OS IRMÃOS DAS ALMAS (MARTINS PENA)

ATO ÚNICO
Sala com cadeiras e mesa. Porta no fundo e à direita; à esquerda um armário grande. Durante todo o tempo da representação, ouvem-se ao longe dobres fúnebres.
CENA I
LUÍSA, sentada em uma cadeira junto à mesa – Não é possível viver assim muito tempo! Sofrer e calar é minha vida. Já não posso! (Levanta-se.) Sei que sou pesada a D. Mariana e que minha cunhada não me vê com bons olhos, mas quem tem culpa de tudo isto é o mano Jorge. Quem o mandou casar-se, e vir para a companhia de sua sogra? Pobre irmão; como tem pago essa loucura! Eu já podia estar livre de tudo isto, se não fosse o maldito segredo que descobri. Antes não soubesse de nada!
CENA II
EUFRÁSIA e LUÍSA.
EUFRÁSIA, entrando vestida de preto como quem vai visitar igrejas em dia de Finados – Luísa, tu não queres ir ver os finados?
LUÍSA – Não posso, estou incomodada. Quero ficar em casa.
EUFRÁSIA – Fazes mal. Dizem que este ano há muitas caixinhas e urnas em S. Francisco e no Carmo, e além disso, o dia está bonito e haverá muita gente.
LUÍSA – Sei o que perco. Bem quisera ouvir uma missa por alma de minha mãe e de meu pai, mas não posso.
EUFRÁSIA – Missas não hei-de eu ouvir hoje; missas em dia de Finados é maçada. Logo três! O que eu gosto é de ver as caixinhas dos ossos. Há agora muito luxo.
LUÍSA – Mal empregado.
EUFRÁSIA – Por quê? Cada um trata os seus defuntos como pode.
LUÍSA – Mas nem todos os choram.
EUFRÁSIA – Chorar? E para que serve chorar? Não lhes dá vida.
LUÍSA – E que lhes dão as ricas urnas?
EUFRÁSIA – O que lhes dão? Nada; mas ao menos fala-se nos parentes que as mandam fazer.
LUÍSA – E isso é uma grande consolação para os defuntos...
Escrito por Mauro Fernando às 14h47
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OS MENINOS E AS PEDRAS

A guerra feita em nome da paz e a possibilidade de convivência entre contrários, isso sob a ótica de uma menina árabe e de um garoto judeu. Os Meninos e as Pedras, peça de Antônio Rogério Toscano dirigida por Juliana Monteiro, estréia neste sábado (8/4) no Viga Espaço Cênico, em São Paulo. Judson Cabral e Luiz Gustavo Jahjah interpretam o menino Yonathan; Ligia Yamaguti e Sissy Schucman se encarregam de Fátima, a garota árabe.
Os dois se encontram em um espaço imaginário, um deserto onde só há pedras. É um encontro que detona para as crianças os conflitos que envolvem os dois povos. Na primeira cena, Fátima brinca com pedras quando Yonathan chega. Ela quer expulsá-la, ameaça-a, mas ela não sai. Há um início de aproximação, mas logo se lembram de que são. Na segunda, ele espera a chegada dela e a conversa flui até as acusações que ela atira nele. Na terceira, há um atentado.
O tom do espetáculo é poético, diz o autor: “Não há um discurso panfletário, embora o tema seja de natureza política. Os meninos se sentem atraídos um pelo outro e se descobrem humanos. O mais interessante é o contato entre diferenças”. O texto põe em jogo a relação entre guerra e dogmas religiosos. “A peça fala da guerra como o oposto daquilo que ela é, já que ela promete a paz. Os meninos rompem com valores religiosos para conseguir a paz, fazem o contrário do que prega a religiosidade deles.” Segundo Jahjah, a montagem não se fecha em certezas maniqueístas: “São questões que colocamos sem termos respostas definitivas”.
Os quatro atores estão em cena o tempo todo. São quatro adultos que não se preocupam em interpretar crianças. “Não há uma tentativa de verosimilhança. A peça não é realista. E Juliana criou brincadeiras com bufões entre as três cenas”, afirma Toscano. “Trabalhamos com o raciocínio de uma criança. Não temos a pretensão de fazer crianças, o que ficaria muito falso”, diz Jahjah.
“Tive um desejo grande de escrever o texto quando vi a imagem de um garoto armado lá por 2001 ou 2002”, conta o autor. O texto ficou em sua gaveta até que Juliana resolveu montá-lo. Os atores, então, começaram a pesquisar em centros de cultura árabe e judaica. Encontros com Gershon Knispel, articulista da revista Caros Amigos, ajudaram na compreensão do universo temático, distante da realidade brasileira.
OS MENINOS E AS PEDRAS. De Antônio Rogério Toscano. Direção de Juliana Monteiro. Com Judson Cabral, Ligia Yamaguti, Luiz Gustavo Jahjah e Sissy Schucman. No Viga Espaço Cênico. Rua Capote Valente, 1.323, São Paulo, SP. Fone (11) 3801-1843. Sábados e domingos, às 17h. R$ 20. Até 8/5.
Escrito por Mauro Fernando às 17h16
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PEÇA DE ELEVADOR

Quinta montagem da Cia. Elevador de Teatro Panorâmico dirigida por Marcelo Lazzaratto, Peça de Elevador estréia nesta quinta (6/4) no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo. O grupo convidou Cássio Pires para escrever o texto, que aborda temas do dia-a-dia de uma metrópole. “Não se trata só do cotidiano”, corrige Lazzaratto, “mas também de questões metafísicas e filosóficas do homem contemporâneo”. O elevador é um símbolo de movimento em “uma cidade edificada, parada, estática”.
Diversas pessoas passam por dois elevadores envidraçados de um edifício comercial. Entre eles estão um casal que vive às turras, a estressada administradora do prédio, atrizes que ensaiam uma peça e duas colegas de trabalho. Os ascensoristas vivenciam as situações, que se apresentam de forma fragmentada – como os diálogos entrecortados que nos acostumamos a ouvir nos elevadores que pegamos diariamente. Há humor a permear o espetáculo.
Vinculada à figura do ascensorista, a dramaturgia surgiu ao longo do processo criativo, que durou um ano e meio. “O ascensorista presencia tudo, recolhe cacos de informações e de pessoas e tenta entrar nas histórias, completando-as, costurando-as, recriando-as”, afirma o diretor. Assim, Peça de Elevador trata do “poder humano da criação, que mesmo uma pessoa numa função burocrática pode exercer”.
Como o elevador é um elemento de passagem, a peça passa “pela questão do 'entre'”. “As pessoas estão sempre entre uma coisa e outra, o homem contemporâneo tem dificuldade de identificar os males da sociedade de consumo”, explica. Exemplo: “A pessoa compra um bem e não se satisfaz, logo quer outro”.
São dez atores em cena, incluindo Lazzaratto. Além dos personagens criados por Pires em colaboração com elenco e diretor, há os extraídos da dramaturgia universal: Hamlet (de William Shakespeare), as irmãs Olga, Maria e Irina (de Anton Tchekhov) e Chapeuzinho Vermelho e Lobo Mau (da narrativa oral colocada no papel por Charles Perrault, irmãos Jacob e Wilhelm Grimm e Hans Christian Andersen).
“Hamlet é o maior representante do 'entre'. 'Ser ou não ser' é o 'entre' absoluto. As irmãs [de Tchekhov] vivem numa província russa e sonham ir para Moscou e encontrar pessoas agradáveis, o verdadeiro amor, entretenimento. Estão insatisfeitas no lugar onde vivem e não percebem suas belezas. Chapeuzinho é o arquétipo de outro 'entre', o rito de passagem da infância para a adolescência. Na nossa história ela é uma garota de programa solitária e depressiva, envolvida com drogas e álcool, que não consegue se relacionar com o outro”, afirma o diretor.
Peça de Elevador é a terceira montagem dirigida por Lazzaratto a estrear em São Paulo neste ano. Pai, monólogo de Cristina Mutarelli interpretado por ela mesma, encerra temporada no Sesc Pinheiros no sábado (8/4). Esperando Godot (de Samuel Beckett) entrou em cartaz na quarta-feira (5/4) no Sesc Ipiranga – a Boa Companhia leva o espetáculo para o Instituto Cultural Capobianco em junho. Por fim, A Entrevista (de Samir Yazbek), na qual Lazzaratto também atua ao lado de Lígia Cortez, volta aos palcos até junho por meio da Caravana Paulista de Teatro, programa da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.
PEÇA DE ELEVADOR. De Cássio Pires. Direção de Marcelo Lazzaratto. Com a Cia. Elevador de Teatro Panorâmico. No Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, São Paulo, SP. Fone (11) 3113-3651. Quintas e sextas, às 19h30. R$ 15. Até 30/6.
Escrito por Mauro Fernando às 11h51
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O CABARÉ DOS QUASE-VIVOS

O teatro nasceu com a própria humanidade. “A transformação numa outra pessoa é uma das formas arquetípicas da expressão humana. O raio de ação do teatro, portanto, inclui a pantomima de caça dos povos da idade do gelo e as categorias dramáticas diferenciadas dos tempos modernos”, anota Margot Berthold em História Mundial do Teatro. As cerimônias antigas em que o xamã, porta-voz dos deuses, capturava corações e mentes igualam-se assim aos espetáculos em que o ator surge acompanhado do arsenal tecnológico atual.
Uma das formas teatrais mais populares é o teatro de bonecos, que ao longo do tempo ganhou diversas técnicas de animação de valor atemporal e universal. Os bonecos persas, hindus e chineses do teatro de sombras têm, pelo menos, 2,2 mil anos. No Japão, os primeiros registros históricos remontam ao século VIII. Chikamatsu Monzaemon (1653-1725), o “Shakespeare do Japão”, redigiu seus melhores trabalhos para títeres esculpidos em madeira – o bunraku, originário da Osaka do século XVII, permanece vivo até hoje. Na Europa da Idade Média, logo que as apresentações saíram das igrejas em direção às ruas, os titereiros e suas figuras movidas por cordéis e varas gozavam de grande estima.
No Brasil, o Grupo Sobrevento – que está em cartaz no Centro Cultural São Paulo com O Cabaré dos Quase-Vivos, peça recomendada para maiores de 14 anos – é uma das conceituadas trupes que movem a roda da história do teatro de bonecos. O espetáculo agrega à arte dos títeres conceitos do teatro de variedades.
Além de manipular com maestria cerca de 40 bonecos de vários tipos, como o de ventríloquo e títeres de varão, os quatro atores da companhia apresentam números de canto, dança e mágica. Travestidos de elegantes artistas nas cenas de cabaré, comentam indiretamente as ações que desenvolvem com os bonecos, um bem construídos drama (com pitadas cômicas) de um homem simples, um artista popular que em determinado momento percebe estar vazia sua panela.
Donos de um cinismo deslavado, os artistas zombam dos obstáculos colocados na existência dos desfavorecidos materialmente. A utilização desse recurso metalingüístico – lembremo-nos da vocação de certa vertente teatral para o entretenimento tolo, desprovido de inteligência – suscita interessante (e necessária) reflexão sobre o papel do artista na sociedade.
Eticamente, 10 para o Sobrevento. O fazer teatral não tem como objetivo encaixar protagonistas nas colunas sociais eternamente dedicadas à frivolidade. Sabe-se que elas contribuem na construção de imagens pessoais que rendem boas oportunidades publicitárias, mas um projeto cultural não pode se submeter à vulgarização em nome de um sucesso que, no fim, se revela fugaz e, conseqüentemente, ilusório.
Esteticamente, porém... A manipulação irretocável dos bonecos possui o poder de deslumbrar a platéia, mas as cenas de cabaré se desenrolam sem concisão, comprometendo o ritmo espetáculo. A montagem quase se perde diante das lacunas abertas pelas cenas que, por serem lentas, dispersam a atenção do espectador. Adolescentes, com sua proverbial baixa capacidade de concentração, têm nítida dificuldade de render-se à magia do teatro.
O CABARÉ DOS QUASE-VIVOS. Dramaturgia do Grupo Sobrevento. Direção de Luiz André Cherubini. Direção musical de Pedro Paulo Bogossian. Com o Grupo Sobrevento. No Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000, São Paulo, SP. Fone (11) 3277-3651. Sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 20h. R$ 12. Até 7/5.
Escrito por Mauro Fernando às 18h01
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O AUTO DO CIRCO

A diretora Renata Zhaneta descreve assim a magia circense: “Você fica a toda hora em estado de êxtase, mesmo sabendo o que vai ver. O circo diverte crianças de 8 a 80 anos de forma absolutamente desprovida de censura, de amarras. O encantamento está em ver pessoas tentando superar limites”. A Cia. Estável coloca O Auto do Circo em cartaz nesta terça-feira (4/4) no Centro Cultural São Paulo. Luís Alberto de Abreu assina o texto e Renata, a direção.
A peça estreou há dois anos, quando a companhia realizava seu projeto de ocupação do Teatro Flávio Império, em Cangaíba (Zona Leste paulistana). Foram seis meses de pesquisa, que envolveram os membros do grupo nascido em São Caetano do Sul (SP), o autor, a diretora, a historiadora Ermínia Silva e Marcelo Milan, responsável pela preparação dos números circenses incluídos no espetáculo.
O texto ilustra a trajetória do circo brasileiro por meio da saga ficcional de uma família circense contada pelo velho palhaço Coscorão (Nei Gomes). Remanescente de uma trupe que fincou os pés no Brasil no século XIX, Coscorão sofre com problemas de memória, mas tem a ajuda do jovem palhaço Ximbeva (Jhaíra).
De acordo com Renata, a montagem discute principalmente “a falta de políticas públicas [para o circo, em particular] e as dificuldades da vida artística”. Uma questão humana perpassa o espetáculo:“São enormes a garra, a vontade e a obstinação com que o artista circense toca a vida, independentemente das dificuldades [incluindo as financeiras]. Ele trabalha sua arte no dia-a-dia, com estudo, treino, prática”.
Nesse aspecto, a diretora encontra a intersecção entre o artista de circo e o de teatro. “Um grande prazer nos move, e isso é o mais importante porque nos dá o gás. Fazemos a peça felizes, comemorando o fato de pertencermos a esse universo.” O Auto do Circo, que abriu no mês passado o Festival de Teatro de Curitiba, segue depois para os teatros paulistanos João Caetano (em maio) e Arthur Azevedo (em agosto).
Números aéreos, com corda, trapézio de vôo, acrobacias, malabares e, claro, de palhaço – Coscorão revela como se tornou um – estão na montagem. Mas Renata ressalta que “a estética circense entra como linguagem, não na frente da história”: “Os números fazem parte da narrativa, não se pára a peça para fazê-los”. Uma lona no tablado corresponde ao picadeiro.
O AUTO DO CIRCO. De Luís Alberto de Abreu. Direção de Renata Zhaneta. Direção circense de Marcelo Milan. Com a Cia. Estável. No Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000, São Paulo, SP. Fone (11) 3277-3611. Terças a quintas, às 21h. R$ 12. Até 4/5.
Escrito por Mauro Fernando às 11h38
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O ANJO DO PAVILHÃO CINCO

Há cerca de quatro anos, o ator e produtor (e clínico geral) André Fusko acreditou que poderia transpor as páginas de Estação Carandiru, do oncologista e escritor Drauzio Varella, para o palco. “Procurei o Drauzio, que foi casado com uma tia minha, mas o Hector Babenco [diretor do longa-metragem Carandiru] já tinha os direitos exclusivos. Drauzio, porém, tinha um conto, Bárbara, sobre um travesti do Carandiru, e me deu os diretos”, conta Fusko.
A partir disso, uma dúvida se apossou de Fusko: como transformar o conto em teatro. “Chamei dois dramaturgos, Aimar Labaki e Sérgio Roveri. Labaki escreveu O Anjo do Pavilhão Cinco, uma narrativa tensa e quase mórbida, e Roveri, Abre as Asas Sobre Nós, um texto mais lírico. São duas peças diferentes, apesar de terem o mesmo ponto de partida”, diz. Sob a direção de Emilio Di Biasi, O Anjo do Pavilhão Cinco estréia nesta segunda-feira (3/4) no Espaço dos Satyros Dois, na capital paulista. Abre as Asas Sobre Nós deve chegar ao tablado em agosto.
As ações se passam no presídio. O encarregado da faxina Xalé (Darson Ribeiro), manda-chuva local, e o travesti Bárbara (Ivam Cabral) formam um casal. Quando chega o travesti Galega (Maria Gandara), Xalé se dispõe a nova conquista. Bárbara vai à forra e seduz Faustino (Fusko), um protegido de Xalé graças a trocas de favores. Jacinto (Fábio Penna) sabe que Faustino está preso por estupro – o equilíbrio nessa teia de relacionamentos está definitivamente rompido.
Trata-se de um recorte do universo social. “Há na peça jogo político, amor, ciúme, amizade, honra. Nesse sentido, a prisão funciona como qualquer escola ou empresa. São seres humanos”, afirma Fusko. Nas entrelinhas pode-se verificar a existência de uma discussão que envolve “o livre arbítrio e a predeterminação, seja ela genética, cultural ou de Deus”. “São personagens reais, com quem Drauzio Varella conviveu [quando clinicava no Carandiru]”, complementa Cabral.
O título da peça sugere haver um protagonista, mas Cabral garante que os cinco personagens têm o mesmo peso na história. “O texto foi escrito na forma de narrativa, e cada um tem sua cena.” Na prática, são cinco depoimentos que se intercalam. Quem seria o Anjo, então? “Tentamos não fechar essa questão, não entregar nada de bandeja. É sutil. Qualquer um pode ser o Anjo. Que o público decida responder a essa pergunta.”
Fusko tem consciência de que a montagem pode desagradar espectadores acostumados a comédias de fácil digestão. “Não é um espetáculo comercial. O Anjo do Pavilhão Cinco incomoda, é ousado. Quando pensei em produzir, quis um desafio de interpretação”, diz. Cabral confirma: “É um atrevimento”.
O ANJO DO PAVILHÃO CINCO. De Aimar Labaki. Inspirado no conto Bárbara, de Drauzio Varella. Direção de Emilio Di Biasi. Com André Fusko, Darson Ribeiro, Fábio Penna, Ivam Cabral e Maria Gandara. No Espaço dos Satyros Dois. Praça Roosevelt, 124, São Paulo, SP. Fone (11) 3258-6345. Segundas a quartas, às 22h30. R$ 20. Até 17/5.
Escrito por Mauro Fernando às 15h19
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"Duas Páginas em Branco", de Qorpo-Santo

ATO PRIMEIRO
CENA PRIMEIRA
(Aparecem duas moças, uma assentada sobre uma mesa, outra em uma cadeira; uma luz em cima daquela; e um moço em pé, ensinando a que está assentada. Chamaremos a uma de Mancília, à outra de Esterquilínia; ao moço, Espertalínio.)
ESPERTALÍNIO (pegando na mão da discípula) – Minha menina, pegue melhor na pena; a senhora não está bem assentada (endireitando-lhe o corpo), endireite mais o braço (pegando neste). Esta letra não está bem caracterizada; mais assim; esta haste saiu muito grossa; tome tinta; saiu muito bonita esta figura; agora, sim, já vai mostrando algum adiantamento.
MANCÍLIA – Ela sempre teve muito boa memória; é, é muito dócil; por isso, há de sempre fazer progressos; e assim tem sido!
ESPERTALÍNIO – Tem, porém, minha querida prima, esta nossa prima um grande defeito: sabe qual é?
MANCÍLIA (descendo da mesa, sorrindo-se) – Qual é?
ESPERTALÍNIO – Pois ainda não sabe?!
MANCÍLIA – Não.
ESPERTALÍNIO – É ter muito de formosa, muito de simpática, assaz de agradável e muitíssimo de amável.
(As duas sorriem-se; Mancília com estrondo.)
ESTERQUILÍNIA – Com tal mestre, ainda que eu não quisesse, havia de aprender muito e muito bem!
ESPERTALÍNIO – Estimo, e muito, que aprenda muito; e muito bem. Porém, parece-me uma parvoíce vir cá todos os dias, ou todas as noites, instruí-la, podendo prepará-la em nossa casa (repetem-se as gargalhadas).
Escrito por Mauro Fernando às 11h47
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