ROTUNDA


SENHORITA ELSE





O mdico, escritor e dramaturgo austraco Arthur Schnitzler (1862-1931) publicou o romance Senhorita Else em 1924. Amigo de Sigmund Freud (1856-1939), foi um estudioso dos desejos humanos inclusive os sexuais e da classe burguesa. A adaptao de Senhorita Else escrita por Roberta Mestieri estria no Teatro Itlia, em So Paulo, na quarta-feira (19/4).

Roberta e Elene Tziortzis, que tambm assinam a direo do espetculo, revezam-se no palco entre a protagonista e demais personagens em dias intercalados. Em um monlogo interior, Else demonstra desejos e receios. Convidada por uma tia, ela est em um hotel quando recebe uma carta da me, que solicita socorro para as dvidas de jogo do pai, ameaado de ir para a priso. A um amigo, Else pede dinheiro em troca, ele exige que ela se dispa.

A pea discute valores, o que certo e o que errado, diz Roberta. Else tem uma honestidade que no se encaixa nos padres burgueses. De repente, ela tem um insight e resolve tirar a roupa na frente de todos. A atriz e diretora afirma que a montagem no exatamente uma crtica hipocrisia da sociedade burguesa, mas uma constatao: H um questionamento de todas as personagens. Cissy casada e transa com um primo, mas como disfara, est tudo bem. Quando Else fica nua na frente de todos, chamada de louca e vagabunda.

Embora Senhorita Else seja um drama psicolgico, h humor no espetculo. Ela faz comentrios parte no meio das falas o tempo inteiro, o que a torna uma personagem engraada, garante Roberta. Demais personagens aparecem no corpo das atrizes e tambm em vozes pr-gravadas. J que um monlogo interior, h uma percepo dela das personagens, como se elas tivessem dentro da cabea dela. Isso explica as perspectivas meio alteradas do cenrio.


SENHORITA ELSE. De Arthur Schinitzler. Adaptao de Roberta Mestieri. Direo e atuao de Roberta Mestieri e Elene Tziortzis. No Teatro Itlia. Avenida Ipiranga, 344, So Paulo, SP. Fone (11) 3257-9092. Quartas e quintas, s 21h. R$ 30. At 1/6.


Escrito por Mauro Fernando s 17h57
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HRCULES





Os grupos Parlapates e Pia Fraus querem estabelecer um novo paradigma para o teatro de rua com Hrcules, pea que mostram no Parque da Independncia, em So Paulo, de sexta-feira a domingo (14 a 16/4), com entrada franca. No que vejam mais defeitos que virtudes nas apresentaes ao ar livre, a questo outra. H coisas boas e ruins no teatro de rua no Brasil, isso acontece em qualquer profisso, explica o parlapato Hugo Possolo, que assina a dramaturgia a direo de Beto Andreetta, do Pia Fraus. Eles querem provar que possvel fazer espetculos de grande dimenso, que apaream para a cidade, com dramaturgia especfica e criados a partir de oficinas.

Por grande dimenso, entenda-se a presena de 26 atores no palco de 300 m e bonecos gigantes, carro e motos em cena. o tipo de empreitada em que o mais fcil desistir dela. Passamos por mais de 12 trabalhos, brinca Possolo, numa referncia ao mote do espetculo, os 12 desafios propostos ao semideus grego Hracles (ou Hrcules, como ficou conhecido na Roma Antiga).

As duas companhias comearam os ensaios em agosto de 2005 Hrcules estreou em maro, no Festival de Teatro de Curitiba, e j passou neste ms pelo paulistano Vale do Anhangaba. As oficinas de interpretao, produo, dramaturgia e cenografia nortearam a concepo da montagem. Mas j pensavam no trabalho em conjunto desde 2003 e apresentaram ao Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de So Paulo, em 2004, o projeto Hrcules Um Novo Paradigma para o Teatro de Rua.

Durante a oficina de dramaturgia discutimos filosofia grega desde os pr-socrticos at os pr-cristos, e nesses grupos de estudo procuramos estabelecer paralelos com a nossa atualidade, mas no achvamos, conta o parlapato. Mitologia Grega, de Junito de Souza Brando mais precisamente um dos volumes que compem a obra , mostrou o caminho das pedras para os artistas, que passaram a lidar com alegorias. O livro deu um sentido potico ao espetculo maior do que a gente esperava. So situaes presentes desde sempre na grande aventura humana. No colocamos as alegorias criticamente, elas no so nem contra nem a favor de algo.

D-se, assim, a traduo do universo mitolgico do homem antigo. O episdio em que Hrcules captura o javali de Erimanto tem o significado da opresso da religio. A captura da cora cerinita, outro trabalho hercleo, significa o primeiro contato com a sexualidade. O leo de Nemia significava para os gregos o primeiro poder a ser rompido pelo jovem para se manter na sociedade. So coisas que rendem imagens.

Hrcules aborda a fora dos poderes econmico, poltico e religioso, alm da fome e da guerra, que ganham um roupagem escorada em um mecanismo de expresso popular forte no Brasil, o Carnaval: Usamos o alegre esprito carnavalesco para fazer o espetculo. As principais caractersticas dos Parlapates (o humor) e do Pia Fraus (a plasticidade) mesclam-se na pea. Os grupos se apropriaram das coisas de um e do outro, elas se misturaram no processo criativo, afirma Possolo, que interpreta Zeus. Hrcules fica a cargo de Raul Barretto.


HRCULES. Dramaturgia de Hugo Possolo. Direo de Beto Andreeta. Com Parlapates e Pia Fraus. Em So Paulo, SP. De 14 a 16/4, s 20h, no Parque da Independncia (Parque da Independncia, s/n). De 21 a 23/4, s 20h, no Clube da Cidade (Rua Viri, 425). De 27 a 29/4, s 19h, na Comunidade Helipolis. Entrada franca, com troca de senha no local uma hora antes do incio de cada apresentao (800 lugares).


Escrito por Mauro Fernando s 19h48
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QUANDO NIETZSCHE CHOROU





Os atores (Cssio Scapin e Nelson Baskerville) so competentes, a direo (de Ulisses Cohn) correta, a produo bem cuidada, o programa da pea tem 32 pginas. O que, ento, faz de Quando Nietzsche Chorou, em cartaz no Teatro Imprensa, em So Paulo, uma montagem de atmosfera assptica? A ausncia do risco que faz do teatro uma arte viva e pulsante.

A falta ousadia, por sinal, comea na adaptao do best seller homnimo de Irvin D. Yalom, que vendeu mais de 200 mil exemplares somente no Brasil. A caixa cnica quadrada nos dois sentidos, o literal e o de careta o signo maior do convencionalismo que afeta o espetculo. No se trata, evidentemente, de decretar a insolvncia do palco italiano, mas de refletir sobre outras possibilidades teatrais.

A pea trata do encontro hipottico entre o mdico Josef Breuer (1842-1925), co-autor ao lado de Sigmund Freud (1856-1939) de Estudos Sobre a Histeria (o livro que deu o pontap inicial na teoria psicanaltica), e o filsofo Friedrich Nietzsche (1844-1900), autor de O Nascimento da Tragdia e Assim Falou Zaratustra, entre outras obras.

Enquanto Breuer (Baskerville) e Nietzsche (Scapin) surgem no palco, Lou Salom (Ana Paula Arosio), Mathilde Breuer (Lgia Cortez) e Freud (Flvio Tolezini) aparecem em projees de vdeo. O mdico v um filsofo abalado emocionalmente, levado a ele por intermdio de uma sedotora Salom.

Nesse encontro fluem as contradies que sustentam a dramaturgia, incluindo a inverso de papis entre os dois um passa a cuidar clinicamente do outro, j que o mdico revela ter se envolvido com uma paciente, Anna O. e a crise conjugal do casal Breuer. Percebem-se aqui e ali pitadas de uma psicanlise que resvala na auto-ajuda.

O nico risco que se corre em Quando Nietzche Chorou est na impossibilidade de improvisar com as imagens em vdeo h dilogo de Breuer com Salom em que o ator contracena com a presena virtual da atriz. O pblico ri nos momentos em que est previsto o riso e se aquieta quando a situao no palco exige um pouco mais de concentrao. E assim segue a vida nesse ambiente no qual as parafusos se encaixam matematicamente mas inexistem os sobressaltos que a compem e a tornam mais interessante.


QUANDO NIETZSCHE CHOROU. De Irvin D. Yalom. Adaptao de Ulisses Cohn e Nelson Baskerville. Direo de Ulisses Cohn. Com Cssio Scapin e Nelson Baskerville. Participao especial em vdeo de Ana Paula Arosio, Lgia Cortez e Flvio Tolezani. No Teatro Imprensa. Rua Jaceguai, 400, So Paulo, SP. Fone (11) 3241-4203. Quintas a sbados, s 21h, e domingos, s 19h. R$ 50 e R$ 60. At 6/8.


Escrito por Mauro Fernando s 14h46
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CIA. SO JORGE DE VARIEDADES


Biedermann e os Incendirios



Tarde de quinta-feira, 6/4. A atriz Mariana Senne, da Cia. So Jorge de Variedades, precisa interromper a entrevista para o Rotunda a fim de ensaiar uma cena da comdia Um Credor da Fazenda Nacional (textos de Qorpo-Santo e direo de Georgette Fadel), j na segunda semana da temporada no Centro Cultural So Paulo. Retocar cenas, mesmo com o espetculo em cartaz, uma constante do grupo. O rigor, o ritmo das cenas necessita ser preservado. Os atores tm de estar muito conectados. Caso contrrio, no alcanamos nosso objetivo, que a comunicao com o pblico, afirma Mariana.

A entrevista continuaria no dia seguinte. Um Credor da Fazenda Nacional foi um processo de muita experimentao e muita diverso, com um registro forte de partitura fsica, de tempos cmicos, conta a atriz. Improvisaes nortearam o processo. Por exemplo: Houve cinco verses para a cena do [personagem] Quadrado. H uma influncia forte do [Estdio] Nova Dana, a conexo entre atores e espao na construo dos personagens em todas as montagens do grupo, o que acarreta na improvisao, inevitavelmente.

muito difcil fazermos trabalho de mesa, revela. Mais que inventar uma coisa psicolgica, criamos personagens descobrindo como so pela forma como se relacionam com os outros. H algo de [Constantin] Stanislavski e Eugnio Kusnet, mas o principal o que surge do improviso com o outro ator.

Em Biedermann e os Incendirios (texto de Max Frisch e direo de Georgette), cada personagem ganhou dois atores durante os ensaios. Assim, Tininha Petta e Mariana trabalharam com Babette, mulher de Cndido Biedermann. Tininha fez coisas [nas apresentaes] propostas por mim, diz Mariana. O mesmo procedimento foi adotado pelas duas atrizes para a construo de Ana, a empregada do casal, personagem que ficou com Mariana. Resumo: a construo coletiva. No o meu gesto ou a minha idia. A criao compartilhada.

O que determina a escolha de uma temtica para a elaborao de um trabalho novo? O prximo passo sempre difcil. Cada um coloca o que quer como artista. Alguns tm uma pegada mais poltica, outros mais potica, afirma a atriz. Mas no existe o perigo de os debates carem numa espcie de assemblesmo tosco, garante Mariana, pois h questes prticas que anseiam por consenso. A tnica: deixar o Brasil na berlinda por meio de parbolas e metforas. Queremos entender que pas este, denunciar, colocar na parada as injustias, as diferenas de classes. Ao mesmo tempo, h uma necessidade profunda de poesia, saindo de uma coisa panfletria.

Para os 13 integrantes da companhia, o fundamental discutir inclusive o que arte e combater a alienao. Isso pode construir algo para a sociedade que no aliene o pblico. Vivemos em uma era e em um pas nos quais h pobreza, violncia e misria. Parece que a nica escapatria a alienao. Volta tona, pois, o manifesto contra o escapismo: alm de divertir, o teatro deve provocar reflexo.

[Mais informaes abaixo.]


Escrito por Mauro Fernando s 18h08
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CIA. SO JORGE DE VARIEDADES


Certa Entidade em Busca de Outra



A Cia. So Jorge de Variedades est com seu repertrio de quatro peas no Centro Cultural So Paulo. (Alm deles, h o Projeto na Sola da So Jorge, com espetculos desenvolvidos paralelamente por membros da trupe.) Pedro O Cru (texto de Antnio Patrcio e direo de Georgette Fadel) aborda a trajetria do rei portugus Pedro I (Lus Mrmora) e sua amante Ins de Castro (Tininha Petta). Sete anos aps o assassinato de Ins, o monarca desenterra seu corpo e a coroa rainha. o amor de um dspota louco que pe o reino a perder, sintetiza a atriz Mariana Senne.

Biedermann e os Incendirios (texto de Max Frisch e direo de Georgette) centrado na culpa burguesa, como define Mariana. Cndido Biedermann [Alexandre Faria] acredita ser um homem bom, mas vende uma loo para calvcie que xixi. Vrios incndios atormentam a cidade, que tomada por um clima de desconfiana. Um desconhecido pede abrigo para o pequeno-burgus Biedermann, que, por conta de seus bons sentimentos, resolve acolh-lo. O hspede traz consigo gales de gasolina.

Montamos essa pea em um momento de eleies presidenciais e nos concentramos na disputa de classes, pensando onde ns, filhos da classe mdia com um discurso pronto para critic-la, entraramos nesse universo, afima a atriz. Em As Bastianas [contos de Gero Camilo e direo de Mrmora], fomos ao encontro dos incendirios. Explica-se: o espetculo estreou no Albergue Municipal do Canind onde aconteceram os ensaios, em meio populao que l vive , transferindo-se depois para o Albergue Oficina Boracea.

O grupo teve de lidar com a populao dos albergues e manter com ela uma relao de cumplicidade, j que ela interferia no processo. Foi uma aprendizagem intensa. Uma vez paramos um ensaio para ajudar o filho de um carroceiro que tinha sido atropelado. Nos colocamos ao lado deles, que onde estamos de fato. Passamos por questionamentos pessoais profundos, como quando nos vimos com at dois casacos enquanto havia uma senhora batendo os dentes de frio, diz Mariana. As Bastianas tem como ponto de partida contos publicados em A Macaba da Terra. O foco est na questo da identidade.


II MOSTRA DE REPERTRIOS CONTEMPORNEOS CIA. SO JORGE DE VARIEDADES. Quintas a sbados, s 21h, e domingos, s 20h. At 4/6.

UM CREDOR DA FAZENDA NACIONAL. De Qorpo-Santo. Direo de Georgette Fadel. Com Alexandre Krug, Mariana Senne, Patrcia Gifford, Paula Klein e Tininha Petta. At 16/4 (e 2/6).
BIEDERMANN E OS INCENDIRIOS. De Max Frisch. Direo de Georgette Fadel. Com Alexandre Faria, Alexandre Krug, Carlota Joaquina, Lus Mrmora, Mariana Senne, Patrcia Gifford, Paula Klein, Rogrio Tarifa e Tininha Petta. De 21/4 a 7/5 (e 3/6).
AS BASTIANAS. De Gero Camilo. Roteiro e adaptao de Alexandre Krug, Lus Mrmora e Marcelo Reis. Direo de Lus Mrmora. Com Carlota Joaquina, Georgette Fadel, Mariana Senne, Patrcia Gifford, Paula Klein, Tininha Petta, Alexandre Faria, Alexandre Krug, Marcelo Reis, Rogrio Tarifa e Walter Machado. De 13 a 28/5 (e 4/6).
PEDRO O CRU. De Antnio Patrcio. Direo de Georgette Fadel. Com Alexandre Faria, Alexandre Krug, Lus Mrmora, Marcelo Reis, Mariana Senne, Patrcia Gifford, Rogrio Tarifa, Tininha Petta, Walter Machado e Fernanda Machado. Dia 1/6.


PROJETO NA SOLA DE SO JORGE. Teras e quartas, s 21h. At 31/5.

ENTREVISTA COM STELA DO PATROCNIO. Textos de Stela do Patrocnio. Adaptao e criao musical de Lincoln Antnio. Direo de Georgette Fadel e Lincoln Antnio. Com Georgette Fadel, Juliana Amaral e Lincoln Antnio. At 19/4.
CERTA ENTIDADE EM BUSCA DE OUTRA. De Qorpo-Santo. Adaptao da Cia. Bonecos Urbanos. Direo de Carlota Joaquina. Com Eduardo Alves, Maf Nogueira e Rubinho Louzada. De 25/4 a 10/5.
FRANCISCO PS APS PS. Texto, direo e atuao de Rogrio Tarifa. De 16 a 31/5.

No Centro Cultural So Paulo. Rua Vergueiro, 1.000, So Paulo, SP. Fone (11) 3277-3651. R$ 12.


Escrito por Mauro Fernando s 18h03
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UM CREDOR DA FAZENDA NACIONAL


Um Credor da Fazenda Nacional



De janeiro a junho de 1866, em uma atividade febril, Jos Joaquim de Campos Leo (1829-1883) escreveu 17 peas curtas uma delas inacabada. Assinou-as como Qorpo-Santo. Singulares, estavam alm de seu tempo incompreendidas, taxadas de alucinaes, no foram encenadas na provncia gacha em que viveu o autor. Entre elas esto Mateus e Mateusa, As Relaes Naturais, Eu sou vida; Eu no Sou Morte e Um Credor da Fazenda Nacional. Anbal Damasceno e Guilhermino Cesar, j na segunda metade do sculo XX, apresentaram Qorpo-Santo ao Brasil Cesar definiu-o como criador do Teatro do Absurdo.

Estudo de Flvio Aguiar, sem negar os aspectos vanguardistas dos textos de Qorpo-Santo, esclarece que eles por conterem princpios cmicos, grotescos, do teatro de costumes, do teatro de tese, trgicos no cabem num rtulo simplista. Eudinyr Fraga, em Qorpo-Santo: Surrealismo ou Absurdo?, demonstra as afinidades do autor com o Surrealismo: O teatro de Qorpo-Santo parte de um esquema habitual ao teatro de costumes da sua poca mas, por fora do automatismo psquico, de uma escrita automtica que utiliza (ou que o utiliza ...) sem cessar, ultrapassa-o e dele se distancia completamente, [...] repleto de elementos que, mais tarde, se constituiro como componentes de um teatro dito 'surrealista'. Andr Breton publicou o Manifesto Surrealista em 1924 mais de 40 anos aps a morte de Qorpo-Santo.

A Cia. So Jorge de Variedades est em cartaz no Centro Cultural So Paulo com Um Credor da Fazenda Nacional, texto de maio de 1866. Retrato sem pudores (e atual) da delinqncia do Estado, a sarcstica comdia narra a infeliz viagem de um cidado pelos tortuosos corredores da burocracia em busca de um dinheiro que a cada cena se revela mais difcil de ser recebido. Os espectadores perambulam com o Credor (Patrcia Gifford) pelos diversos espaos cnicos montados no poro do Centro Cultural, o que acentua a percepo da violncia estatal.

Dirigida por Georgette Fadel, a companhia enxertou no espetculo trechos de O Marido Extremoso ou O Pai Cuidadoso e Dois Irmos, construindo uma sntese da dramaturgia de Qorpo-Santo, na qual afloram a crtica a uma organizao scio-econmica injusta e personagens a um passo da bancarrota existencial frustraes sexuais includas neste item. O bom trabalho de interpretao estimulante ver o elenco brincar o jogo teatral e a concepo cnica que envolve diretamente o pblico, aliados msica executada ao vivo pelos atores, compem uma paisagem instigante, que faz transbordar o poder corrosivo de uma comdia realizada com inteligncia.

[Mais informaes abaixo.]


Escrito por Mauro Fernando s 21h47
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UM CREDOR DA FAZENDA NACIONAL


Entrevista com Stela do Patrocnio



A Cia. So Jorge de Variedades est apresentando seu repertrio no Centro Cultural So Paulo at 4/6. Um Credor da Fazenda Nacional (de Qorpo-Santo), Biedermann e os Incendirios (de Max Frisch) e As Bastianas (de Gero Camilo) ficam em cartaz, sucessivamente, de quintas a domingos. Complementando a programao, h o Projeto na Sola da So Jorge, composto por espetculos desenvolvidos paralelamente por integrantes do grupo. A trupe surgiu em 1998, com Pedro O Cru (texto de Antnio Patrcio dirigido por Georgette Fadel).

Um dos focos da companhia a relao com o pblico, o que leva questo do espao cnico. Nenhuma das quatro montagens foi concebida para o convencional palco italiano. A inteno colocar o espectador dentro da cena, reduzindo a distncia e no somente a fsica que o separa do ator. Para a atriz Mariana Senne, preciso incitar o interesse da platia pela reflexo e desmistificar sua relao com o artista: O ator no aquela figura mstica, que cria uma personagem dentro de sua solido e colocado dentro de um pedestal na sala [de apresentao].

O que o pblico teatral? Resume-se a entrar e assistir quieto?, pergunta. A resposta vem com uma dose ideolgica. Ele no um voyer. Estamos numa poca em que no existe mais a quarta parede. Inevitavelmente, o palco italiano bota o ator como um iluminado, algum mais importante, mais especial que o pblico. Isso fruto de um raciocnio que a sociedade tem demais, o da celebridade em contraposio ao fracassado. No queremos corroborar com o pensamento dominante. O teatro tem de propor outra possibilidade. Tentamos fazer uma arte no decorativa, mas que seja inteligente e traga reflexo e emoo, que traga a conscincia do espao que ocupamos no mundo.

Por sinal, transformar o mundo um dos motivos que levam a trupe a fazer teatro. o que fala a [atriz] Tininha [Petta], afirma Mariana. Para esta, integrar a Cia. So Jorge de Variedades um coletivo de 13 pessoas, uma microclula da sociedade representa um exerccio de vivncia social, a possibilidade efetiva de ouvir, entender e aceitar o outro: Por mais diferenas que existam, conseguimos dialogar. Mariana ainda vai alm: Neste mundo louco, em que cada vez mais as relaes so virtuais, o teatro um encontro real que detona um processo forte de sensibilizao, questionamento e reflexo.


II MOSTRA DE REPERTRIOS CONTEMPORNEOS CIA. SO JORGE DE VARIEDADES. Quintas a sbados, s 21h, e domingos, s 20h. At 4/6.

UM CREDOR DA FAZENDA NACIONAL. De Qorpo-Santo. Direo de Georgette Fadel. Com Alexandre Krug, Mariana Senne, Patrcia Gifford, Paula Klein e Tininha Petta. At 16/4 (e 2/6).
BIEDERMANN E OS INCENDIRIOS. De Max Frisch. Direo de Georgette Fadel. Com Alexandre Faria, Alexandre Krug, Carlota Joaquina, Lus Mrmora, Mariana Senne, Patrcia Gifford, Paula Klein, Rogrio Tarifa e Tininha Petta. De 21/4 a 7/5 (e 3/6).
AS BASTIANAS. De Gero Camilo. Roteiro e adaptao de Alexandre Krug, Lus Mrmora e Marcelo Reis. Direo de Lus Mrmora. Com Carlota Joaquina, Georgette Fadel, Mariana Senne, Patrcia Gifford, Paula Klein, Tininha Petta, Alexandre Faria, Alexandre Krug, Marcelo Reis, Rogrio Tarifa e Walter Machado. De 13 a 28/5 (e 4/6).
PEDRO O CRU. De Antnio Patrcio. Direo de Georgette Fadel. Com Alexandre Faria, Alexandre Krug, Lus Mrmora, Marcelo Reis, Mariana Senne, Patrcia Gifford, Rogrio Tarifa, Tininha Petta, Walter Machado e Fernanda Machado. Dia 1/6.


PROJETO NA SOLA DE SO JORGE. Teras e quartas, s 21h. At 31/5.

ENTREVISTA COM STELA DO PATROCNIO. Textos de Stela do Patrocnio. Adaptao e criao musical de Lincoln Antnio. Direo de Georgette Fadel e Lincoln Antnio. Com Georgette Fadel, Juliana Amaral e Lincoln Antnio. At 19/4.
CERTA ENTIDADE EM BUSCA DE OUTRA. De Qorpo-Santo. Adaptao da Cia. Bonecos Urbanos. Direo de Carlota Joaquina. Com Eduardo Alves, Maf Nogueira e Rubinho Louzada. De 25/4 a 10/5.
FRANCISCO PS APS PS. Texto, direo e atuao de Rogrio Tarifa. De 16 a 31/5.

No Centro Cultural So Paulo. Rua Vergueiro, 1.000, So Paulo, SP. Fone (11) 3277-3651. R$ 12.


Escrito por Mauro Fernando s 21h40
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