SENHORITA ELSE

O médico, escritor e dramaturgo austríaco Arthur Schnitzler (1862-1931) publicou o romance Senhorita Else em 1924. Amigo de Sigmund Freud (1856-1939), foi um estudioso dos desejos humanos – inclusive os sexuais – e da classe burguesa. A adaptação de Senhorita Else escrita por Roberta Mestieri estréia no Teatro Itália, em São Paulo, na quarta-feira (19/4).
Roberta e Elene Tziortzis, que também assinam a direção do espetáculo, revezam-se no palco entre a protagonista e demais personagens em dias intercalados. Em um monólogo interior, Else demonstra desejos e receios. Convidada por uma tia, ela está em um hotel quando recebe uma carta da mãe, que solicita socorro para as dívidas de jogo do pai, ameaçado de ir para a prisão. A um amigo, Else pede dinheiro – em troca, ele exige que ela se dispa.
“A peça discute valores, o que é certo e o que é errado”, diz Roberta. “Else tem uma honestidade que não se encaixa nos padrões burgueses. De repente, ela tem um insight e resolve tirar a roupa na frente de todos.” A atriz e diretora afirma que a montagem não é exatamente uma crítica à hipocrisia da sociedade burguesa, mas uma “constatação”: “Há um questionamento de todas as personagens. Cissy é casada e transa com um primo, mas como disfarça, está tudo bem. Quando Else fica nua na frente de todos, é chamada de louca e vagabunda”.
Embora Senhorita Else seja um drama psicológico, há humor no espetáculo. “Ela faz comentários à parte no meio das falas o tempo inteiro, o que a torna uma personagem engraçada”, garante Roberta. Demais personagens aparecem no corpo das atrizes e também em vozes pré-gravadas. “Já que é um monólogo interior, há uma percepção dela das personagens, como se elas tivessem dentro da cabeça dela.” Isso explica “as perspectivas meio alteradas do cenário”.
SENHORITA ELSE. De Arthur Schinitzler. Adaptação de Roberta Mestieri. Direção e atuação de Roberta Mestieri e Elene Tziortzis. No Teatro Itália. Avenida Ipiranga, 344, São Paulo, SP. Fone (11) 3257-9092. Quartas e quintas, às 21h. R$ 30. Até 1º/6.
Escrito por Mauro Fernando às 17h57
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HÉRCULES

Os grupos Parlapatões e Pia Fraus querem estabelecer um novo paradigma para o teatro de rua com Hércules, peça que mostram no Parque da Independência, em São Paulo, de sexta-feira a domingo (14 a 16/4), com entrada franca. Não que vejam mais defeitos que virtudes nas apresentações ao ar livre, a questão é outra. “Há coisas boas e ruins no teatro de rua no Brasil, isso acontece em qualquer profissão”, explica o parlapatão Hugo Possolo, que assina a dramaturgia – a direção é de Beto Andreetta, do Pia Fraus. Eles querem provar que “é possível fazer espetáculos de grande dimensão, que apareçam para a cidade, com dramaturgia específica e criados a partir de oficinas”.
Por “grande dimensão”, entenda-se a presença de 26 atores no palco de 300 m² e bonecos gigantes, carro e motos em cena. “É o tipo de empreitada em que o mais fácil é desistir dela. Passamos por mais de 12 trabalhos”, brinca Possolo, numa referência ao mote do espetáculo, os 12 desafios propostos ao semideus grego Héracles (ou Hércules, como ficou conhecido na Roma Antiga).
As duas companhias começaram os ensaios em agosto de 2005 – Hércules estreou em março, no Festival de Teatro de Curitiba, e já passou neste mês pelo paulistano Vale do Anhangabaú. As oficinas de interpretação, produção, dramaturgia e cenografia nortearam a concepção da montagem. Mas já pensavam no trabalho em conjunto desde 2003 e apresentaram ao Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, em 2004, o projeto Hércules – Um Novo Paradigma para o Teatro de Rua.
“Durante a oficina de dramaturgia discutimos filosofia grega desde os pré-socráticos até os pré-cristãos, e nesses grupos de estudo procuramos estabelecer paralelos com a nossa atualidade, mas não achávamos”, conta o parlapatão. Mitologia Grega, de Junito de Souza Brandão – mais precisamente um dos volumes que compõem a obra –, mostrou o caminho das pedras para os artistas, que passaram a lidar com alegorias. “O livro deu um sentido poético ao espetáculo maior do que a gente esperava. São situações presentes desde sempre na grande aventura humana. Não colocamos as alegorias criticamente, elas não são nem contra nem a favor de algo.”
Dá-se, assim, a tradução do universo mitológico do homem antigo. O episódio em que Hércules captura o javali de Erimanto tem o significado da “opressão da religião”. A captura da corça cerinita, outro trabalho hercúleo, significa “o primeiro contato com a sexualidade”. “O leão de Neméia significava para os gregos o primeiro poder a ser rompido pelo jovem para se manter na sociedade. São coisas que rendem imagens.”
Hércules aborda a força dos poderes econômico, político e religioso, além da fome e da guerra, que ganham um roupagem escorada “em um mecanismo de expressão popular forte no Brasil, o Carnaval”: “Usamos o alegre espírito carnavalesco para fazer o espetáculo”. As principais características dos Parlapatões (o humor) e do Pia Fraus (a plasticidade) mesclam-se na peça. “Os grupos se apropriaram das coisas de um e do outro, elas se misturaram no processo criativo”, afirma Possolo, que interpreta Zeus. Hércules fica a cargo de Raul Barretto.
HÉRCULES. Dramaturgia de Hugo Possolo. Direção de Beto Andreeta. Com Parlapatões e Pia Fraus. Em São Paulo, SP. De 14 a 16/4, às 20h, no Parque da Independência (Parque da Independência, s/nº). De 21 a 23/4, às 20h, no Clube da Cidade (Rua Viri, 425). De 27 a 29/4, às 19h, na Comunidade Heliópolis. Entrada franca, com troca de senha no local uma hora antes do início de cada apresentação (800 lugares).
Escrito por Mauro Fernando às 19h48
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QUANDO NIETZSCHE CHOROU

Os atores (Cássio Scapin e Nelson Baskerville) são competentes, a direção (de Ulisses Cohn) é correta, a produção é bem cuidada, o programa da peça tem 32 páginas. O que, então, faz de Quando Nietzsche Chorou, em cartaz no Teatro Imprensa, em São Paulo, uma montagem de atmosfera asséptica? A ausência do risco que faz do teatro uma arte viva e pulsante.
A falta ousadia, por sinal, começa na adaptação do best seller homônimo de Irvin D. Yalom, que vendeu mais de 200 mil exemplares somente no Brasil. A caixa cênica quadrada – nos dois sentidos, o literal e o de careta – é o signo maior do convencionalismo que afeta o espetáculo. Não se trata, evidentemente, de decretar a insolvência do palco italiano, mas de refletir sobre outras possibilidades teatrais.
A peça trata do encontro hipotético entre o médico Josef Breuer (1842-1925), co-autor ao lado de Sigmund Freud (1856-1939) de Estudos Sobre a Histeria (o livro que deu o pontapé inicial na teoria psicanalítica), e o filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900), autor de O Nascimento da Tragédia e Assim Falou Zaratustra, entre outras obras.
Enquanto Breuer (Baskerville) e Nietzsche (Scapin) surgem no palco, Lou Salomé (Ana Paula Arosio), Mathilde Breuer (Lígia Cortez) e Freud (Flávio Tolezini) aparecem em projeções de vídeo. O médico vê um filósofo abalado emocionalmente, levado a ele por intermédio de uma sedotora Salomé.
Nesse encontro fluem as contradições que sustentam a dramaturgia, incluindo a inversão de papéis entre os dois – um passa a cuidar clinicamente do outro, já que o médico revela ter se envolvido com uma paciente, Anna O. – e a crise conjugal do casal Breuer. Percebem-se aqui e ali pitadas de uma psicanálise que resvala na auto-ajuda.
O único risco que se corre em Quando Nietzche Chorou está na impossibilidade de improvisar com as imagens em vídeo – há diálogo de Breuer com Salomé em que o ator contracena com a presença virtual da atriz. O público ri nos momentos em que está previsto o riso e se aquieta quando a situação no palco exige um pouco mais de concentração. E assim segue a vida nesse ambiente no qual as parafusos se encaixam matematicamente mas inexistem os sobressaltos que a compõem e a tornam mais interessante.
QUANDO NIETZSCHE CHOROU. De Irvin D. Yalom. Adaptação de Ulisses Cohn e Nelson Baskerville. Direção de Ulisses Cohn. Com Cássio Scapin e Nelson Baskerville. Participação especial em vídeo de Ana Paula Arosio, Lígia Cortez e Flávio Tolezani. No Teatro Imprensa. Rua Jaceguai, 400, São Paulo, SP. Fone (11) 3241-4203. Quintas a sábados, às 21h, e domingos, às 19h. R$ 50 e R$ 60. Até 6/8.
Escrito por Mauro Fernando às 14h46
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CIA. SÃO JORGE DE VARIEDADES
 Biedermann e os Incendiários
Tarde de quinta-feira, 6/4. A atriz Mariana Senne, da Cia. São Jorge de Variedades, precisa interromper a entrevista para o Rotunda a fim de ensaiar uma cena da comédia Um Credor da Fazenda Nacional (textos de Qorpo-Santo e direção de Georgette Fadel), já na segunda semana da temporada no Centro Cultural São Paulo. Retocar cenas, mesmo com o espetáculo em cartaz, é uma constante do grupo. “O rigor, o ritmo das cenas necessita ser preservado. Os atores têm de estar muito conectados. Caso contrário, não alcançamos nosso objetivo, que é a comunicação com o público”, afirma Mariana.
A entrevista continuaria no dia seguinte. “Um Credor da Fazenda Nacional foi um processo de muita experimentação e muita diversão, com um registro forte de partitura física, de tempos cômicos”, conta a atriz. Improvisações nortearam o processo. Por exemplo: “Houve cinco versões para a cena do [personagem] Quadrado”. “Há uma influência forte do [Estúdio] Nova Dança, a conexão entre atores e espaço” na construção dos personagens em todas as montagens do grupo, o que acarreta “na improvisação, inevitavelmente”.
“É muito difícil fazermos trabalho de mesa”, revela. “Mais que inventar uma coisa psicológica, criamos personagens descobrindo como são pela forma como se relacionam com os outros. Há algo de [Constantin] Stanislavski e Eugênio Kusnet, mas o principal é o que surge do improviso com o outro ator”.
Em Biedermann e os Incendiários (texto de Max Frisch e direção de Georgette), cada personagem ganhou dois atores durante os ensaios. Assim, Tininha Petta e Mariana trabalharam com Babette, mulher de Cândido Biedermann. “Tininha fez coisas [nas apresentações] propostas por mim”, diz Mariana. O mesmo procedimento foi adotado pelas duas atrizes para a construção de Ana, a empregada do casal, personagem que ficou com Mariana. Resumo: a construção é coletiva. “Não é o meu gesto ou a minha idéia. A criação é compartilhada.”
O que determina a escolha de uma temática para a elaboração de um trabalho novo? “O próximo passo é sempre difícil. Cada um coloca o que quer como artista. Alguns têm uma pegada mais política, outros mais poética”, afirma a atriz. Mas não existe o perigo de os debates caírem numa espécie de assembleísmo tosco, garante Mariana, pois “há questões práticas que anseiam por consenso”. A tônica: deixar o Brasil na berlinda por meio de parábolas e metáforas. “Queremos entender que país é este, denunciar, colocar na parada as injustiças, as diferenças de classes. Ao mesmo tempo, há uma necessidade profunda de poesia, saindo de uma coisa panfletária.”
Para os 13 integrantes da companhia, o fundamental é discutir – inclusive o que é arte – e combater a alienação. “Isso pode construir algo para a sociedade que não aliene o público. Vivemos em uma era e em um país nos quais há pobreza, violência e miséria. Parece que a única escapatória é a alienação.” Volta à tona, pois, o manifesto contra o escapismo: além de divertir, o teatro deve provocar reflexão.
[Mais informações abaixo.]
Escrito por Mauro Fernando às 18h08
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CIA. SÃO JORGE DE VARIEDADES
 Certa Entidade em Busca de Outra
A Cia. São Jorge de Variedades está com seu repertório de quatro peças no Centro Cultural São Paulo. (Além deles, há o Projeto na Sola da São Jorge, com espetáculos desenvolvidos paralelamente por membros da trupe.) Pedro O Cru (texto de António Patrício e direção de Georgette Fadel) aborda a trajetória do rei português Pedro I (Luís Mármora) e sua amante Inês de Castro (Tininha Petta). Sete anos após o assassinato de Inês, o monarca desenterra seu corpo e a coroa rainha. “É o amor de um déspota louco que põe o reino a perder”, sintetiza a atriz Mariana Senne.
Biedermann e os Incendiários (texto de Max Frisch e direção de Georgette) é “centrado na culpa burguesa”, como define Mariana. “Cândido Biedermann [Alexandre Faria] acredita ser um homem bom, mas vende uma loção para calvície que é xixi.” Vários incêndios atormentam a cidade, que é tomada por um clima de desconfiança. Um desconhecido pede abrigo para o pequeno-burguês Biedermann, que, por conta de seus bons sentimentos, resolve acolhê-lo. O hóspede traz consigo galões de gasolina.
“Montamos essa peça em um momento de eleições presidenciais e nos concentramos na disputa de classes, pensando onde nós, filhos da classe média com um discurso pronto para criticá-la, entraríamos nesse universo”, afima a atriz. “Em As Bastianas [contos de Gero Camilo e direção de Mármora], fomos ao encontro dos incendiários.” Explica-se: o espetáculo estreou no Albergue Municipal do Canindé – onde aconteceram os ensaios, em meio à população que lá vive –, transferindo-se depois para o Albergue Oficina Boracea.
O grupo teve de lidar com a população dos albergues e manter com ela uma relação de cumplicidade, já que ela interferia no processo. “Foi uma aprendizagem intensa. Uma vez paramos um ensaio para ajudar o filho de um carroceiro que tinha sido atropelado. Nos colocamos ao lado deles, que é onde estamos de fato. Passamos por questionamentos pessoais profundos, como quando nos vimos com até dois casacos enquanto havia uma senhora batendo os dentes de frio”, diz Mariana. As Bastianas tem como ponto de partida contos publicados em A Macaúba da Terra. “O foco está na questão da identidade.”
II MOSTRA DE REPERTÓRIOS CONTEMPORÂNEOS – CIA. SÃO JORGE DE VARIEDADES. Quintas a sábados, às 21h, e domingos, às 20h. Até 4/6.
UM CREDOR DA FAZENDA NACIONAL. De Qorpo-Santo. Direção de Georgette Fadel. Com Alexandre Krug, Mariana Senne, Patrícia Gifford, Paula Klein e Tininha Petta. Até 16/4 (e 2/6). BIEDERMANN E OS INCENDIÁRIOS. De Max Frisch. Direção de Georgette Fadel. Com Alexandre Faria, Alexandre Krug, Carlota Joaquina, Luís Mármora, Mariana Senne, Patrícia Gifford, Paula Klein, Rogério Tarifa e Tininha Petta. De 21/4 a 7/5 (e 3/6). AS BASTIANAS. De Gero Camilo. Roteiro e adaptação de Alexandre Krug, Luís Mármora e Marcelo Reis. Direção de Luís Mármora. Com Carlota Joaquina, Georgette Fadel, Mariana Senne, Patrícia Gifford, Paula Klein, Tininha Petta, Alexandre Faria, Alexandre Krug, Marcelo Reis, Rogério Tarifa e Walter Machado. De 13 a 28/5 (e 4/6). PEDRO O CRU. De António Patrício. Direção de Georgette Fadel. Com Alexandre Faria, Alexandre Krug, Luís Mármora, Marcelo Reis, Mariana Senne, Patrícia Gifford, Rogério Tarifa, Tininha Petta, Walter Machado e Fernanda Machado. Dia 1º/6.
PROJETO NA SOLA DE SÃO JORGE. Terças e quartas, às 21h. Até 31/5.
ENTREVISTA COM STELA DO PATROCÍNIO. Textos de Stela do Patrocínio. Adaptação e criação musical de Lincoln Antônio. Direção de Georgette Fadel e Lincoln Antônio. Com Georgette Fadel, Juliana Amaral e Lincoln Antônio. Até 19/4. CERTA ENTIDADE EM BUSCA DE OUTRA. De Qorpo-Santo. Adaptação da Cia. Bonecos Urbanos. Direção de Carlota Joaquina. Com Eduardo Alves, Mafá Nogueira e Rubinho Louzada. De 25/4 a 10/5. FRANCISCO PÉS APÓS PÉS. Texto, direção e atuação de Rogério Tarifa. De 16 a 31/5.
No Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000, São Paulo, SP. Fone (11) 3277-3651. R$ 12.
Escrito por Mauro Fernando às 18h03
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UM CREDOR DA FAZENDA NACIONAL
 Um Credor da Fazenda Nacional
De janeiro a junho de 1866, em uma atividade febril, José Joaquim de Campos Leão (1829-1883) escreveu 17 peças curtas – uma delas inacabada. Assinou-as como Qorpo-Santo. Singulares, estavam além de seu tempo – incompreendidas, taxadas de alucinações, não foram encenadas na província gaúcha em que viveu o autor. Entre elas estão Mateus e Mateusa, As Relações Naturais, Eu sou vida; Eu não Sou Morte e Um Credor da Fazenda Nacional. Aníbal Damasceno e Guilhermino Cesar, já na segunda metade do século XX, apresentaram Qorpo-Santo ao Brasil – Cesar definiu-o como criador do Teatro do Absurdo.
Estudo de Flávio Aguiar, sem negar os aspectos vanguardistas dos textos de Qorpo-Santo, esclarece que eles – por conterem princípios cômicos, grotescos, do teatro de costumes, do teatro de tese, trágicos – não cabem num rótulo simplista. Eudinyr Fraga, em Qorpo-Santo: Surrealismo ou Absurdo?, demonstra as afinidades do autor com o Surrealismo: “O teatro de Qorpo-Santo parte de um esquema habitual ao teatro de costumes da sua época mas, por força do automatismo psíquico, de uma escrita automática que utiliza (ou que o utiliza ...) sem cessar, ultrapassa-o e dele se distancia completamente, [...] repleto de elementos que, mais tarde, se constituirão como componentes de um teatro dito 'surrealista'”. André Breton publicou o Manifesto Surrealista em 1924 – mais de 40 anos após a morte de Qorpo-Santo.
A Cia. São Jorge de Variedades está em cartaz no Centro Cultural São Paulo com Um Credor da Fazenda Nacional, texto de maio de 1866. Retrato sem pudores (e atual) da delinqüência do Estado, a sarcástica comédia narra a infeliz viagem de um cidadão pelos tortuosos corredores da burocracia em busca de um dinheiro que a cada cena se revela mais difícil de ser recebido. Os espectadores perambulam com o Credor (Patrícia Gifford) pelos diversos espaços cênicos montados no porão do Centro Cultural, o que acentua a percepção da violência estatal.
Dirigida por Georgette Fadel, a companhia enxertou no espetáculo trechos de O Marido Extremoso ou O Pai Cuidadoso e Dois Irmãos, construindo uma síntese da dramaturgia de Qorpo-Santo, na qual afloram a crítica a uma organização sócio-econômica injusta e personagens a um passo da bancarrota existencial – frustrações sexuais incluídas neste item. O bom trabalho de interpretação – é estimulante ver o elenco brincar o jogo teatral – e a concepção cênica que envolve diretamente o público, aliados à música executada ao vivo pelos atores, compõem uma paisagem instigante, que faz transbordar o poder corrosivo de uma comédia realizada com inteligência.
[Mais informações abaixo.]
Escrito por Mauro Fernando às 21h47
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UM CREDOR DA FAZENDA NACIONAL
 Entrevista com Stela do Patrocínio
A Cia. São Jorge de Variedades está apresentando seu repertório no Centro Cultural São Paulo até 4/6. Um Credor da Fazenda Nacional (de Qorpo-Santo), Biedermann e os Incendiários (de Max Frisch) e As Bastianas (de Gero Camilo) ficam em cartaz, sucessivamente, de quintas a domingos. Complementando a programação, há o Projeto na Sola da São Jorge, composto por espetáculos desenvolvidos paralelamente por integrantes do grupo. A trupe surgiu em 1998, com Pedro O Cru (texto de António Patrício dirigido por Georgette Fadel).
Um dos focos da companhia é a relação com o público, o que leva à questão do espaço cênico. Nenhuma das quatro montagens foi concebida para o convencional palco italiano. A intenção é colocar o espectador dentro da cena, reduzindo a distância – e não somente a física – que o separa do ator. Para a atriz Mariana Senne, é preciso incitar o interesse da platéia pela reflexão e desmistificar sua relação com o artista: “O ator não é aquela figura mística, que cria uma personagem dentro de sua solidão e é colocado dentro de um pedestal na sala [de apresentação]”.
“O que é o público teatral? Resume-se a entrar e assistir quieto?”, pergunta. A resposta vem com uma dose ideológica. “Ele não é um voyer. Estamos numa época em que não existe mais a quarta parede. Inevitavelmente, o palco italiano bota o ator como um iluminado, alguém mais importante, mais especial que o público. Isso é fruto de um raciocínio que a sociedade tem demais, o da celebridade em contraposição ao fracassado. Não queremos corroborar com o pensamento dominante. O teatro tem de propor outra possibilidade. Tentamos fazer uma arte não decorativa, mas que seja inteligente e traga reflexão e emoção, que traga a consciência do espaço que ocupamos no mundo.”
Por sinal, transformar o mundo é um dos motivos que levam a trupe a fazer teatro. “É o que fala a [atriz] Tininha [Petta]”, afirma Mariana. Para esta, integrar a Cia. São Jorge de Variedades – um coletivo de 13 pessoas, “uma microcélula da sociedade” – representa “um exercício de vivência social, a possibilidade efetiva de ouvir, entender e aceitar o outro”: “Por mais diferenças que existam, conseguimos dialogar”. Mariana ainda vai além: “Neste mundo louco, em que cada vez mais as relações são virtuais, o teatro é um encontro real que detona um processo forte de sensibilização, questionamento e reflexão.”
II MOSTRA DE REPERTÓRIOS CONTEMPORÂNEOS – CIA. SÃO JORGE DE VARIEDADES. Quintas a sábados, às 21h, e domingos, às 20h. Até 4/6.
UM CREDOR DA FAZENDA NACIONAL. De Qorpo-Santo. Direção de Georgette Fadel. Com Alexandre Krug, Mariana Senne, Patrícia Gifford, Paula Klein e Tininha Petta. Até 16/4 (e 2/6). BIEDERMANN E OS INCENDIÁRIOS. De Max Frisch. Direção de Georgette Fadel. Com Alexandre Faria, Alexandre Krug, Carlota Joaquina, Luís Mármora, Mariana Senne, Patrícia Gifford, Paula Klein, Rogério Tarifa e Tininha Petta. De 21/4 a 7/5 (e 3/6). AS BASTIANAS. De Gero Camilo. Roteiro e adaptação de Alexandre Krug, Luís Mármora e Marcelo Reis. Direção de Luís Mármora. Com Carlota Joaquina, Georgette Fadel, Mariana Senne, Patrícia Gifford, Paula Klein, Tininha Petta, Alexandre Faria, Alexandre Krug, Marcelo Reis, Rogério Tarifa e Walter Machado. De 13 a 28/5 (e 4/6). PEDRO O CRU. De António Patrício. Direção de Georgette Fadel. Com Alexandre Faria, Alexandre Krug, Luís Mármora, Marcelo Reis, Mariana Senne, Patrícia Gifford, Rogério Tarifa, Tininha Petta, Walter Machado e Fernanda Machado. Dia 1º/6.
PROJETO NA SOLA DE SÃO JORGE. Terças e quartas, às 21h. Até 31/5.
ENTREVISTA COM STELA DO PATROCÍNIO. Textos de Stela do Patrocínio. Adaptação e criação musical de Lincoln Antônio. Direção de Georgette Fadel e Lincoln Antônio. Com Georgette Fadel, Juliana Amaral e Lincoln Antônio. Até 19/4. CERTA ENTIDADE EM BUSCA DE OUTRA. De Qorpo-Santo. Adaptação da Cia. Bonecos Urbanos. Direção de Carlota Joaquina. Com Eduardo Alves, Mafá Nogueira e Rubinho Louzada. De 25/4 a 10/5. FRANCISCO PÉS APÓS PÉS. Texto, direção e atuação de Rogério Tarifa. De 16 a 31/5.
No Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000, São Paulo, SP. Fone (11) 3277-3651. R$ 12.
Escrito por Mauro Fernando às 21h40
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