ROTUNDA


O RETRATO DE DORIAN GRAY





Publicado em 1891, O Retrato de Dorian Gray é o romance que projetou o irlandês Oscar Wilde (1854-1900) entre os maiores nomes da literatura de língua inglesa. Trata de uma questão que não perdeu a atualidade nestes tempos de botox e silicone, a busca da beleza e da juventude permanentes. Além da beleza da própria arte, aborda também a hipocrisia da sociedade conservadora na qual Wilde viveu e provocou muita polêmica.

Dirigida por Débora Dubois, estréia neste sábado (22/4) no Teatro Popular do Sesi, em São Paulo, a adaptação para teatro assinada por Marcos Damigo, que interpreta Dorian Gray. Os atores Sergio Rufino, Francisco Bretas e Lavinia Lorenzon acompanham Damigo no palco. Quando toma consciência da própria beleza, afirmada pelos amigos Henry (Rufino) e Basil (Bretas), Dorian formula um insólito pacto e seu rosto permanece jovial enquanto sua imagem pintada por Basil sobre uma tela envelhece. Em meio a essa situação, há sua paixão por Sybil (Lavinia) e sua longa jornada pontuada por excessos, frieza e rudez.

O espetáculo reflete sobre questões éticas – a aparência física associada a valores materiais. “Henry, que é mais velho e cheio de idéias, preenche a cabeça de Dorian, não necessariamente com coisas positivas, como se a cabeça de um jovem fosse vazia, e Dorian passa a pensar como ele. Dorian fala que foi apresentado ao mundo narcisista e egoísta por Basil e Henry, que se acusam mutuamente de terem parido um monstro”, diz Débora. Há uma postura crítica na peça? “Gostaria de criar um questionamento porque foi isto que Wilde quis fazer: incomodar a sociedade. Mas não tenho a pretensão de ditar regras.”

A diretora conta que começou a pensar em levar o livro para o teatro quando leu em jornal que dois rapazes “tomaram anabolizante de gado e faleceram”. “Essa notícia está relacionada à questão da beleza. Essa preocupação toma conta de jovens cada vez mais cedo. Já há meninas de 16 anos fazendo plástica no rosto. Cuidar da beleza em excesso pode ser prejudicial. E tracei um paralelo com O Retrato de Dorian Gray, que li quando adolescente.”

A montagem tem uma ambientação um tanto soturna “porque o texto sugere um clima de suspense”, afirma Débora, e foi concebida para jovens. Projeções de imagens criadas por Thiago Taboada e a interferência de sons eletrônicos executados ao vivo pelo DJ Nivaldo Godoy Jr. são recursos utilizados para atrair público a partir de 14 anos. A presença em cena dos músicos Ana Eliza Colomar e Gabriel Levy, que tocam instrumentos eruditos, tem a função de conferir atemporalidade ao espetáculo, já que este “não está focado em época nenhuma” e “O Retrato de Dorian Gray é um clássico para qualquer idade”.



O RETRATO DE DORIAN GRAY. De Oscar Wilde. Adaptação de Marcos Damigo. Direção de Débora Dubois. Com Marcos Damigo, Sergio Rufino, Francisco Bretas, Lavinia Lorenzon. No Teatro Popular do Sesi. Avenida Paulista, 1.313, São Paulo, SP. Fone (11) 3146-7406. Sábados e domingos, às 16h. Entrada franca. (A bilheteria abre três horas antes do início de cada sessão e distribui um ingresso por pessoa.) Até 13/8.


Escrito por Mauro Fernando às 14h50
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OS MENINOS E AS PEDRAS





Quando estoura uma guerra – e mesmo durante os preparativos que a antecedem –, aponta o jornalista estadunidense Gay Talese, a primeira vítima, por conta da manipulação da informação, é a verdade. Em um conflito de raiz étnico-religiosa – com evidentes contornos econômicos –, como o que envolve judeus e palestinos, o mais fácil é eleger o lado preferido e bombardear o outro, seja com impropérios ou com bordunas, o verbo que convence ou a força que vence.

A arte não deve ceder a essa tentação, sob pena de transformar-se em panfleto primário, rudimentar, tosco. Produção do Núcleo EntreLinhas de Teatro em cartaz no Viga Espaço Cênico, em São Paulo, Os Meninos e as Pedras possui o grande mérito de refutar maniqueísmos de toda sorte e não indicar soluções piegas, pueris, rastaqüeras. O texto de Antônio Rogério Toscano não se restringe a uma retórica pacifista, espraiando-se por conter em seu cerne a substância poética.

Bem e Mal são conceitos simplistas e amoldáveis conforme os interesses em jogo, são instrumentos de satanização de líderes inimigos e de camuflagem das razões geopolíticas intrínsecas às motivações do capital apátrida que levam a confrontos armados. Eu represento o Bem e você, o Mal; logo, você tem de ser derrotado. A equação é a mesma para os dois lados. As duas crianças da peça, a menina árabe Fátima e garoto judeu Yonathan, são criados dentro desses parâmetros, e é dessa matéria que germinam os conflitos entre eles. O dramaturgo não esconde isso. Nem toma partido: apresenta a situação.

Percebe-se que falta experiência aos quatro atores (Cecília Schucman, Judson Cabral, Ligia Yamaguti e Luiz Gustavo Jahjah), tanto no manejo da bufonaria nos dois entreatos quanto na condução dos personagens, embora isso não fira de morte o espetáculo. É importante verificar a entrega dos intérpretes à cena e vislumbrar no horizonte o potencial humano que a bruma passageira encobre. Entende-se que não se forja a excelência de um ator da noite para o dia.

Interessante notar também que os quatro têm ascendências diferentes – judaica, nordestina, oriental e árabe. Mesmo que isso não tenha sido planejado pelo autor, amplifica as fronteiras de um confronto que, apesar de mobilizar corações e mentes em toda a Terra, é circunscrito. Como os atores se revezam nos papéis durante a encenação, forma-se um quadrilátero – uma judia e um árabe, uma oriental e um nordestino, uma judia e um nordestino, uma oriental e um árabe – que remete a situações que atravessam o tempo e o espaço e carregam estigmas e peculiaridades similares à do Oriente Médio.

Sintonizada com o texto, a direção de Juliana Monteiro trata de despejar poesia no tablado – as brincadeiras com bufões entre as três cenas dão um respiro ao espectador em meio à inegável aridez do tema – e de afastar uma eventual atmosfera soturna, que poderia existir em mãos pesadas. O espetáculo caminha para a constatação de que, se a dupla interrogação que isola Fátima de Yonathan – a quem pertence a terra?, quem chegou primeiro nela? – tem resposta, esta passa pelas pedras. Não as lançadas contra o outro, mas as que têm outra utilidade na imaginação das pessoas.


OS MENINOS E AS PEDRAS. De Antônio Rogério Toscano. Direção de Juliana Monteiro. Com Cecília Schucman, Judson Cabral, Ligia Yamaguti e Luiz Gustavo Jahjah. No Viga Espaço Cênico. Rua Capote Valente, 1.323, São Paulo, SP. Fone (11) 3801-1843. Sábados e domingos, às 17h. R$ 20. Até 8/5.


Escrito por Mauro Fernando às 16h52
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PRÊMIO SHELL DE TEATRO DE SÃO PAULO


Grace Passô



“Achamos que todos merecem”, afirma a atriz Beth Goulart, apresentadora da cerimônia de entrega do 18º Prêmio Shell de Teatro de São Paulo, realizada nesta terça-feira (18/4) no Buffet Giardini. Mas somente um dos indicados em cada uma das nove categorias sairia da festa com a escultura de Domenico Calabroni nas mãos e o cheque de R$ 8 mil no bolso.

Ao contrário do Prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), que proclama diretamente os vencedores, o Prêmio Shell funciona nos moldes do Oscar – o júri anuncia os indicados e é mantido o suspense até a cerimônia de entrega. E com direito ao inconfundível “O vencedor é...”.

E o vencedor na categoria autor é... uma vencedora: Grace Passô (por Por Elise, do Grupo Espanca!). “Uma das personagens da peça é um lixeiro que idealiza o mar enquanto corre atrás do caminhão de lixo”, diz Grace, também ganhadora do APCA, convidando todos a seguir essa imagem.

“Cenógrafos são os arquitetos do faz-de-conta”, sentencia Beth. E o vencedor é... Osvaldo Gabrieli (por Os Sertões – A Luta: Primeira Parte, do Teatro Oficina Uzyna Uzona). “Trabalhar com o Zé Celso [Martinez Corrêa, que ganhou o APCA pela direção] e com o Oficina é uma aventura”, define Gabrieli. Ele joga no time dos artistas que sabem o que fazem e dizem.

Beth pronuncia os indicados da categoria iluminação. Alessandra Domingues (por Assombrações do Recife Velho, da Cia. Os Fofos Encenam) é a preferida da platéia. Mas o vencedor é... Beto Bruel (por Avenida Dropsie, da Sutil Cia.).

Beth pronuncia os indicados da categoria figurino. Claudia Schapira (por O que Eu Entendi do que o Tom Zé Disse, do Núcleo Experimental do Teatro Popular do Sesi) é a preferida da platéia. Desta vez, a audiência leva. Catarse.

O ator e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri – que soube “desenhar magistralmente o homem brasileiro”, nas palavras de Beth – é o homenageado desta edição do Prêmio Shell. Flávio Guarnieri, filho do autor de Eles não Usam Black-Tie, recebeu a láurea.

O vencedor da categoria música é... Dagoberto Feliz (por El Dia que me Quieras, do Grupo Folias). “Está feliz?”, berra um gaiato no meio do público confortavelmente instalado em mesas. Feliz, que ouve esse tipo de piadinhas desde criança, elogia a lei que criou o Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo. “A lei permitiu que grupos de trabalho continuado possam ser mais vistos. Os grupos existiriam sem ela, mas sem tanta repercussão.”

Para ele, prêmios como o APCA e o Shell “influenciam principalmente na divulgação” dos espetáculos. Por exemplo: “Otelo [que rendeu ao Folias um APCA e dois Shell] teve uma temporada mais legal”. E “é claro que é gostoso ver o seu trabalho reconhecido”. E as festas de premiação têm “um lado social legal, encontro pessoas que não vejo há anos”.

Elisete Jeremias (pela direção de cena de Os Sertões – A Luta: Primeira Parte) é a vencedora da categoria especial. Entre gritos de felicidade, ela agradece à “camareira maravilhosa”, a “todos os atores com quem trabalhei e com quem tenho vontade de trabalhar”, ao ator “Marcelo Drummond, que montou um oceano cheio de peixes e me ensinou a pescar”.

[Mais informações abaixo.]


Escrito por Mauro Fernando às 14h11
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PRÊMIO SHELL DE TEATRO DE SÃO PAULO


Norival Rizzo



O vencedor do Prêmio Shell de Teatro de São Paulo na categoria ator é... Norival Rizzo (por Oração para um Pé-de-Chinelo). Ovacionado, à beira das lágrimas, Rizzo discursa: “Ser ator é muito difícil neste País. Preciso fazer coisas de que não gosto para viver. Mas amo fazer teatro. Somos uma minoria muito fodida, que precisa matar um leão não por dia, mas por hora”.

Atores e atrizes, conforme Beth, têm “o desafio de procurar todos os sentimentos humanos, do sublime ao odioso”. E a atriz vencedora é... Denise Weinberg (por Oração para um Pé-de-Chinelo). As comissões julgadoras do APCA e do Shell também concordam nessa categoria.

Por fim, o vencedor da categoria diretor é... Rodolfo García Vázquez (por A Vida na Praça Roosevelt, da Cia. Os Satyros). “Quando começamos a ensaiar, recebemos uma ameaça por telefone, que incluía um banho de sangue, dizendo que o teatro atrapalhava o tráfico [de drogas] na [Praça] Roosevelt [onde o grupo tem sua sede]. Os atores ficaram com medo, mas toparam continuar o projeto, que fala sobre um menino morto por traficantes”, conta. “O teatro tem um poder maior que o do tráfico, tem o poder de transformar a sociedade.”

Kil Abreu, Maria Lúcia Candeias, Marici Salomão, Silvana Garcia e Valmir Santos compuseram o júri. Finda a entrega dos prêmios, bem, é hora do filé mignon ao molho de champignon e da massa recheada com mussarela de búfala. O frisante italiano já era servido – sem restrições – desde o início da festa. Ninguém saiu decepcionado.


Escrito por Mauro Fernando às 14h00
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O FEMININO NA DANÇA


Sem Voz, sem Sono, sem Luz



Dos 50 projetos inscritos para a 15ª edição de O Feminino na Dança, evento do Centro Cultural São Paulo, cinco foram selecionados. São eles: Sem Voz, sem Sono, sem Luz (com Vanessa Macedo e Adriana Guidotte), O Mensageiro (com Estelamare dos Santos), Células Satélites (com Mara Guerrero), In Subordinado (com Gabriela Christófaro) e Abrir a Porta da Casa (com Carolina Callegaro e Clara Gouvêa). O festival começa nesta quarta-feira (19/4). Também estão programados workshops de dança contemporânea com as bailarinas.

Dentre os critérios utilizados para a seleção estão a pluralidade e a competência, conta o programador de dança do Centro Cultural, Marcos Bragato. “Pluralidade para não termos Shakespeare sempre e competência porque as produções se confrontam entre si. O Centro Cultural é uma instituição difusora, que não produz, e depende da produção disponível no momento”, explica.

Os espetáculos não têm pontos em comum. “Há uma tensão entre os projetos, são idéias que se confrontam. Em São Paulo existe um traço diferente em relação a outras cidades grandes. A geografia não permite a formação de patotas. Então há muitos solistas, criadores-intérpretes”, diz Bragato. O Feminino na Dança ganha, assim, a característica de uma mostra diversificada da produção contemporânea.

Três das montagens cumprem temporada de três semanas e duas, de duas semanas. Bragato afirma que “o Centro Cultural está questionando o mito de que a dança não pode ficar em cartaz como o teatro e é uma casa de espetáculos com programação contínua, que permite haver um fluxo da produção”. Além de O Feminino na Dança, o Centro Cultural promove os eventos O Masculino na Dança, Semanas de Dança e Solos, Duos e Trios. Neste ano há a possibilidade de mais duas mostras: de balé clássico e de break, um dos elementos que formam a cultura hip hop.

[Mais informações abaixo.]


Escrito por Mauro Fernando às 19h04
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O FEMININO NA DANÇA


O Mensageiro



O coordenador de dança do Centro Cultural São Paulo, Marcos Bragato, revela que a instituição recebeu no ano passado dez projetos para O Masculino na Dança – cinco vezes menos que a 15ª edição de O Feminino na Dança. Isso não o surpreende. Membro da Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA), Bragato diz que “as mulheres são maioria nessa profissão”. “A dança contemporânea veio para democratizar e diluiu a idéia de sexualidade. Enquanto no balé clássico o homem é suporte para a mulher, cujos papéis pedem graça e leveza, na dança contemporânea a mulher pode carregar o homem.”

Sem Voz, sem Sono, sem Luz evoca a pintora mexicana Frida Kahlo (1907-1953) e registra uma dualidade intensa num mesmo ser. O Mensageiro aponta para o homem que está a serviço da máquina. Células Satélites é uma pesquisa sobre acontecimentos imprevistos, desajustes e funções imprecisas. In Subordinado enfoca a violência urbana e estratégias de sobrevivência em ambientes desconfortáveis. Em Abrir a Porta da Casa, os personagens entram no mundo dos pensamentos, dos sonhos e das memórias, configuram imagens e dialogam com seus corpos.


O FEMININO NA DANÇA

Espetáculos (Quartas a sábados, às 21h, e domingos, às 20h. R$ 5.)
19/4 a 21/5:
SEM VOZ, SEM SONO, SEM VEZ. Coreografia e direção de Vanessa Macedo. Com Vanessa Macedo e Adriana Guidotte.
O MENSAGEIRO. Criação e interpretação de Estelamare dos Santos.
CÉLULAS SATÉLITES. Concepção, criação e interpretação de Mara Guerrero.
10 a 21/5:
IN SUBORDINADO. Criação e interpretação de Gabriela Christófaro.
ABRIR A PORTA DA CASA. Concepção, direção e interpretação de Carolina Callegaro e Clara Gouvêa.

Workshops de dança contemporânea (Terças a sextas, das 15h às 18h. Inscrição gratuita. 30 vagas.)
18 a 21/4: Estelamare dos Santos
25 a 28/4: Vanessa Macedo
2 a 5/5: Mara Guerrero
9 a 12/5: Clara Gouvêa
16 a 19/5: Gabriela Christófaro

No Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000, São Paulo, SP. Fone (11) 3277-3611.


Escrito por Mauro Fernando às 18h59
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SÉRGIO PIRES





Para o dramaturgo Sérgio Pires, “o teatro é uma profissão na qual o cansaço não é permitido”. “É preciso atualizar-se e aperfeiçoar-se sempre, é impossível achar que chegou em algum lugar”, diz. Ele está com dois projetos engatilhados para o segundo semestre: um monólogo inspirado no romance Nossa Senhora das Flores, de Jean Genet, e o infantil O que Você Vai Ser Antes de Crescer?.

Produção da Cia. Teatro no Pires, a adaptação está em curso – Pedro Vieira, de quem partiu o projeto, atuará dirigido por Emerson Rossini –, mas o título ainda não está definido. Já o infantil é um texto escrito no ano passado sob encomenda da Cia. Ilustrada, que convidou Edu Silva para a direção. Além disso, Pires assina a assistência de direção e a preparação corporal de Os Degredados, peça de Alex Moletta dirigida por Simone Alessandra que trata dos portugueses trazidos à força para o Brasil antes da colonização e cuja estréia no Centro Cultural São Paulo está prometida para junho.

Vinícius é o protagonista de O que Você Vai Ser Antes de Crescer?. “Todos os adultos em volta dessa criança têm uma ansiedade em saber o que ele será quando crescer. Mas ele é categórico ao afirma que não sabe, o que causa conflitos. Todos acham que ele é uma criança fora dos padrões normais”, afirma o dramaturgo Sérgio Pires. A peça passa da narração para a representação. “Na primeira cena, ele surge já velho e começa a contar sua história. A idéia é valorizar a questão de fazer o que se gosta, brincar, divertir-se, amar. Vinícius fez tudo o que quis fazer, foi fotógrafo, ator.”

[Mais informações abaixo.]


Escrito por Mauro Fernando às 16h52
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SÉRGIO PIRES

O dramaturgo Sérgio Pires conta que decidiu trabalhar com teatro há 12 anos. O que o levou foi a “vontade de contar histórias”. Tem mais de 20 peças, das quais meia dúzia permanecem inéditas. Escreve tanto em gabinete quanto em processo colaborativo, com atores e diretores. Dessas duas vertentes, não há uma que lhe dê mais prazer, garante. “O mais pazeroso no processo colaborativo é escrever a partir de uma estética, pesquisar como um corpo pode virar elemento dramatúrgico.” Já do gabinete saem inquietações mais pessoais.

Para ele, o principal ponto negativo do texto preparado na solidão do gabinete é “não poder experimentar a palavra na cena”: “Tenho o hábito de representar para verificar se o escrito possui sonoridade”. Quanto à palavra elaborada em colaboração, corre-se o risco de “cair na subjetividade do processo”.

Acredita que a profissão das artes cênicas “leva ao aperfeiçoamento pessoal pelo viés da reflexão, da comunicação”. “Possuo uma necessidade grande de dizer aquilo que penso, de me colocar de forma mais coletiva. Questionar-se e abordar questões levantadas pelo público é o caminho ideal para aprimorar a expressão dos pensamentos”, diz.

Estudou dramaturgia na Escola Livre de Teatro (ELT), de Santo André, no início dos anos 1990. No princípio desta década, freqüentou a Escola Livre de Cinema e Vídeo (ELCV), de Santo André, e roteirizou quatro curtas.

Em 2001 e 2002, integrou o núcleo de dramaturgos brasileiros que fez intercâmbio com o Royal Court Theatre, de Londres. Sobre essa experiência, diz que aprendeu “a entender e a respeitar o universo do teatro voltado mais para a estética”: “Comecei a repensar a questão do universo marginal que eu pesquisava”. Enlatado é o texto escrito nessa fase. Em 2003 e 2004, integrou o Ciclo de Leituras Dramáticas Devassos na Dramaturgia, realizado no Tusp, com O Jogo na Partida do Jogo e Resto de Cerveja em Copo Transparente.

Pires, que estuda Filosofia no Centro Universitário Assunção (Unifai), em São Paulo, mora em Mauá, um dos sete municípios que configuram o Grande ABC. Mas se considera “de lugar nenhum”. Trabalha em projetos teatrais em Diadema e Suzano e tem vínculo com atores e diretores de São Paulo. “Procuro estar nesses lugares, e não ser desses lugares. É uma limitação ser de um local ou de outro.”

[Mais informações abaixo.]


Escrito por Mauro Fernando às 16h48
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SÉRGIO PIRES

Escrita por meio de processo colaborativo com o ator Pedro Vieira e com o diretor Emerson Rossini, a adaptação do romance Nossa Senhora das Flores, de Jean Genet, deve estrear em outubro, prevê o dramaturgo Sérgio Pires. O texto final ainda não está pronto. Assim como em Esta Noite Ouvirei Chopin, outra produção da Cia. Teatro no Pires, o dramaturgo aborda o universo marginal.

Nossa Senhora das Flores mostra um Genet envolvido, e angustiado, com o mundo da criminalidade, michês, prostitutas e travestis. O [personagem] travesti Divina talvez seja uma projeção de Genet, e a peça discute até que ponto os depoimentos dados ao autor são verdadeiros”, afirma Pires. “Na adaptação, Genet aparece como ator, não como autor. O grande desafio é transformar uma obra literária em um monólogo.”

Abaixo, um trecho da peça.


Um par de sandálias em um dos lados do palco. Do outro, atrás de um lençol pendurado em um 'varal', Divina encontra-se nua, fuma um cigarro. No decorrer da cena, sempre escondendo sua nudez, Divina levanta-se, arrasta o lençol pelo varal suspenso e caminha em direção as sandálias.

Vocês devem me julgar pela minha força e não pela minha fraqueza... Vocês todos devem me julgar, somente, pelo meu gozo e não pela minha moral... Vocês todos devem me... (Engole) Eu era feliz! Eu era muito feliz! Era feliz brincando longe dos homens que, naquele tempo, me eram desconhecidos. (Fazendo o gesto com as mãos) Eles chutavam a bola e criavam um... um quase círculo no ar... Estes meninos-homens tornaram-se caçadores, vaqueiros, ladrões... tornaram-se Mignon, Alberto, Gabriel... Eu e Mignon dormimos à noite. De dia fazemos, nus, um jantarzinho de família. Nos batemos, esquecemos de nos amar, ouvimos o rádio e fumamos! Dizem que tenho uma personalidade difícil... que a loucura e a insanidade me acompanham... Hipócritas! Hipócritas!”


Escrito por Mauro Fernando às 16h37
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