosevelt, 214, São Paulo, SP. Fone (11) 3258-6345. Sextas e sábados, às 24h. R$ 20. Até 11/3.
Escrito por Mauro Fernando às 15h34
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"A Dança do Universo"

Sob a direção de Soledad Yunge, “A Dança do Universo”, montagem do Núcleo Arte Ciência no Palco, estreou no Festival de Curitiba no ano passado e já esteve em cartaz em São Paulo. A companhia coloca novamente a peça na capital paulista nesta quarta-feira (1º/3), no Teatro Folha. Adaptação de Oswaldo Mendes para o livro homônimo do físico Marcelo Gleiser, “A Dança do Universo” é o oitavo espetáculo do grupo. E o primeiro dirigido por Soledad – sete diretores assinaram os trabalhos do Arte Ciência no Palco, que abordam as inquietações humanas presentes nas investigações científicas de gente como Albert Einstein (em “Einstein”), Niels Bohr e Werner Heisenberg (em “Copenhagen”) e Alan Turing (em “Quebrando Códigos”). Adriana Dham, Carlos Palma, Edgar Bustamante, Edson Alves, Mônika Plöger, Oswaldo Mendes e Selma Luchesi compõem o elenco de “A Dança do Universo”. “A peça trata do velho embate entre a ignorância e o conhecimento, desde os mitos da criação do universo até os dias de hoje”, explica Mendes em entrevista concedida por e-mail. As nove cenas apresentam, com música e humor, idéias de cientistas como Galileu Galilei, Edmund Halley, Isaac Newton, Johannes Kepler, Mário Schenberg e Nicolau Copérnico. Há também conflitos éticos, como o expresso na visita de Kepler a Galileu, e uma discussão sobre arte e ciência, embalada pelo encontro entre Charles Chaplin e Einstein. [Mais informações abaixo.]
Escrito por Mauro Fernando às 17h00
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"A Dança do Universo"

ROTUNDA – O que está nas entrelinhas dos diálogos de “A Dança do Universo”? O que é mais importante na peça, as descobertas científicas ou as relações humanas embutidas nelas? OSWALDO MENDES – O que está nas entrelinhas, prefiro deixar ao público perceber, ou não. Mas dou algumas pistas. Na cena do encontro de Galileu e Kepler, a estrutura do diálogo, e dos conflitos, se apóia nas idéias de Copérnico (que Galileu abjura para salvar a pele) e nas leis de Kepler sobre os planetas, suas órbitas e distâncias. A cena de Newton é armada sobre a mecânica newtoniana e suas leis, “ação e reação, a terceira lei do movimento”, ele diz para justificar porque age tão duramente com seus adversários. Quem perceber isso, pode se divertir um pouco mais com a brincadeira proposta. Mas, quem não perceber também se diverte, porque são as relações humanas que interessam, o caráter dos personagens.
ROTUNDA – Há uma inspiração brechtiana em “A Dança do Universo”? Se há, por quê? MENDES – A inspiração brechtiana advém com certeza da minha formação, como ator e dramaturgo. Portanto, não se trata exatamente de uma opção, mas de uma certa convicção que tenho na eficácia das lições de Brecht. Ele sugere que o teatro divirta enquanto ajuda o público a pensar sobre si mesmo e sobre o seu mundo. Foi o que tentei no texto. E a direção de Soledad Yunge contribui para esse resultado ao mesmo tempo lúdico e crítico.
ROTUNDA – Muitos estudantes vão aos espetáculos do Arte Ciência no Palco. Há uma preocupação didática em “A Dança do Universo”? MENDES – Preocupação didática, no sentido escolar, acadêmico, não há nenhuma. O interesse crescente de uma platéia jovem, formada por muitos estudantes de todos os níveis, certamente vem dos temas tratados nas montagens do Arte Ciência, e dos personagens expostos em cena. Tomo a liberdade de usar as palavras da crítica Mariângela Alves Lima, do jornal “O Estado de S. Paulo”, para tentar entender esse interesse pelos nossos espetáculos. Ela diz na crítica que escreveu sobre “A dança do Universo”: “E para quem acha a física teórica um osso duro de roer, é um prazer compreender uma idéia por intermédio do teatro”.
ROTUNDA – Como se estabelece a relação teatro-ciência a que o Arte Ciência no Palco se dedica? MENDES – A relação teatro-ciência a que o grupo se dedica é, em boa parte, inspirada pelas reflexões propostas por Bertolt Brecht, quando ele indagava em seu “Pequeno Organon” sobre o teatro que deveria ser buscado nesta nossa “era científica”. Como ele, não nos preocupa o quanto o teatro pode se apropriar das conquistas tecnológicas, como fizeram [Erwin] Piscator e o próprio Brecht, entre tantos e já no início do século passado, ao incorporar as novas tecnologias ao palco. Mais importante é saber o que o teatro tem a dizer para pessoas cada vez mais envolvidas pelos avanços da ciência em todas as áreas, da física quântica à biologia, da química à nanotecnologia. Ou entendemos que o mundo e, com ele, as pessoas estão em permanente transformação ou então estaremos condenados a reproduzir no palco um mundo obsoleto, velho, preso a mitos e crenças já superados. Acreditamos que, neste século XXI, o desafio do conhecimento está no eixo da inserção do Homem na história como agente ativo das transformações, e não como mero receptor, passivo e manipulável. A condição humana, seja do ponto de vista individual ou coletivo, tem hoje componentes muito mais complexos que há 50 ou cem anos atrás. Ao teatro cabe refletir, como sugeria Shakespeare, o homem que surge desses nossos tempos de transformações tão rápidas, como Hamlet refletiu as mudanças do seu tempo, em que se transitava da ética medieval (a vingança impulsiva) para o primado do raciocínio e da dúvida (ser ou não ser).
ROTUNDA – Como é possível transformar uma temática aparentemente árdua em teatro? Não há o risco de tornar o material teórico superficial nessa transposição para o palco? MENDES – Novamente recorro à palavra alheia para responder, não por serem elogios, mas porque contém visões de fora. É muito difícil para quem está dentro do processo ver com clareza, já nos ensina o princípio da Incerteza, um dos pilares da física quântica proposto por Heisenberg. Pois bem. Pediram ao inglês Michael Frayn, autor de “Copenhagen”, que está no repertório do Arte Ciência desde 2001, para explicar as razões de uma peça de temas tão complexos fazer tanto sucesso no mundo inteiro. Ele respondeu: “Vou te contar um segredo sobre o teatro - o público gosta de ser desafiado”. Já o físico Marcelo Gleizer foi questionado, quando disse aos amigos cientistas que o seu livro “A Dança do Universo” estava sendo adaptado para teatro. Depois de ler a adaptação e ver o espetáculo, ele respondeu: “Como um livro de não-ficção pode ser dramatizado eficientemente? Com muita criatividade, integridade artística e bom humor”. Foi o melhor elogio que poderíamos ter recebido.
ROTUNDA - Por que o grupo tem trabalhado com diretores diversos em sua trajetória? MENDES – Normalmente, os grupos de teatro se formam à volta de um diretor. No caso do Arte Ciência, ele se formou a partir de um ator, Carlos Palma, e uma produtora, Adriana Caruí, na montagem do monólogo “Einstein”, em 1998. Depois, quando eles criaram o grupo, outros atores foram convidados. Embora, como o Carlos Palma, eu já tivesse feito vários trabalhos de direção, prevalece cada vez mais a minha opção (e a dele) de estar no palco como ator. Portanto, trabalhar com vários diretores se tornou inevitável. Acreditamos que, apesar do risco, isso pode ser enriquecedor. O único risco é o diretor convidado não compreender os objetivos e as necessidades de um grupo com as características do Arte Ciência. Ainda assim, independente do resultado de cada espetáculo, trabalhar com diretores diferentes tem sido um ganho para o grupo e, também, para o nosso público. Isso nos obriga a fugir de qualquer zona de conforto, oxigena e revitaliza o grupo, pois cada novo diretor traz processos novos de trabalho. E novos desafios.
“A Dança do Universo”. Adaptação de Oswaldo Mendes para o livro homônimo de Marcelo Gleiser. Direção de Soledad Yunge. Com o Núcleo Arte Ciência no Palco. No Teatro Folha. Avenida Higienópolis, 618, São Paulo, SP (Shopping Pátio Higienópolis). Fone (11) 3823-2323. Quartas e quintas-feiras, às 21h. R$ 14. Até 6/4.
Escrito por Mauro Fernando às 16h58
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"O Homem Imortal"

Maior nome da dramaturgia brasileira em atividade, Luís Alberto de Abreu tem dois textos inéditos, a comédia “O Homem Imortal” e o musical “Francesca”. Isso até junho, quando a Cia. do Nó, de Santo André, pretende estrear “O Homem Imortal”. Agraciada com a Bolsa Vitae, a peça foi escrita em 1988 e narra a saga de um herói popular envolto em lendas no Vale do Jequitinhonha. A firme convicção em um futuro melhor para o Brasil, que só poderia chegar com uma revolução, move o personagem. O diretor Esdras Domingos, que tem em Renata Moré sua assistente, revela que trabalha no projeto há seis meses. O grupo chegou a “O Homem Imortal” após a leitura de várias peças e de livros de autores como Darcy Ribeiro e Sérgio Buarque de Holanda. “Fazíamos um estudo de temas como a globalização, a identidade do Grande ABC e sua relação com São Paulo, a importância do teatro e ideais políticos, e encontramos nesse texto, que é atualíssimo, metáforas que se encaixam nos assuntos que queremos tocar.” O dramaturgo, que credita o ineditismo de “O Homem Imortal” às complicações inerentes à produção de uma peça com 14 personagens, confirma que ela é válida para os dias de hoje. “O texto fala sobre uma aposta na mudança que não chega e a retomada dessa aposta, sobre a necessidade de reinventar o País. Fala sobre as esperanças de renovação que a revolução de 1930 trazia, mas que em pouco tempo foram pulverizadas pela elite que tomou o poder”. “O Homem Imortal” aborda, então, a traição de ideais. No ano passado, a Cia. do Nó promoveu em sua sede “Suburbana”, um encontro com 23 produções de 19 grupos de teatro do Grande ABC, e sentiu a necessidade de “renovar o repertório”, como afirma o diretor. Depois de circular com “Fantina” (de Domingos e Renata), “A Guerra Santa” (de Abreu) e adaptações das fábulas infantis “Chapeuzinho Vermelho” e “Os Três Porquinhos”, a trupe quis iniciar novo processo. Os ensaios de “O Homem Imortal” já começaram, mas o elenco ainda não está completo. “Estamos improvisando e fazendo jogos para nos apropriarmos da história do Abreu, conhecê-la com profundidade e torná-la nossa. Os atores estão passado por todos os personagens.” Uma das duas principais dificuldades que a companhia enfrenta nesse processo é encontrar atores que combinem em seu perfil esforço e abnegação, “que se disponham a ensaiar de segunda a sexta-feira, das 18h às 22h, com remuneração quando a peça entrar em cartaz”. A outra, que está ligada à primeira e a esmagadora maioria dos grupos brasileiros conhece bem, é de ordem financeira. Embora o orçamento da montagem não esteja fechado, o diretor trabalha com três hipóteses: com patrocínio pleno, somente com permutas e sem apoio algum. “O empresariado não está habituado a investir. Além disso, a lei de incentivo à cultura de Santo André não está funcionando”, afirma. “Como fazemos teatro de pesquisa e não temos ator global, estamos acostumados a levantar um espetáculo e contar com uma boa repercussão para, talvez, conseguirmos patrocínio para a próxima produção.”
Escrito por Mauro Fernando às 19h37
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"O Rei da Vela", de Oswald de Andrade

ABELARDO I (Sentado em conversa com O Cliente. Aperta um botão, ouve-se um forte barulho de campainha.) – Vamos ver... ABELARDO II (Veste botas e um completo de domador de feras. Usa pastinha e enormes bigodes retorcidos. Monóculo. Um revólver à cinta.) – Pronto seu Abelardo. ABELARDO I – Traga o dossiê desse homem. ABELARDO II – Pois não! O seu nome? O CLIENTE (Embaraçado, o chapéu na mão, uma gravata de corda no pescoço magro.) – Manoel Pitanga de Moraes. ABELARDO II – Profissão? O CLIENTE – Eu era proprietário quando vim aqui pela primeira vez. Depois fui dois anos funcionário da Estrada de Ferro Sorocabana. O empréstimo, o primeiro, creio que foi feito para o parto. Quando nasceu a menina... ABELARDO II – Já sei. Está nos IMPONTUAIS. (Entrega o dossiê reclamado e sai.) ABELARDO I (Examina.) – Veja! Isto não é comercial, seu Pitanga! O senhor fez o primeiro empréstimo em fins de 29. Liquidou em maio de 1931. Fez outro em junho de 31, estamos em 1933. Reformou sempre. Há dois meses suspendeu o serviço de juros... Não é comercial... O CLIENTE – Exatamente. Procurei o senhor a segunda vez por causa da demora de pagamento na Estrada, com a Revolução de 30. A primeira foi para o parto. A criança já tinha dois anos. E a Revolução em 30... Foi um mau sucesso que complicou tudo... ABELARDO I – O senhor sabe, o sistema da casa é reformar. Mas não podemos trabalhar com quem não paga juros... Vivemos disso. O senhor cometeu a maior falta contra a segurança do nosso negócio e o sistema da casa... O CLIENTE – Há dois meses somente que não posso pagar juros. ABELARDO I – Dois meses. O senhor acha que é pouco? O CLIENTE – Por isso mesmo é que eu quero liquidar. Entrar num acordo. A fim de não ser penhorado. Que diabo! O senhor tem auxiliado tanta gente. É o amigo de todo mundo... Por que comigo não há de fazer um acordo? ABELARDO I – Aqui não há acordo, meu amigo. Há pagamento!
Escrito por Mauro Fernando às 13h20
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