"Os Dous ou o Inglês Maquinista", de Martins Pena

[ATO ÚNICO
O teatro representa uma sala. No fundo, porta de entrada; à esquerda, duas janelas de sacadas, e à direita, duas portas que dão para o interior. Todas as portas e janelas terão cortinas de cassa branca. À direita, entre as duas portas, um sofá, cadeiras, uma mesa redonda com um candeeiro francês aceso, duas jarras com flores naturais, alguns bonecos de porcelana; à esquerda, entre as janelas, mesas pequenas com castiçais de mangas de vidro e jarras com flores. Cadeiras pelos vazios das paredes. Todos estes móveis devem ser ricos.
CENA I
CLEMÊNCIA, NEGREIRO, MARIQUINHA, FELÍCIO. Ao levantar o pano, ver-se-á CLEMÊNCIA e MARIQUINHA sentadas no sofá; em uma cadeira junto destas NEGREIRO, e recostado sobre a mesa FELÍCIO, que lê o Jornal do Comércio e levanta às vezes os olhos, como observando a NEGREIRO.
CLEMÊNCIA – Muito custa viver-se no Rio de Janeiro! É tudo tão caro! NEGREIRO – Mas o que quer a senhora em suma? Os direitos são tão sobrecarregados! Veja só os gêneros de primeira necessidade. Quanto pagam? O vinho, por exemplo, cinqüenta por cento! CLEMÊNCIA – Boto as mãos na cebeça todas as] vezes que recebo as contas do armazém e da loja de fazendas. NEGREIRO – Porém as mais puxadinhas são as das modistas, não é assim? CLEMÊNCIA – Nisto não se fala! Na última que recebi vieram dous vestidos que já tinha pago, um que não tinha mandado fazer, e uma quantidade tal de linhas, colchetes, cadarços e retroses, que fazia horror. FELÍCIO, largando o Jornal sobre a mesa com impaciência – Irra, já aborrece! CLEMÊNCIA – [O que é?] [FELÍCIO – Todas as vezes] que pego neste jornal, a primeira cousa que vejo é: “Chapas medicinais e Ungüento Durand”. Que embirração! NEGREIRO, rindo-se – Oh, oh, oh! CLEMÊNCIA – Tens razão, eu mesmo já fiz este reparo. NEGREIRO – As pílulas vegetais não ficam atrás, oh, oh, oh! CLEMÊNCIA – Por mim, se não fossem os folhetins, não lia o Jornal. O último era bem bonito; o senhor não leu? NEGREIRO – Eu? Nada. Não gasto o meu tempo com essas ninharias, que são só boas para as moças.
Escrito por Mauro Fernando às 16h14
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"Júlio César"

“Há algum tempo queria fazer um [texto de William] Shakespeare [1564-1616], mas não um hit como 'Hamlet', 'Macbeth' ou 'Otelo'. Então cheguei a 'Júlio César'”, revela a diretora Beatriz Bologna. “Juntei-me com o [ator] Luiz Eduardo Frin, e lemos várias traduções mas não as via na boca de atores. Achei melhor assinar a tradução para ter mais liberdade.” Isso foi há dois anos. “Entramos na Lei Rouanet, mas o patrocínio não veio. Somos um grupo novo, não temos poder de fogo na mídia”, conta Beatriz. “Com o que aconteceu no ano passado [as três CPMIs], o texto pediu par ser montado. Fomos com a cara e a coragem.” A companhia Os Párias estréia “Júlio César” neste sábado (25/3), no Teatro Fábrica São Paulo, na capital paulista. A conjuntura política brasileira atual propiciou a montagem, afirma a diretora. “O texto fala de coisas que acontecem no País. Não há nenhuma relação direta como Brasil – Júlio César não representa tal figura, são figuras históricas diferentes das nossas. Mas o tipo de conflito é exatamente o mesmo: conspiração, traição, alianças que se partem. O texto pediu para que o tirasse da estante”. “Em nome da aceitação do público”, Beatriz cortou trechos do texto original. “Se faço uma peça de três horas e quinze minutos, que pega metrô não assiste. A minha encenação tem duas horas e dez minutos. Quem não leu o original não vai perceber os cortes. Não quero diminuir a genialidade de Shakespeare, mas hoje entendemos as coisas mais rapidamente por causa [dos efeitos dramatúrgicos] da TV e do cinema”, diz. Para ela, o maior mérito da dramaturgia do bardo inglês está na “colocação de contradições nos personagens que determinam sua falha trágica [conceito que atribui a catástrofe na tragédia a alguma falha no caráter do personagem], coisa que ele começou e ninguém mais conseguiu fazer como ele”. Segundo a diretora, o foco da trama está “na manipulação, tanto a do indivíduo quanto a das massas, e pertinentes a isso há as vaidades e as ambições”. A peça se inicia com a celebração da festividade das Lupercais, onde uma coroa foi oferecida a Júlio César (Márcio Cassoni), adorado pelo povo por suas conquistas. Embora ele tenha rejeitado a coroa, o receio de que já estivesse concentrando um poder excessivo leva vários membros importantes da República a arquitetar seu assassinato, para o qual a concordância de Brutus (Luiz Eduardo Frin), um de seus mais fiéis colaboradores, é fundamental. “Cássio [Marcelo Pacífico] é o articulador das sombras, quem coopta Brutus”, afirma. Beatriz defende a tese de que Brutus, pelas contradições que transpira, é o personagem principal da peça. “Ele colocou seu ideal acima dos relacionamentos pessoais e passou a ser o principal conspirador. Toda ação se desenrola ao seu redor. 'Júlio César' é uma peça sobre um assassinato e suas conseqüências, não sobre Júlio César, um personagem que não se modifica, em que não há uma transformação interior.” [Mais informações abaixo.]
Escrito por Mauro Fernando às 17h36
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"Júlio César"

A diretora Beatriz Bologna chama atenção para o discurso de Marco Antônio (Nelson Peres, ator convidado) após o assassinato de Júlio César: “É o mesmo dos marqueteiros de hoje. Tudo é pensado e calculado para que as pessoas sintam determinadas emoções. É um discurso capcioso, que embota o julgamento, dificulta a análise das coisas”. Abaixo, um trecho do discurso de Marco Antônio.
“Marco Antônio – Amigos, romanos, compatriotas, prestem atenção. Venho para sepultar César, não para glorificá-lo. O mal que fazem os homens vive depois deles; o bem é quase sempre enterrado com seus ossos. Que assim seja com César. O nobre Brutus contou-lhes que César era ambicioso. Se assim foi, era uma falta grave, e César a pagou gravemente. Aqui, com permissão de Brutus e dos outros – pois Brutus é um homem honrado, assim como os outros, todos homens honrados –, venho falar no funeral de César. Ele era meu amigo, fiel e justo comigo; mas Brutus diz que ele era ambicioso, e Brutus é um homem honrado. Ele trouxe muitos cativos de volta para Roma, cujos resgates foram pagos pelos cofres públicos. Nisso parecia César ambicioso? Quando os pobres choravam, César derramava lágrimas. A ambição deveria ter estofo mais duro. No entanto, Brutus diz que ele era ambicioso, e Brutus é um homem honrado. Vocês todos viram nas Lupercais, três vezes eu lhe ofereci a coroa real, e três vezes ele a recusou. Isso era ambição? No entanto, Brutus diz que ele era ambicioso, e sem dúvida alguma ele é um homem honrado. Falo não para contestar o que Brutus disse, mas para dizer o que sei. Vocês todos já o amaram, não sem motivo; que motivo os impede agora de chorar por ele? Oh, Discernimento, fugiste para os seres irracionais, e os homens perderam a razão. Desculpem-me. Meu coração está naquele caixão com César, e preciso de uma pausa até que ele me volte ao peito.”
“Júlio César”. De William Shakespeare. Direção de Beatriz Bologna. Com Os Párias. No Teatro Fábrica São Paulo. Rua da Consolação, 1.623, São Paulo, SP. Fone (3255-5922) . Sextas e sábados, às 21h30, e domingos, às 20h30. R$ 25 e R$ 30. Até 7/5.
Escrito por Mauro Fernando às 17h28
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"BR-3"

Rio Tietê, noite de 22 de março do ano de 2006 da Era Cristã (332º da partida da bandeira de Fernão Dias Pais rumo às esmeraldas). Estréia para convidados de “BR-3”, quarta montagem do Teatro da Vertigem, dirigido por Antonio Araújo. As cenas se desenvolvem nos três andares da embarcação que leva o público, nos botes que navegam em torno dela e nas margens do rio. O ingresso, portanto, dá direito a um passeio pelas águas poluídas do trecho paulistano do rio. Não é a viagem dos sonhos de ninguém, mas logo se instala a lua-de-mel do público com o grupo, que sabe lidar com espaços alternativos e criar a atmosfera propícia para a discussão temática proposta. Os três espetáculos anteriores da companhia, que contabilizam cinco prêmios APCA, nove Shell, dois Mambembe e dois Apetesp, estrearam em São Paulo: “O Paraíso Perdido” na Igreja de Santa Ifigênia, “O Livro de Jó” no Hospital Humberto Primo e “Apocalipse 1,11” no Presídio do Hipódromo. Surpresa haverá se o grupo fizer algum espetáculo em palco italiano. Às 20h, a fim de tomar um dos dois ônibus que levam ao local da encenação, os espectadores formam fila no ponto de encontro indicado pela produção, o estacionamento ao lado do portão 8 do Memorial da América Latina. No caminho para o Tietê, um motoqueiro, talvez incomodado com o tráfego estressante, aponta uma arma para o motorista de um dos ônibus. Passado o susto, alguns passageiros cogitam ser esse o início da peça. (Não era.) “BR-3” é fruto de uma pesquisa de dois anos sobre a identidade nacional. O Teatro da Vertigem residiu na Vila Brasilândia (subúrbio paulistano) e depois viajou para Brasília e Brasiléia (AC), recolhendo subsídios para a peça. Assim, investiga também as incongruências presentes na relação centro-periferia. A família de Jovelina (Marília de Santis) está no centro das ações. Depois de perder o marido na construção de Brasília, ela parte grávida para São Paulo e se estabelece na Brasilândia, onde assume o controle do tráfico de drogas sob o pseudônimo de Vanda. Seus filhos Jonas (Roberto Áudio) e Helienay (Daniela Carmona), bem como Evangelista (Cácia Goulart) e Dono dos Cães (Sergio Siviero), se enredam numa trama em que traições e vinganças definem o quem-é-quem dentro de um violento jogo de poder. A história – há um vaivém no tempo e no espaço – chega a Brasiléia, já com a presença dos netos de Jovelina/Vanda, Patrícia (Bruna Lessa) e Douglas (Rodolfo Henrique). Atento durante os 140 minutos da apresentação, o público se deixa envolver pelos atores, pela iluminação (de Guilherme Bonfanti), pela direção de arte (de Márcio Medina) - um trabalho coletivo que transforma cuspe em mel, podridão em arte. Na penúltima cena, o microfone de Ivan Kraut, que interpreta o Senador, não funciona. Alguém avisa: “Ivan, está no 'mute'!”. Corrigido o problema técnico, é possível ouvir o ator e perceber que o texto de Bernardo Carvalho fustiga o comportamento da classe abastada em relação ao povo desdenhado. “Fim”, anuncia a projeção na parede cinzenta que separa as águas da Marginal. Enquanto Cácia sobe ao último andar da embarcação para cumprimentar (e ser cumprimentada por) amigos e parentes, toca o celular de um espectador. “Alô! Cara, você não sabe onde estou! Navegando no Tietê! Incrível!” O odor característico do rio – suportável, ainda que houvesse uma ou outra má lufada – não perturbou o ânimo do público. À frente, pendurada em uma ponte, uma faixa alerta: “Jogue lixo no lixo. O Tietê agradece”. Quem passa pela Marginal não nota a quantidade absurda de sujeira que flutua no rio. A saída da embarcação é retardada em cinco minutos para a colocação de uma tábua que faça as pessoas evitarem pisar em uma poça ao acessar a escada que leva aos ônibus. Piadinhas entre a equipe responsável pela segurança – alguém sugere carregar as pessoas nos braços. No embarque para o retorno ao ponto de encontro, o motorista ameaçado pelo motoqueiro opina sobre a peça. “Vi um ensaio aberto. É impressionante o que eles [os atores] fazem. Mas se eu disser que entendi alguma coisa...”
“BR-3”. Criação do Teatro da Vertigem. Dramaturgia de Bernardo Carvalho. Concepção e direção geral de Antonio Araújo. Com o Teatro da Vertigem. No Rio Tietê, São Paulo, SP. (O público deverá estar uma hora antes do início da apresentação no estacionamento ao lado do portão 8 do Memorial da América Latina, à Avenida Auro Soares de Moura Andrade.) Quintas e sextas-feiras, às 21h, e sábados e domingos, às 20h. R$ 40. (Ingressos à venda somente nas lojas Fnac de São Paulo: Praça dos Omaguás, 34 e Avenida Paulista, 901.) Fone (11) 3115-0345. Até 28/5.
Escrito por Mauro Fernando às 18h05
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“Novíssimos Diretores e Atores – Onde Está o Autor?”
 "Natália, Nathália"
Depois da proeminência dos encenadores nos anos 80 e do recente resgate dos dramaturgos, emerge definitivamente o trabalho colaborativo, pelo qual atores, autores e diretores compartilham a confecção do espetáculo sem que suas funções se confundam nem se esgarcem. É o que pretende discutir a mostra “Novíssimos Diretores e Atores – Onde Está o Autor?”, que começa nesta quinta-feira (23/3) no Tusp, na capital paulista. Quatro grupos de atores e diretores recém-formados ou estudantes da ECA/USP se revezam no palco até 30/4. “O que as quatro peças têm em comum é uma participação muito grande dos atores na dramaturgia do espetáculo, o que é uma tendência contemporânea”, afirma o diretor do Tusp, Abílio Tavares. Para ele, esse modelo de fazer teatral gera dividendos: “É um ganho grande para a linguagem. Acrescenta porque aponta para uma possibilidade diferente na linha da criação, com a construção do espetáculo se dando ao longo do processo, a dramaturgia nascendo junto com o trabalho do ator”. Mas isso não significa que esse seja o modo certo de trabalhar, frisa. “Ele atende a uma necessidade, não quer dizer que o texto tradicional esteja morto. Teatro não é uma coisa só, existem muitos.” Sobre a questão da produção, Tavares é enfático: “O fato mais significativo, depois que as leis de incentivo à cultura [escoradas na renúncia fiscal] abriram espaço para o apoio da iniciativa privada, é a Lei do Fomento [que instituiu o Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo]. Essa lei investe no trabalho de grupos que não têm a questão comercial como premissa e permitiu a proliferação da pesquisa de linguagem”. “Natália, Nathália”, de Antônio Duran, Ellen Amaral e Reinaldo Yamada, com direção de Maurício Perussi, abre a mostra. Carla Martelli, Francisco Lauridsen e Marcela Baunitz formam o elenco. Sinopse: duas jovens, que residem em apartamentos iguais, mantêm o costume de se observarem através de um espelho; nasceram no mesmo dia e têm o mesmo nome; depois de um insólito encontro em uma festa, as duas se transformam. O trabalho partiu de duas referências temáticas propostas por Perussi, que assina sua primeira montagem profissional: o livro “Alice no País do Espelho”, de Lewis Carroll (1832-1898), e o filme “A Dupla Vida de Véronique”, de Krzysztof Kieslowski (1941-1996). “São conflitos íntimos pelos quais todos nós passamos. A ênfase está na simbologia do duplo, representada no espelho. Silêncios permeiam a ação, e a linguagem é mais poética”, explica o diretor. O espetáculo foi criado dentro da sala de ensaio por meio de processo colaborativo, confirma Perussi: as funções de atores, diretor e dramaturgos foram preservadas, embora umas remetessem às outras, influenciando-se mutuamente.
“Natália, Nathália”. De Antônio Duran, Ellen Amaral e Reinaldo Yamada. Direção de Maurício Perussi. Com Carla Martelli, Francisco Lauridsen e Marcela Baunitz. Quintas, sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 20h. De 23/3 a 2/4.
“Um Homem Bateu em Minha Porta”. De Tom Dupin. Direção e interpretação de Bruno Caetano, Carolina de Biagi, Fernanda Gama, Maria Julia Martins e Rafael Truffaut. Realização do Teatro do Óbvio. Quintas, sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 20h. De 6 a 16/4.
“A Espera da Morte”. Dramaturgia de Daniela Carmona. Direção de Nathália Lorda. Com André Carvalho, Diego José Villar, Xyko Peres, André Souto e Fernanda Navarro. Realização do Grupo Traüme Bizarre. Quintas, sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 20h. De 20 a 30/4.
“Inciso 4º do Parágrafo III”. De Luis Cabral e Cia. de Teatro em Quadrinhos. Direção de Beth Lopes. Com Aura Cunha, Eduardo Mossri, Leonardo Moreira, Maria Helena Chira. Realização da Cia. de Teatro em Quadrinhos. Dia 26/4, às 21h. (Ensaio aberto.)
No Tusp. Rua Maria Antônia, 294, São Paulo, SP. Fone (11) 3255-7182. R$ 10.
Escrito por Mauro Fernando às 10h07
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"Capobianco Mostra Beckett"
 "Esperando Godot"
Autor das peças como “Esperando Godot”, “Fim de Partida”, “Dias Felizes”, “A Última Gravação de Krapp” e “Comédia” e de romances como “Malone Morre” e “O Inominável”, o irlandês Samuel Beckett (1906-1989) rebebeu o Nobel de Literatura em 1969. A fim de comemorar o centenário de nascimento de Beckett, o Instituto Cultural Capobianco, em São Paulo, dá início nesta terça-feira (21/3) ao projeto “Capobianco Mostra Beckett”, conjunto de peças, filmes, palestras e exposição de fotos. “Com 'Esperando Godot', Beckett transformou o escrever teatral. Ele propôs uma narrativa sem começo nem fim, na qual a história não se resolve, e introduziu o silêncio como elemento muito importante”, afirma o diretor artístico do Instituto, Ulisses Cohn. “Beckett fugiu da dramaturgia mais tradicional. Percorreu as regiões emocionais do homem como nunca foi feito antes”, diz o ator Antônio Petrin, que apresenta a partir de quinta-feira (23/3), sob a direção de Francisco Medeiros, “A Última Gravação de Krapp”. Para Petrin, Beckett – cujas peças foram escritas depois da Segunda Guerra Mundial - revela uma profunda descrença na humanidade. “Ele apresenta o homem sempre no limite da existência, sem saída. Não há um sopro de esperança. Em 'Esperando Godot', por exemplo, a solução não chega”. O que, então, pode tirar uma pessoa de casa para assistir a uma peça de Beckett? “Ele faz com que olhemos para nós mesmos e identifiquemos uma necessidade de modificar as coisas. Sua obra não é escapista. É pessimista, mas traz a procura por uma existência melhor.” [Mais informações abaixo.]
Escrito por Mauro Fernando às 15h55
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"Capobianco Mostra Beckett"
 "A Última Gravação de Krapp"
No monólogo “A Última Gravação de Krapp”, Samuel Beckett trabalha com a imobilidade do ser humano. “Krapp é o homem estagnado que pensa estar em movimento. Come bananas embora saiba que lhe faz mal, bebe apesar de saber que não pode. É um compulsivo e não faz nada para mudar isso”, afirma o ator Antônio Petrin. “Beckett, que não faz concessões, sacode o estágio de letargia em que nos encontramos. Ninguém fica indiferente. Resta a nós ver e tentar a mudança.” Aos 69 anos, Krapp ouve gravações registradas em diferentes momentos de sua vida, um tipo de diário. Apresenta-se em cena uma ruína pessoal. “Krapp se relaciona com a máquina porque é a única coisa prazerosa para ele, porque sabe manipulá-la muito bem. Ela não o contraria, não contesta suas controvérsias, suas necessidades, suas idiossincrasias”, revela Petrin. O gravador mostra a dificuldade que Krapp tem de se relacionar com outro ser humano. “Seus relacionamentos foram inúteis, em vão. E suas atitudes aos 69 anos são iguais às de 30 anos atrás. Nada mudou na vida desse homem”, diz o ator. Solitário, Krapp é um escritor que vendeu uma dúzia de exemplares. Não se trata de um saudosista: “Ele olha crítica e ironicamente para o passado”. Petrin, que já atuou em peças de autores tão diferentes como Carlo Goldoni (1707-1793), Plínio Marcos (1935-1999) e Luís Alberto de Abreu em quase 40 anos de carreira, conta que a maior dificuldade para delinear Krapp é “entender porque Beckett escreve daquela maneira, o que ele pretende falar”. A montagem estreou em 2000, mas há mudanças para esta temporada. “Refizemos as gravações, há coisas que eu e o [diretor] Chiquinho [Medeiros] descobrimos agora. Antes o personagem tinha uma certa autopiedade e agora está mais franco”, afirma. [Mais informações abaixo.]
Escrito por Mauro Fernando às 15h51
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"Capobianco Mostra Beckett"
A programação de “Capobianco Mostra Beckett” começa com a palestra “Samuel Beckett, a Busca de uma Linguagem Pessoal”, na qual a professora da USP Célia Berretini analisa a obra beckettiana sob a perspectiva da construção da sua linguagem artística. “Tentamos contemplar não só as peças mais famosas, mas também olhar para as outras produções dele. A idéia é comemorar com uma reflexão sobre o trabalho dele, gerar conhecimento e não apenas entretenimento”, explica o diretor artístico do Instituto Cultural Capobianco, Ulisses Cohn. Os filmes exibidos em DVD, em inglês, não são legendados. “Entregaremos uma sinopse para o público antes das projeções. E há os comentaristas. A qualidade estética, visual, da ação, da mise em scène dos filmes é muito forte”, promete Cohn. Organizada pelo diretor teatral Rubens Rusche, a exposição “Fotografias de Espetáculos de Beckett (Montagens Nacionais e Internacionais)” destaca montagens em que trabalharam Antunes Filho, Bete Coelho, Fernanda Montenegro, Lélia Abramo (1911-2004) e Linneu Dias (1927-2002), entre outros.
Palestras (às 20h; R$ 10) 21/3: “Samuel Beckett, a Busca de uma Linguagem Pessoal”, com Célia Berretini 28/3: “O Universo Cênico de Samuel Beckett”, com Rubens Rusche 4/4: “As Peças Radiofônicas de Samuel Beckett”, com Rubens Rusche 11/4: “Roteiro para Cinema de Samuel Beckett”, com Rubens Rusche 18/4: “As Peças para TV de Samuel Beckett”, com Rubens Rusche 26/4: “A Narrativa Terminal – Os Romances de Samuel Beckett – A Trilogia”, com Fábio de Souza 2/5: “Peças para TV”, com Luiz Fernando Ramos
Espetáculos (sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 19h) 24/3 a 23/4 (R$ 30): “A Última Gravação de Krapp”, direção de Francisco Medeiros, com Antônio Petrin 3/6 a 2/7 (R$ 20): “Esperando Godot”, direção de Marcelo Lazzaratto, com a Boa Companhia
Filmes (às 16h; entrada franca) 25/3: “Krapp's Last Tape”, de Atom Egoyan, com John Hurt (comentários de Francisco Medeiros) 1º/4: “Happy Days”, de Patricia Rozema, com Rosaleen Linehan, Richard Johnson (comentários de Marcio Aurelio) 8/4: “Endgame”, de Conor McPherson, com Michael Gambon, David Thewlis, Charles Simon, Jean Anderson (comentários de Fábio de Souza) 15/4: “Waiting for Godot”, de Michael Lindsay-Hogg, com Barry McGovern, Johnny Murphy, Alan Stanford, Stephen Brennan (comentários de Marcelo Lazzaratto) 22/4: “Not I”, de Neil Jordan, com Julianne Moore; “Play”, de Anthony Minghella, com Alan Rickman, Kristin Scott-Thomas, Juliet Stephenson; “Act Without Words I”, de Karel Reisz, com Sean Foley; “Act Without Words II”, de Enda Hughes, com Pat Kinevane, Marcello Magni (comentários de Marcelo Lazzaratto) 29/4: “Footfalls”, de Walter Asmus, com Susan FitzGerald e Joan O´Hara; “A Piece of Monologue”, de Robin Lefévre, com Stephen Brennan; “Ohio Impromptu”, de Charles Sturridge, com Jeremy Irons (comentários de Rubens Rusche) 6/5: “Rockaby”, de Richard Eyre, com Penélope Wilton; “That Time”, de Charles Garrad, com Nial Buggy (comentários de Dominique Fingermann) Exposição (quintas e sextas, das 14h às 18h, e dentro dos horários da programação; entrada franca) 21/3 a 6/5: “Fotografias de Espetáculos de Beckett (Montagens Nacionais e Internacionais)”
No Instituto Cultural Capobianco. Rua Álvaro de Carvalho, 97, São Paulo, SP. Fone (11) 3237-1187.
Escrito por Mauro Fernando às 15h47
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"Os Caminhos do Teatro Paulista - Um Panorama Registrado em Críticas"

Clovis Garcia tem 85 anos e já não freqüenta com a mesma assiduidade as salas de teatro de São Paulo. “Vou muito a festivais, o que me dá um bom panorama. Antes via tudo, cheguei a assistir a 254 espetáculos em um ano”, diz. É um dos fundadores da Associação Paulista de Críticos de Teatro (APCT), atual Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), que completa meio centenário neste ano. Professor na Graduação e na Pós-Graduação da USP, pela qual se doutorou em 1974 com a tese “O Teatro Medieval Profano Francês no Século XIII”, Garcia continua pesquisando e orientando trabalhos acadêmicos. E lança nesta segunda-feira (20/3) o livro “Os Caminhos do Teatro Paulista – Um Panorama Registrado em Críticas” (Prêmio Editorial, R$ 60). O evento está marcado para as 18h30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo. O livro reúne críticas publicadas de 1951 a 1958 na revista “O Cruzeiro” e de 1963 a 1964 no jornal “A Nação”. “Não são somente críticas”, corrige Garcia: “quando não havia estréia, escrevia sobre o panorama teatral”. “Os Caminhos do Teatro Paulista” cobre “todo o período áureo do TBC [Teatro Brasileiro de Comédia, fundado em 1948], que deslachou em 1951 e entrou em decadência em 1958”. Além disso, Garcia testemunhou os nascimentos do Teatro de Arena (1953) e do Teatro Oficina (1958). Os contos de ficção científica publicados em “A Nação”, naturalmente, não foram incluídos em “Os Caminhos do Teatro Paulista”. Garcia ainda planeja ver em livro as críticas publicadas em “O Estado de S. Paulo”, no qual ingressou após a saída de Décio de Almeida Prado (1917-2000), e no “Jornal da Tarde”, no qual avaliava o teatro infantil. Ele conta que uma das regras da crítica é não fazer juízos definitivos. “Uma vez quase escrevi que [Gianfrancesco] Guarnieri não deveria fazer teatro.” Outras duas: “Respeitar o trabalho alheio e fundamentar a crítica”. De uma maneira geral, a relação do crítico com o artista é sempre complicada – e Garcia não é uma exceção. Já enfrentou muitas reações negativas – uma delas, de Paulo Autran. “E olhe que somos amigos, estudamos juntos Direito na USP. Para ele, são cinco as funções da crítica. “As mais importantes são traduzir o espetáculo para o público e mostrar para os artistas o que está se passando no palco.” Já o teatro é “uma necessidade da natureza humana”: “Todos os povos, de todas as épocas, têm teatro”. O teatro, portanto, vai além de uma discussão sobre funções social ou escapista ou educativa.
“Os Caminhos do Teatro Paulista – Um Panorama Registrado em Críticas”, de Clovis Garcia. Lançamento em 20/3, às 18h30. Na Livraria Cultura. Avenida Paulista, 2.073, São Paulo, SP (Conjunto Nacional). Fone (11) 3170-4033.
Escrito por Mauro Fernando às 12h12
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"O Marinheiro Escritor", de Qorpo-Santo

ATO SEGUNDO
QUADRO PRIMEIRO
MITRA (para Lamúria) – Sabe dizer-me se já foi despachado o meu requerimento?? LAMÚRIA – Teve o seguinte despacho (pegando e abrindo um livro): “Não tem lugar o que requer o suplicante, em vista da informação da tesouraria”. MITRA – Pois é possível que tal fosse o despacho que teve o meu requerimento!? LAMÚRIA – Está aqui escrito. MITRA – Isso não obsta! LAMÚRIA – Pois então faça outro requerimento. LAMÚRIA – Não faço; este é o terceiro que submeti despacho sobre o mesmo assunto. O primeiro teve um despacho incoveniente, por semelhante a este. O segundo não teve despacho. E o terceiro tem um despacho contrário a meu direito de propriedade e a leis escritas. Para que, pois, hei de eu mais pegar em pena para fazer requerimentos neste sentido!? LAMÚRIA – Então... MITRA – Sabe o senhor o que precisava fazer-se a meia dúzia de empregados públicos? Enforcá-los! Já tem sido o seu procedimento irregular ou contrário aos direitos dos outros homens, ou transgressões das Leis – a causa, e está sendo de milhares de desgraças, que estúpidos, observamos e lamentamos no Estado! E querem continuar, sabendo-o, proceder de igual modo para que tais infortúnios continuem a observar-se e lamentar-se! Deus vingará os inocentes e flagelará os criminosos, é quanto basta. Eu até penso que não está no lugar em que devia, pois da letra M se passa a N e de I a J...
Escrito por Mauro Fernando às 20h53
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