ROTUNDA


"O Juiz de Paz da Roa", de Martins Pena



ATO NICO
CENA I

Sala com uma porta no fundo. No meio uma mesa, junto qual estaro cosendo Maria Rosa e Aninha.

MARIA ROSA - Teu pai hoje tarda muito.
ANINHA - Ele disse que tinha muito que fazer.
MARIA ROSA - Pobre homem! Mata-se com tanto trabalho! quase meio-dia e ainda no voltou. Desde as quatro horas da manh que saiu; est s com uma xcara de caf.
ANINHA - Meu pai quando principia um trabalho no gosta de o largar, e minha me bem sabe que ele tem s a Agostinho.
MARIA ROSA - verdade. Os meias-caras agora esto to caros! Quando havia valongo eram mais baratos.
ANINHA - Meu pai disse que quando desmanchar o mandiocal grande h-de comprar uma negrinha para mim.
MARIA ROSA - Tambm j me disse.
ANINHA - Minha me, j preparou a jacuba para meu pai?
MARIA ROSA - verdade! De que ia me esquecendo! Vai a fora e traz dous limes. (Aninha sai.) Se o Manuel Joo viesse e no achasse a jacuba pronta, tnhamos campanha velha. Do que me tinha esquecido! (Entra Aninha.)
ANINHA - Aqui esto os limes.
MARIA ROSA - Fica tomando conta aqui, enquanto eu vou l dentro. (Sai.)
ANINHA, s - Minha me j se ia demorando muito. Pensava que j no poderia falar co senhor Jos, que est esperando-me debaixo dos cafezeiros. Mas como minha me est l dentro, e meu pai no entra nesta meia hora, posso faz-lo entrar aqui. (Chega porta e acena com o leno.) Ele a vem.

Escrito por Mauro Fernando s 17h54
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"Estticas: Formas e Contedos"


Engenho Teatral


Enquanto trabalha em Razes (ttulo provisrio, com dramaturgia de Reinado Maia e direo de Marco Antonio Rodrigues), o Grupo Folias, de So Paulo, se debrua sobre uma questo cara ou que, pelo menos, deveria ser a quem faz (e gosta de) teatro. O Folias promove a partir de hoje (3/3), em sua sede, a mostra Esttica: Formas e Contedos. At 30 de abril, grupos de linguagens diversas se apresentam de sextas-feiras aos domingos no Galpo do Folias com o compromisso de uma discusso pblica, aos domingos, sobre os princpios que fundamentam suas criaes.
Esttica uma questo no de hoje, mas de sempre, afirma Maia. Quem mexe com arte deveria debat-la sempre. No Brasil, as necessidades materiais pontuam a vida, mas a arte no vai para a frente dentro de um crculo vicioso de repeties. No adianta sermos experts em filosofia, histria ou sociologia se o nosso instrumental artstico pobre. Se pretendemos ter uma funo social, precisamos verticalizar cada vez mais essa discusso. No queremos homogeneizar produes, mas verificar as riquezas, ou pobrezas, contidas nas propostas de cada um. Os debates no sero pautados por problemas poltico-econmicos, frisa o dramaturgo: H entidades mais gabaritadas pera esse tipo de discusso. O Movimento Arte Contra a Barbrie j deu esse diagnstico.
O teatro est numa encruzilhada, no tem importncia na sociedade, no existe um pacto com o pblico, com exceo da produo comercial. S a qualidade pode mudar esse panorama, analisa a atriz Patricia Barros. Coloca-se na berlinda, portanto, a excelncia cnica. Para Patricia, h discusses relativas ao fazer teatral to importantes quanto essa, mas no mais urgentes. preciso parar para uma autocrtica, ver se o que estamos fazendo vale a pena, se o teatro serve para alguma coisa.
Em comum entre os grupos que se mostraro, h a ambio de procurar caminhos, de no se conformar em fazer o mesmo, de arriscar, diz Maia. Se h um espao para a renovao, no trabalho continuado de grupos. Claro que isso no surge automaticamente, demanda esforo. De acordo com Patricia, o ponto de interseco entre as companhias est na seriedade do trabalho. A diversidade norteou a definio dos grupos h clown, dana, teatro musicado, monlogo, comdia, tragdia, teatro popular, prevalncia da palavra ou da ao. So sete produes paulistas, duas mineiras e uma fluminense.
[Mais informaes abaixo.]

Escrito por Mauro Fernando s 15h14
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"Estticas: Formas e Contedos"


Doutores da Alegria


Estticas: Formas e Contedos. No Galpo do Folias. Rua Ana Cintra, 213, So Paulo, SP. Fone (11) 3361-2223. Sextas-feiras e sbados, s 21h, e domingos, s 20h. Debates aos domingos, s 16h. R$ 20. De 3/3 a 30/4.


3 a 5/3: Entrevista com Stela do Patrocnio, textos de Stela do Patrocnio, msica de Lincoln Antonio, com Georgette Fadel, Juliana Amaral e Lincoln Antonio. Mediador do debate: Roberto Lage.
10 a 12/3: Em Pedaos, dramaturgia e direo de Luiz Carlos Moreira, com o Engenho Teatral. Mediadores: Alexandre Mate e In Camargo Costa.
17 a 19/3: Sonho de um Homem Ridculo, dramaturgia (baseada no conto homnimo de Fiodor Dostoievski) e interpretao de Celso Frateschi, direo de Roberto Lage. Mediador: Francisco Medeiros.
24 a 26/3: A Porta de Poe, de Edgar Allan Poe, adaptao e dramaturgia de Davi Taiu, Mnica Simes e Carlos Gacho, com o Grupo Caixa de Imagens. Mediador: Alexandre Mate.
31/3 a 2/4: Olympia, de Guiomar de Grammont, direo de Marcelo Bones, concepo e atuao de ngela Mouro (Teatro Andante). Mediador no definido.
7 a 9/4: Modos de Danar, com Dudude Herrman (Benvinda Cia. de Dana). Mediadora: Christiane Paoli Quito.
14 a 16/4: Preciosidade, textos de Clarice Lispector, direo de Vivien Buckup, com a Cia. As Graas. Mediador no definido.
21 a 23/4: WWW para Freedom, dramaturgia de Tiche Vianna e Esio Magalhes, criao, direo e atuao de Esio Magalhes (Barraco Teatro). Mediadores: Mrio Bolognesi e Valmir Santos.
28 a 30/4: Inventrio, direo de Andra Jabor e Beatriz Sayad, com os Doutores da Alegria. Mediadora: Bete Dorgam.

Escrito por Mauro Fernando s 15h05
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"O que Seria de Ns sem as Coisas que no Existem"



O que seria de ns sem as coisas que no existem? o que pergunta o Grupo Lume, de Campinas (SP). A companhia firmou parceria com o Centro Via Rosse di Produzione Teatrale, da Itlia, garimpou histrias em uma fbrica de chapus campineira e estria nesta sexta-feira (3/3) no Sesc Belenzinho, em So Paulo, "O que Seria de Ns sem as Coisas que no Existem".
Diretor do Via Rosse, o argentino radicado na Itlia Norberto Presta assumiu a direo da montagem, que tem no elenco Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini. Trs aposentados e um aprendiz se renem numa fbrica de chapus a fim de produzir o chapu perfeito. "A pea trata da utopia da perfeio. Eles esto em busca de um chapu que no existe", afirma Souza.
Essa procura, "que faz a gente agir, o que move a humanidade", diz Souza: " a busca pelo aperfeioamento, por uma sociedade mais justa e equilibrada e menos egosta". Quando se entra no territrio da utopia, logo se evoca a questo ideolgica. Mas a trupe no colocou de p o espetculo para que ele se afunile em uma nica direo. "Cada espectador far sua interpretao. O chapu ideal est na cabea de cada um. uma aposta na possibilidade de que o que no existe possa existir. Cada um faz a sua analogia. Uma das caractersticas do Lume o desejo de que o espectador seja ativo, de que as pessoas saiam do espetculo e reflitam sobre alguma coisa. O teatro um encontro efetivo."
Diversas entrevistas com funcionrios e aposentados da fbrica de chapus ancoram o trabalho. "Criamos a fico a partir do material coletado. H alguns relatos reais na histria, que tem comeo, meio e fim, mas no personagens reais", afirma o ator-pesquisador. O pontap inicial para a criao de "O que Seria de Ns sem as Coisas que no Existem" foi dado h mais de um ano, quando houve a primeira reunio especfica entre Presta e o Lume para iniciar a pesquisa. Souza explica a necessidade de um tempo longo para o amadurecimento das montagens do grupo: "Como somos um ncleo de pesquisa, interessa-nos mais o processo que leva ao resultado que o resultado em si".
[Mais informaes abaixo.]

Escrito por Mauro Fernando s 19h54
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"O que Seria de Ns sem as Coisas que no Existem"



O namoro do grupo Lume com o Centro Via Rosse di Produzione Teatrale comeou em 2002, revela o ator-pesquisador Jesser de Souza, da trupe brasileira: "Apresentamos o espetculo 'Caf com Queijo' no Festival de Itaja [SC] quando os italianos tambm estavam l e ficamos encantados com a simplicidade, o rigor e a beleza do trabalho deles, e a admirao foi recproca. No ano seguinte, ns os convidamos para conhecer nosso espao em Baro Geraldo [nos subrbios de Campinas] e assistir a um pequeno festival com grupos da nossa regio". Nasceu assim a inteno de trabalharem juntos.
Em 2004, o Lume foi para a Europa. "Fizemos intercmbio, trabalhando juntos independentemente de resultados, como msicos em uma jam session, e percebemos que temos coisas a compartilhar", conta Souza. O mais difcil no processo foi conciliar a agenda do diretor do Via Rosse, Norberto Presta, com a da companhia campineira. Houve quatro encontros. "Trabalhvamos sozinhos, levantando material, ele vinha e via, retomvamos e assim por diante. Isso foi positivo para as informaes decantarem."
[Mais informaes abaixo.]

Escrito por Mauro Fernando s 19h31
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"O que Seria de Ns sem as Coisas que no Existem"



Ncleo de pesquisas teatrais ligado Universidade de Campinas, o Grupo Lume tem suas origens na bagagem de Lus Otvio Burnier (1956-1999), que trabalhou na Europa com, entre outros mestres, o polons Jerzy Grotowski (1933-1999), propositor do Teatro Pobre, centrado na arte do ator em oposio megalomania cnica. Em 1985, ao fundir essa experincia com a cultura brasileira, Burnier fundou o Lume. Os atores-pesquisadores Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini juntaram-se companhia nos anos 1990.
O Lume possui mtodo prprio de desenvolvimento de tcnicas pessoais de representao - a mmesis corprea, processo de teatralizao de aes cotidianas. "No inventamos a roda, h muita gente dedicada investigao de metodologias para o trabalho de ator", diz Souza. "O nosso processo comea com a observao e continua com a tentativa de reproduo do objeto observado. Depois da codificao, a vez da etapa da transformao. A partir da forma j definida, chega-se teatralizao."


"O que Seria de Ns sem as Coisas que no Existem". Criao e concepo de Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Norberto Presta, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini. Direo de Norberto Presta. Pesquisa e atuao de Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini. No Sesc Belenzinho. Avenida lvaro Ramos, 915, So Paulo, SP. Fone (11) 6602-3700. Sextas-feiras, s 21h30, e sbados e domingos, s 18h. R$ 7,50 a R$ 15. At 26/3.

Escrito por Mauro Fernando s 19h17
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"O que Restou do Sagrado"



A tese : Deus est brincando com a gente. Eu acredito Nele. Ele no devia fazer isso comigo. Assim o ator, diretor e dramaturgo Mrio Bortolotto se refere a O que Restou do Sagrado, pea que o Grupo Cemitrio de Automveis apresenta por duas semanas, a partir de sexta-feira (3/3), no Espao dos Satyros, em So Paulo. O espetculo integra a Mostra Meia-Noite, exibio do repertrio da companhia.
Os sete personagens encontram-se numa igreja. O Padre avisa: se se arrependerem de seus atos hediondos (assassinatos associados a homofobia, necrofilia e pedofilia e at genocdio), o mundo se salvar do Armagedon. O problema que eles no acreditam na salvao do mundo. At o Padre est em dvida, confirma Bortolotto. Fernanda D'Umbra, Gabriel Pinheiro, Lavnia Pannunzio, Mariana Leme, Nelson Peres e Wilton Andrade, alm de Bortolotto, entram em cena.
A frase Deus permitiu o mal para dele extrair o bem, de Santo Agostinho, a senha para compreender O que Restou do Sagrado. O ex-seminarista Bortolotto, que assina texto e direo da pea, deixa aflorar mais uma vez seu esprito questionador: Como que Deus aprontou essa com a gente e foi tirar frias em Cancn? Bortolotto acredita ainda haver espao para o sagrado nos dias de hoje, mas com certeza no dentro de uma igreja. Se h esperana para a humanidade? Eu tenho em esperana em alguns seres humanos. Sempre tive.
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Escrito por Mauro Fernando s 15h37
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"O que Restou do Sagrado"



A Mostra Meia-Noite a quarta exibio de repertrio do Grupo Cemitrio de Automveis. Com bom humor, o ator, diretor e dramaturgo Mrio Bortolotto rejeita a idia de que as mostras sejam uma exigncia do pblico cativo que acompanha as iniciativas da trupe: E eu sou l de ceder a alguma exigncia? Ns somos o grupo com o maior repertrio no Brasil e gostamos de apresentar vrias peas ao mesmo tempo. s isso. A princpio, a mostra se estende at julho. A princpio, sero dez montagens. Depois de O que Restou do Sagrado deve ser a vez de O Mtodo.
Bortolotto guarda na manga a nova montagem do grupo, Chapa Quente, que estria no final de abril. uma adaptao dos quadrinhos de Andr Kitagawa. So sete pequenas histrias dele levadas para o teatro. O livro sobre a trajetria da companhia, fundada em 1982, ainda no est pronto Bortolotto trabalha nele h quase dois anos. Gostaria muito de conseguir lanar junto com o espetculo. No por falta de esforo, mas porque costuma se dividir entre vrias frentes de batalha culturais. Literatura, por exemplo: Tenho em andamento dois romances, um livro de contos, um de textos do blog [http://atirenodramaturgo.zip.net], um de poemas e um roteiro para quadrinhos.
Nossa Vida no Cabe num Opala, adaptao cinematogrfica da pea Nossa Vida no Vale um Chevrolet, deve estrear em novembro. Dirigido por Reinaldo Pinheiro, o longa tem no elenco Paulo Csar Pereio, Marlia Pra, Jonas Bloch, Maria Luisa Mendona, Milhem Cortaz, Gabriel Pinheiro e Leonardo Medeiros, ente outros. Erncenado pela primeira vez em 1990, o texto centrado em uma famlia de ladres de automveis aps a morte do pai, intensificam-se os conflitos entre os quatro filhos.
Autor da pea, Bortolotto escreveu a primeira verso do roteiro a final assinada por Di Moretti. No concordo com algumas mudanas feitas no roteiro e com alguns dilogos acrescentados, mas estou torcendo para que o filme fique legal. Confio no diretor e na equipe toda. O elenco muito bom e a direo de fotografia tambm. Apenas acho que deveria ter sido consultado nas mudanas feitas. Devo fazer tambm a trilha sonora do filme, conta.
Mas as aventuras de Bortolotto na telona no param por a. No ano passado, ele rodou o longa Gtsemani, inspirado em sua pea de mesmo nome. Fiz com os meus amigos e com produo da Fernanda [D'Umbra]. Foi todo filmado em digital. As fitas j esto decupadas e devo comear a edio em breve, revela. Escrita em 2000, Gtsemani narra o seqestro de um editor de livros de auto-ajuda. Os seqestradores exigem uma mudana na linha da editora, com a publicao de obras que eles julgam fundamentais.


O que Restou do Sagrado. Texto e direo de Mrio Bortolotto. Com o Grupo Cemitrio de Automveis. No Espao dos Satyros. Praa Roosevelt, 214, So Paulo, SP. Fone (11) 3258-6345. Sextas e sbados, s 24h. R$ 20. At 11/3.

Escrito por Mauro Fernando s 15h34
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"A Dana do Universo"



Sob a direo de Soledad Yunge, A Dana do Universo, montagem do Ncleo Arte Cincia no Palco, estreou no Festival de Curitiba no ano passado e j esteve em cartaz em So Paulo. A companhia coloca novamente a pea na capital paulista nesta quarta-feira (1/3), no Teatro Folha. Adaptao de Oswaldo Mendes para o livro homnimo do fsico Marcelo Gleiser, A Dana do Universo o oitavo espetculo do grupo. E o primeiro dirigido por Soledad sete diretores assinaram os trabalhos do Arte Cincia no Palco, que abordam as inquietaes humanas presentes nas investigaes cientficas de gente como Albert Einstein (em Einstein), Niels Bohr e Werner Heisenberg (em Copenhagen) e Alan Turing (em Quebrando Cdigos).
Adriana Dham, Carlos Palma, Edgar Bustamante, Edson Alves, Mnika Plger, Oswaldo Mendes e Selma Luchesi compem o elenco de A Dana do Universo. A pea trata do velho embate entre a ignorncia e o conhecimento, desde os mitos da criao do universo at os dias de hoje, explica Mendes em entrevista concedida por e-mail. As nove cenas apresentam, com msica e humor, idias de cientistas como Galileu Galilei, Edmund Halley, Isaac Newton, Johannes Kepler, Mrio Schenberg e Nicolau Coprnico. H tambm conflitos ticos, como o expresso na visita de Kepler a Galileu, e uma discusso sobre arte e cincia, embalada pelo encontro entre Charles Chaplin e Einstein.
[Mais informaes abaixo.]

Escrito por Mauro Fernando s 17h00
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"A Dana do Universo"



ROTUNDA O que est nas entrelinhas dos dilogos de A Dana do Universo? O que mais importante na pea, as descobertas cientficas ou as relaes humanas embutidas nelas?
OSWALDO MENDES O que est nas entrelinhas, prefiro deixar ao pblico perceber, ou no. Mas dou algumas pistas. Na cena do encontro de Galileu e Kepler, a estrutura do dilogo, e dos conflitos, se apia nas idias de Coprnico (que Galileu abjura para salvar a pele) e nas leis de Kepler sobre os planetas, suas rbitas e distncias. A cena de Newton armada sobre a mecnica newtoniana e suas leis, ao e reao, a terceira lei do movimento, ele diz para justificar porque age to duramente com seus adversrios. Quem perceber isso, pode se divertir um pouco mais com a brincadeira proposta. Mas, quem no perceber tambm se diverte, porque so as relaes humanas que interessam, o carter dos personagens.

ROTUNDA H uma inspirao brechtiana em A Dana do Universo? Se h, por qu?
MENDES A inspirao brechtiana advm com certeza da minha formao, como ator e dramaturgo. Portanto, no se trata exatamente de uma opo, mas de uma certa convico que tenho na eficcia das lies de Brecht. Ele sugere que o teatro divirta enquanto ajuda o pblico a pensar sobre si mesmo e sobre o seu mundo. Foi o que tentei no texto. E a direo de Soledad Yunge contribui para esse resultado ao mesmo tempo ldico e crtico.

ROTUNDA Muitos estudantes vo aos espetculos do Arte Cincia no Palco. H uma preocupao didtica em A Dana do Universo?
MENDES Preocupao didtica, no sentido escolar, acadmico, no h nenhuma. O interesse crescente de uma platia jovem, formada por muitos estudantes de todos os nveis, certamente vem dos temas tratados nas montagens do Arte Cincia, e dos personagens expostos em cena. Tomo a liberdade de usar as palavras da crtica Maringela Alves Lima, do jornal O Estado de S. Paulo, para tentar entender esse interesse pelos nossos espetculos. Ela diz na crtica que escreveu sobre A dana do Universo: E para quem acha a fsica terica um osso duro de roer, um prazer compreender uma idia por intermdio do teatro.

ROTUNDA Como se estabelece a relao teatro-cincia a que o Arte Cincia no Palco se dedica?
MENDES A relao teatro-cincia a que o grupo se dedica , em boa parte, inspirada pelas reflexes propostas por Bertolt Brecht, quando ele indagava em seu Pequeno Organon sobre o teatro que deveria ser buscado nesta nossa era cientfica. Como ele, no nos preocupa o quanto o teatro pode se apropriar das conquistas tecnolgicas, como fizeram [Erwin] Piscator e o prprio Brecht, entre tantos e j no incio do sculo passado, ao incorporar as novas tecnologias ao palco. Mais importante saber o que o teatro tem a dizer para pessoas cada vez mais envolvidas pelos avanos da cincia em todas as reas, da fsica quntica biologia, da qumica nanotecnologia. Ou entendemos que o mundo e, com ele, as pessoas esto em permanente transformao ou ento estaremos condenados a reproduzir no palco um mundo obsoleto, velho, preso a mitos e crenas j superados. Acreditamos que, neste sculo XXI, o desafio do conhecimento est no eixo da insero do Homem na histria como agente ativo das transformaes, e no como mero receptor, passivo e manipulvel. A condio humana, seja do ponto de vista individual ou coletivo, tem hoje componentes muito mais complexos que h 50 ou cem anos atrs. Ao teatro cabe refletir, como sugeria Shakespeare, o homem que surge desses nossos tempos de transformaes to rpidas, como Hamlet refletiu as mudanas do seu tempo, em que se transitava da tica medieval (a vingana impulsiva) para o primado do raciocnio e da dvida (ser ou no ser).

ROTUNDA Como possvel transformar uma temtica aparentemente rdua em teatro? No h o risco de tornar o material terico superficial nessa transposio para o palco?
MENDES Novamente recorro palavra alheia para responder, no por serem elogios, mas porque contm vises de fora. muito difcil para quem est dentro do processo ver com clareza, j nos ensina o princpio da Incerteza, um dos pilares da fsica quntica proposto por Heisenberg. Pois bem. Pediram ao ingls Michael Frayn, autor de Copenhagen, que est no repertrio do Arte Cincia desde 2001, para explicar as razes de uma pea de temas to complexos fazer tanto sucesso no mundo inteiro. Ele respondeu: Vou te contar um segredo sobre o teatro - o pblico gosta de ser desafiado. J o fsico Marcelo Gleizer foi questionado, quando disse aos amigos cientistas que o seu livro A Dana do Universo estava sendo adaptado para teatro. Depois de ler a adaptao e ver o espetculo, ele respondeu: Como um livro de no-fico pode ser dramatizado eficientemente? Com muita criatividade, integridade artstica e bom humor. Foi o melhor elogio que poderamos ter recebido.

ROTUNDA - Por que o grupo tem trabalhado com diretores diversos em sua trajetria?
MENDES Normalmente, os grupos de teatro se formam volta de um diretor. No caso do Arte Cincia, ele se formou a partir de um ator, Carlos Palma, e uma produtora, Adriana Caru, na montagem do monlogo Einstein, em 1998. Depois, quando eles criaram o grupo, outros atores foram convidados. Embora, como o Carlos Palma, eu j tivesse feito vrios trabalhos de direo, prevalece cada vez mais a minha opo (e a dele) de estar no palco como ator. Portanto, trabalhar com vrios diretores se tornou inevitvel. Acreditamos que, apesar do risco, isso pode ser enriquecedor. O nico risco o diretor convidado no compreender os objetivos e as necessidades de um grupo com as caractersticas do Arte Cincia. Ainda assim, independente do resultado de cada espetculo, trabalhar com diretores diferentes tem sido um ganho para o grupo e, tambm, para o nosso pblico. Isso nos obriga a fugir de qualquer zona de conforto, oxigena e revitaliza o grupo, pois cada novo diretor traz processos novos de trabalho. E novos desafios.


A Dana do Universo. Adaptao de Oswaldo Mendes para o livro homnimo de Marcelo Gleiser. Direo de Soledad Yunge. Com o Ncleo Arte Cincia no Palco. No Teatro Folha. Avenida Higienpolis, 618, So Paulo, SP (Shopping Ptio Higienpolis). Fone (11) 3823-2323. Quartas e quintas-feiras, s 21h. R$ 14. At 6/4.

Escrito por Mauro Fernando s 16h58
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"O Homem Imortal"



Maior nome da dramaturgia brasileira em atividade, Lus Alberto de Abreu tem dois textos inditos, a comdia O Homem Imortal e o musical Francesca. Isso at junho, quando a Cia. do N, de Santo Andr, pretende estrear O Homem Imortal. Agraciada com a Bolsa Vitae, a pea foi escrita em 1988 e narra a saga de um heri popular envolto em lendas no Vale do Jequitinhonha. A firme convico em um futuro melhor para o Brasil, que s poderia chegar com uma revoluo, move o personagem.
O diretor Esdras Domingos, que tem em Renata Mor sua assistente, revela que trabalha no projeto h seis meses. O grupo chegou a O Homem Imortal aps a leitura de vrias peas e de livros de autores como Darcy Ribeiro e Srgio Buarque de Holanda. Fazamos um estudo de temas como a globalizao, a identidade do Grande ABC e sua relao com So Paulo, a importncia do teatro e ideais polticos, e encontramos nesse texto, que atualssimo, metforas que se encaixam nos assuntos que queremos tocar.
O dramaturgo, que credita o ineditismo de O Homem Imortal s complicaes inerentes produo de uma pea com 14 personagens, confirma que ela vlida para os dias de hoje. O texto fala sobre uma aposta na mudana que no chega e a retomada dessa aposta, sobre a necessidade de reinventar o Pas. Fala sobre as esperanas de renovao que a revoluo de 1930 trazia, mas que em pouco tempo foram pulverizadas pela elite que tomou o poder. O Homem Imortal aborda, ento, a traio de ideais.
No ano passado, a Cia. do N promoveu em sua sede Suburbana, um encontro com 23 produes de 19 grupos de teatro do Grande ABC, e sentiu a necessidade de renovar o repertrio, como afirma o diretor. Depois de circular com Fantina (de Domingos e Renata), A Guerra Santa (de Abreu) e adaptaes das fbulas infantis Chapeuzinho Vermelho e Os Trs Porquinhos, a trupe quis iniciar novo processo. Os ensaios de O Homem Imortal j comearam, mas o elenco ainda no est completo. Estamos improvisando e fazendo jogos para nos apropriarmos da histria do Abreu, conhec-la com profundidade e torn-la nossa. Os atores esto passado por todos os personagens.
Uma das duas principais dificuldades que a companhia enfrenta nesse processo encontrar atores que combinem em seu perfil esforo e abnegao, que se disponham a ensaiar de segunda a sexta-feira, das 18h s 22h, com remunerao quando a pea entrar em cartaz. A outra, que est ligada primeira e a esmagadora maioria dos grupos brasileiros conhece bem, de ordem financeira. Embora o oramento da montagem no esteja fechado, o diretor trabalha com trs hipteses: com patrocnio pleno, somente com permutas e sem apoio algum. O empresariado no est habituado a investir. Alm disso, a lei de incentivo cultura de Santo Andr no est funcionando, afirma. Como fazemos teatro de pesquisa e no temos ator global, estamos acostumados a levantar um espetculo e contar com uma boa repercusso para, talvez, conseguirmos patrocnio para a prxima produo.

Escrito por Mauro Fernando s 19h37
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"O Rei da Vela", de Oswald de Andrade



ABELARDO I (Sentado em conversa com O Cliente. Aperta um boto, ouve-se um forte barulho de campainha.) Vamos ver...
ABELARDO II (Veste botas e um completo de domador de feras. Usa pastinha e enormes bigodes retorcidos. Monculo. Um revlver cinta.) Pronto seu Abelardo.
ABELARDO I Traga o dossi desse homem.
ABELARDO II Pois no! O seu nome?
O CLIENTE (Embaraado, o chapu na mo, uma gravata de corda no pescoo magro.) Manoel Pitanga de Moraes.
ABELARDO II Profisso?
O CLIENTE Eu era proprietrio quando vim aqui pela primeira vez. Depois fui dois anos funcionrio da Estrada de Ferro Sorocabana. O emprstimo, o primeiro, creio que foi feito para o parto. Quando nasceu a menina...
ABELARDO II J sei. Est nos IMPONTUAIS. (Entrega o dossi reclamado e sai.)
ABELARDO I (Examina.) Veja! Isto no comercial, seu Pitanga! O senhor fez o primeiro emprstimo em fins de 29. Liquidou em maio de 1931. Fez outro em junho de 31, estamos em 1933. Reformou sempre. H dois meses suspendeu o servio de juros... No comercial...
O CLIENTE Exatamente. Procurei o senhor a segunda vez por causa da demora de pagamento na Estrada, com a Revoluo de 30. A primeira foi para o parto. A criana j tinha dois anos. E a Revoluo em 30... Foi um mau sucesso que complicou tudo...
ABELARDO I O senhor sabe, o sistema da casa reformar. Mas no podemos trabalhar com quem no paga juros... Vivemos disso. O senhor cometeu a maior falta contra a segurana do nosso negcio e o sistema da casa...
O CLIENTE H dois meses somente que no posso pagar juros.
ABELARDO I Dois meses. O senhor acha que pouco?
O CLIENTE Por isso mesmo que eu quero liquidar. Entrar num acordo. A fim de no ser penhorado. Que diabo! O senhor tem auxiliado tanta gente. o amigo de todo mundo... Por que comigo no h de fazer um acordo?
ABELARDO I Aqui no h acordo, meu amigo. H pagamento!

Escrito por Mauro Fernando s 13h20
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