ROTUNDA


"A Família e a Festa da Roça", de Martins Pena




CENA VII
[JUCA E QUITÉRIA]

JUCA, pegando na mão de Quitéria – Enfim, Quitéria, estamos sós e posso perguntar-te como passaste, e se tiveste saudades minhas.
QUITÉRIA, com vergonha – Eu passei bem; saudades, tive muitas.
JUCA – Meu amor!
QUITÉRIA, no mesmo – Depois que você foi embora para a cidade no fim das férias, eu já estive em S. João de Itaboraí dous dias. Depois voltei e tenho sempre pensado em você, e o esperava com alegria; porém hoje já não tenho prazer. (Chora.)
JUCA – Choras? Que tens?
QUITÉRIA – Meu pai disse que está à espera do Antônio do Pau-D'Alho para casar comigo.
JUCA – Quê! Casar contigo aquele urso?
QUITÉRIA – Meu pai assim o quer.
JUCA – Veremos. Era o que faltava! Casares-te com um animal daqueles, que ainda há oito dias vi de sentinela na porta do quartel do Campo de Santana, que parecia mesmo um cágado.
QUITÉRIA – Mas que havemos fazer?
JUCA, depois de pensar um momento – Ouve: quando chegar o teu pretendido noivo, e falarem em casamento, finge-te doente, desmaia, treme; enfim, faze-te de doente, como uma mulher é capaz de fazer quando quer, e deixa o mais por minha conta.
QUITÉRIA – O que queres fazer?

Escrito por Mauro Fernando às 15h39
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"O Sarrafo"


Ilo Krugli

“Por que editar um jornal dedicado aos assuntos teatrais no momento histórico atual? Que função ele pode ter para contribuir com o desenvolvimento da linguagem cênica e da reflexão crítica? Qual teatro seria objeto de suas edições? Por que ser editado por uma associação de grupos teatrais e não por uma empresa jornalística?”
Essas são algumas questões que o editorial do primeiro número do jornal “O Sarrafo”, lançado por seis companhias teatrais em março de 2003, demonstrou interesse em discutir. A edição nº 9, que também é distribuída, chega ao público na próxima sexta-feira (24/3), no Teatro de Arena Eugênio Kusnet, em São Paulo.
“'O Sarrafo' surgiu da vontade de alguns grupos de encontrar um lugar de debates que não mais está disponível na grande imprensa. 'O Sarrafo' é um pequeno veículo livre e independente disposto a discutir a cultura de um modo crítico”, explica o editor Sérgio de Carvalho. Desde o nº 8, o tablóide conta com quase 20 companhias associadas. “O jornal assumiu uma nova conformação, agora está mais aberto. Houve uma mudança editorial, ele está mais combativo, sem medo de debater questões políticas. Existe a necessidade de os artistas se pensarem como trabalhadores que vivem no mundo do capital.”
A nona edição tem como eixo o teatro feito na América Latina, vasculhado sob a ótica do processo colaborativo, “uma perspectiva de trabalho menos alienada”. “A história do teatro latino-americano é pouco discutida no Brasil, mal aparece nos estudos universitários”, diz Carvalho. Uma entrevista do diretor argentino Ilo Krugli, do Grupo Ventoforte, concedida à editora Daniele Ricieri e editada como depoimento, encorpa o assunto. Assim como uma entrevista inédita com o colombiano Enrique Buenaventura (1925-2003), fundador do Teatro Experimental de Cali e defensor do espetáculo que, além de divertir, faz pensar.
Há também um artigo do jornalista Valmir Santos sobre a questão da ocupação de espaços públicos, como o Teatro Vila Velha, em Salvador (BA), e os teatros distritais paulistanos. “Há exemplos de projetos que conseguem conciliar a experiência estética com a função social da arte sem paternalismo nem medo de assumir isso”, conta o jornalista.
Carvalho aponta mudanças dentro da classe teatral paulista a partir de 2003: “Houve um nítido avanço no nível de organização política da categoria, principalmente entre os grupos de teatro de pesquisa. A Lei do Fomento [que instituiu o Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo] ajudou a fortalecer suas bases e o intercâmbio entre eles”. Carvalho destaca também o “notável desenvolvimento criativo e organizativo do teatro de São Paulo”.
Mar de rosas, porém, não está à vista. “O debate crítico está cada vez mais mercantilizado na grande imprensa. O campo dos valores humanistas, com visões idealistas da obra de arte, atualmente está abandonado ao jogo do mercado. O espectador é tratado como consumidor”, afirma Carvalho.
Diretor da Cia. do Latão, Carvalho não se ilude quanto à capacidade do teatro de transformar a sociedade: “No campo simbólico há uma contribuição, mas a transformação só se pode dar diante de confrontos maiores, ligados à luta de classes e ao desenvolvimento das forças produtivas. A mais revolucionária das peças não dispensa ninguém de se organizar politicamente”. Mas a arte deve dizer algo. “Pelo caráter ideológico, a produção cultural tem força grande, e o teatro pode ser uma das alternativas menos conservadoras e mercantilizadas de se ver a realidade, pode mostrar outros modelos de pensar as coisas.”


“O Sarrafo”. Lançamento do nº 9. No Teatro de Arena Eugênio Kusnet. Rua Teodoro Baima, 94, São Paulo, SP. jornalsarrafo@uol.com.br. Dia 24/3, às 23h. Entrada franca.

Escrito por Mauro Fernando às 17h59
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"Norma"



Os valores dogmáticos que carrega fazem de Norma uma pessoa rígida. Já Renato é um tipo mais libertário. Eles têm muito o que conversar. “São personagens diferentes, não necessariamente opostos. Ambos têm trajetórias complexas”, define Tonio Carvalho, autor (com Dora Castellar) e diretor de “Norma”, que reestréia amanhã (17/3) em São Paulo, no Teatro Procópio Ferreira. Ana Lucia Torre e Eduardo Moscovis interpretam Norma e Renato.
Ela é uma mulher solitária na faixa dos 50 anos e ele, um jovem próximo dos 30. A perda do filho em um acidente e a separação do marido a levam a mudar-se para um apartamento. Suas coisas ainda estão empacotadas e/ou espalhadas pelo chão quando surge o ex-inquilino, Renato. Aparecem, então, os conflitos. De acordo com o autor e diretor, não há um jogo de poder entre os personagens, nem o espetáculo traz alguma mensagem.
Carvalho conta o que o levou a escrever “Norma” com Dora Castellar: “Motivações artísticas, falar das paixões humanas, expressar uma visão crítica sobre os relacionamentos pessoais e o mundo”. A peça, portanto, trata das “emoções das pessoas, da solidão, dos medos, das fantasias, dos preconceitos, das intransigências, do amor, das perdas”. “Norma e Renato têm pontos de vista ambíguos e contraditórios sobre sentimentos, o que os leva a revelações, a uma revisão de trajetória e ao resgate de suas vidas depois que encontram um ponto em comum no passado.”
“Norma” estreou no Festival de Teatro de Curitiba em 2002. Desde então, fez temporadas em São Paulo e no Rio de Janeiro e viajou para várias cidades brasileiras, aportando em Portugal no ano passado - houve uma interrupção no percurso da peça em 2004, quando Ana Lucia e Moscovis fizeram "Tartufo", de Molière. O segredo do sucesso, para o autor e diretor Tonio Carvalho, está na “empatia que a peça tem com o público”. “O espetáculo é simples e claro, atinge qualquer ser humano. Fala de nossas questões interiores com delicadeza e verdade. O embate de idéias entre as personagens é bastante comum, encontra-se em qualquer família.”
Na capital paulista, a montagem estreou no Teatro do Centro da Terra, o que lhe deu um caráter intimista. Isso muda no Teatro Procópio Ferreira, de proporções maiores? “Quanto mais próxima a platéia, maior é o envolvimento, mas a comunhão continua existindo. Claro que há questões técnicas – a projeção de voz tem de ser maior, adequada ao espaço. Mas isso não modifica o espetáculo.”


“Norma”. De Dora Castellar e Tonio Carvalho. Direção de Tonio Carvalho. Com Ana Lucia Torre e Eduardo Moscovis. No Teatro Procópio Ferreira. Rua Augusta, 2.823, São Paulo, SP. Fone (11) 3083-4475. Sextas e sábados, às 21h30, e domingos, às 19h. R$ 30 a R$ 50. Até 2/4.

Escrito por Mauro Fernando às 13h12
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"A Incrível Confeitaria do Sr. Pellica"



Em cartaz no Sesc Santana, na capital paulista, a comédia “A Incrível Confeitaria do Sr. Pellica”, da carioca Zeppelin Cia., se utiliza de técnicas de dramaturgia consagradas – a inspiração declarada do autor e diretor, Pedro Brício, é Molière (1622-1673) – para conformar metáforas sobre o fazer artístico.
Por trás dos conflitos dramatúrgicos, há ainda um diálogo entre o clássico e o contemporâneo expresso principalmente na encenação – a iluminação de Tomás Ribas, por exemplo –, embora o texto também o indique por meio de personagens cujo comportamento se refere mais aos dias de hoje, como Isabella (Nina Morena), a filha do confeiteiro.
As metáforas se clarificam no palco, o que contribui para a assimilação pela platéia das entrelinhas do espetáculo mas concomitantemente facilita para ela o prazer, tornando-o menor, da descoberta intelectual.
Há o confronto entre a obra de arte autêntica, fruto de soluções criativas sintonizadas com o meio sócio-cultural em que ela se insere, e o reles pastiche, calcado na repetição vil de uma fórmula. É o que se apreende, sem grandes dificuldades, do concurso de tortas promovido pelo rei.
O texto coloca os personagens em meio a uma situação de guerra em um reino hipotético cravado no século XVIII, na qual os recursos materiais são escassos, afetando gravemente os que formam a base da pirâmide social. Já na sinopse, portanto, está o primeiro encontro com a realidade atual – basta pensar em um churrasco grego, aquele de R$ 1 com o suco incluído no preço.
Pellica (Sávio Moll), o dono da confeitaria, é o artista que diante das circunstâncias desfavoráveis hesita diante da oferta do burguês Bellone (Ricardo Souzedo): a continuidade da produção de tortas, por intermédio do perdão de dívidas, em troca da mão de sua filha. Ou seja, a arte vilipendiada pelo poder econômico. O próprio Pellica anuncia em uma de suas primeiras falas: “Sou um artista!”. Ao final, deixa-se evidente a associação entre a torta confeccionada e uma obra de arte.
Assim, apesar dos predicados que possui – diversão de qualidade, sem dúvida, ainda que os atores possam brincar mais com os personagens –, a peça se ressente de um aprofundamento maior na discussão artística, algo que arrebate para além daquele espaço-tempo em que se localizam os aplausos, sejam eles sinceramente efusivos ou meramente protocolares.
A montagem, enfim, mantém a chamada atmosfera mágica que reveste o teatro – o que não é pouco nesta era em que vivemos, a da sociedade de consumo –, mas desembrulha o presente para o público.


“A Incrível Confeitaria do Sr. Pellica”. Texto e direção de Pedro Brício. Com a Zeppelin Companhia. No Sesc Santana. Avenida Luiz Dumont Villares, 579, São Paulo, SP. Fone (11) 6971-8700. Sábados, às 21h, e domingos, às 19h. R$ 4 a R$ 10. Até 2/4.

Escrito por Mauro Fernando às 19h28
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"Tito"



“Até que ponto um homem resiste por um ideal? Poderíamos abordar a trajetória do Frei Tito dentro de um enfoque histórico ou recortar o Tito guerrilheiro ou o Tito religioso. Mas optamos pelo Tito humano, o homem que se envolve com um ideal e o leva até o fim. É impressionante alguém com essa capacidade de resistência. Tudo o que não queremos é encará-lo como herói”, conta o ator e diretor Cássio Castelan, do Teatro da Conspiração. O grupo de Santo André (SP) pretende estrear “Tito”, peça escrita por Solange Dias, em 10 de agosto, quando a morte do frade dominicano Tito de Alencar Lima completará 32 anos.
A companhia trabalha no projeto desde julho de 2004. “Recolhemos muito material, como 'Batismo de Sangue – Os Dominicanos e a Morte de Carlos Marighella' [de Frei Betto], textos soltos de Frei Tito e livros históricos sobre o período [da ditadura militar] e fizemos workshops. Trabalhamos com idéias de cenas, com partituras físicas. Desde janeiro ensaiamos com o texto, que ficou pronto em dezembro do ano passado. Em fevereiro erguemos as primeiras cenas”, diz Castelan.
Frei Tito se envolveu com a luta armada contra o regime militar (1964-1985) no fim da década de 60, em São Paulo. “Os dominicanos deram apoio logístico à ALN [Aliança Libertadora Nacional], grupo de Carlos Marighella, sem pegar em armas. Depois da morte de Marighella [em novembro de 1969], Tito foi preso e torturado pelo delegado [Sérgio Paranhos] Fleury e tentou o suicídio na prisão. Escreveu relatos em que descreve a tortura, publicados no exterior”, afirma Castelan.
Frei Tito foi preso em fevereiro de 1970 por seu envolvimento no congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes (UNE) realizado em 1968, em Ibiúna (SP). Trocado ao lado de outros presos políticos pelo embaixador suíço Giovanni Büchner, seqüestrado pelo movimento guerrilheiro Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), partiu para o exílio em janeiro de 1971. “Na França, Tito desenvolve uma patologia clínica. Vê torturadores em todo lugar, passa a receber ordens de um Fleury [líder do Esquadrão da Morte e símbolo maior da tortura] que só está na cabeça dele e pensa que a própria morte é a única forma de libertar outros torturados”, diz Castelan. Tito enforcou-se em 1974, em Lyon. “O terrível é que seu grande inimigo foi ele mesmo: saiu do Brasil e levou os torturadores com ele.”

Escrito por Mauro Fernando às 10h54
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"Tito"



O ator e diretor Cássio Castelan encontra no cotidiano atual um paralelo com a trajetória de Frei Tito, explícita na peça “Tito”. “Quantas vezes somos agredidos no dia-a-dia? Não temos mais a violência física, mas ficaram outros tipos de violência.” Por exemplo: “Não deixam você trabalhar, produzir da maneira como acha que pode ser útil. Pessoas como Tito contribuíram para um País mais livre”.
“O texto tem como estrutura o tempo real e as recordações de vida de Tito, que chegam em ordem cronológica”, revela Castelan, que divide a direção da montagem com Wilson Julião. “A peça começa com um diálogo entre Tito e seu médico na França. Então Tito repassa sua vida. Na última cena, o diálogo é retomado e se percebe porque as lembranças voltam. O texto é um embate de Tito com Fleury.”
Em meio a esse duelo, há uma discussão sobre o melhor caminho para o combate a uma ditadura – a luta armada ou a conscientização política. Castelan e Julião assinam juntos a concepção de direção. “Como estarei em cena, precisamos de um olhar de fora”, justifica Castelan. Existe uma divisão de funções: Julião cuida mais da parte corporal e Castelan, do entendimento do texto. São 16 personagens para sete intérpretes – o elenco não está fechado, o grupo ainda procura por um ator. Nesta semana haverá uma reunião para definir a divisão dos personagens.
O Teatro da Conspiração tem em repertório “Cantos Periféricos” e o infantil “As Aventuras do Gigante Prometeu” e conta com espaço para ensaiar, cedido por um colégio de Santo André, mas Castelan não deixa de apontar duas grandes dificuldades para levar “Tito” ao público. Quanto à “falta de dinheiro”: “O ideal seria diminuirmos os trabalhos fora do grupo, como oficinas, aulas regulares e trabalhos técnicos, para termos mais tempo para o projeto”. Em relação à “dificuldade de circulação”: “Como 'Tito' não é um espetáculo para palco italiano, então se estabelece o problema de onde apresentar a peça”.

Escrito por Mauro Fernando às 10h51
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"A IMPOSSIBILIDADE DA SANTIFICAÇÃO" ou "A SANTIFICAÇÃO TRANSFORMADA", de QORPO-SANTO
ATO SEGUNDO
CENA TERCEIRA
REVOCATA – Aproveitaremos, minha cara amiga, o dia chuvoso de hoje para conversarmos sobre o gosto dos homens. Os homens, minha menina, são tolos! Só querem meninas de 15, de 20, e quando muito de 30 anos. Desprezam as outras mulheres, muitas vezes mais apreciáveis que estas.
AMÉLIA – É verdade; eu também assim penso; pois até a mim, que tenho 35, que sempre brilhei (enxugando uma lágrima), estou hoje desprezada por dona Micaela, porque conto meus 35. Só por ela ser mais moça, quando eu, é certo, que sou mais bonita! Não é assim, minha cara amiga?
REVOCATA – Não tanto, minha boa Amélia. A senhora, segundo meus cálculos, já deve contar seus 52!
AMÉLIA – Cinqüenta e dois?! Com efeito: a senhora então está esquerda. Seja como for, eu não era digna de ser desprezada. Ainda assim mesmo, com essa idade, ainda tenho qualidades de tão subida importância; de tanto valor social ou para a sociedade, que devia entrar no número das mais consideradas.
REVOCATA – Apoiado, minha amiga; eu digo o mesmo; e conto pouco menos que oitenta!
AMÉLIA – Mal sabem eles, minha amiga, que nós não passamos de casas; e que, assim como entram em uma casa velha, por outra nova, nelas param, saem, etc., assim também podiam entrar em nós, sair, estar o tempo que lhes aprouvesse.
REVOCATA – Ah! Ah! Ah! Que lembrança! Que comparação bem-feita, minha querida amiga. Só mesmo a sua capacidade e inteligência podia produzir tanto, e tão bom.
AMÉLIA – Pois o que somos mais nós, minha amiga querida?




"UM SERTANEJO NA CORTE", de MARTINS PENA
[ATO ÚNICO]
PARTE PRIMEIRA
CENA I
O teatro representa uma rua. De um lado a casa de PEREIRA, a qual é de sobrado e tem uma janela. Dois ciganos.
PRIMEIRO CIGANO - Hoje nada temos feito.
SEGUNDO CIGANO - É verdade, os melros já estão mais espertos.
PRIMEIRO CIGANO - Porém caro lhes tem custado. Que belas lições lhes temos nós dado! Eles têm razão de não caírem mais como patinhos, pois as lições que mais retemos são aquelas que adquirimos à custa de nossa bolsa.
SEGUNDO CIGANO - O negócio não vai bem. Nesta última semana temos apenas feito quarenta mil-réis, e a não ser algum tapiocano ou algum mineiro, eu não sei o que havia ser de nós.
PRIMEIRO CIGANO - O que havia ser de nós! Ora esta é boa! Não há gazuas, e o sol não entra? Ainda estais muito criança!
SEGUNDO CIGANO - Criança! E se nos pilharem?
PRIMEIRO CIGANO - Ah, ah, ah! Está dito, é preciso que tenhas ainda uma ama por seis meses.
SEGUNDO CIGANO - Deixa-te de graças! Vamos ao que importa: o que faremos nós hoje?
PRIMEIRO CIGANO - Eu te digo. Tu irás passear naquela travessa; logo que vires que eu converso com algum sujeito, vem te aproximando, porém como não quer a coisa; neste tempo eu estarei oferecendo este anel, que eu comprei na Cruz (mostra um anel) por uma pataca, ao sujeito. Como por acaso eu te chamo para avaliar o anel; tu aproxima-te e avalia-o em cinqüenta mil-réis. Porém cuidado que ele não desconfie que tu me conheces.
SEGUNDO CIGANO - Não tenhas medo.

Escrito por Mauro Fernando às 11h20
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