ROTUNDA


CARTA AO PAI





A dança-teatro de Sandro Borelli é campo fértil para o universo kafkiano. Carta ao Pai, espetáculo baseado na obra de mesmo nome de Franz Kafka (1883-1924), leva o elenco de sete bailarinos da Borelli Cia. de Dança a partir desta sexta-feira (14/7) à Galeria Olido, em São Paulo, para temporada de duas semanas com entrada franca. É a quarta montagem do coreógrafo sobre a atmosfera criada pelo artista tcheco que escrevia em alemão.

Trata-se de um Kafka puro, “sem embalagem”: “Carta ao Pai é um trabalho em que Kafka não se esconde nas metáforas, ele vai direto ao objetivo”. Daí vem o encanto especial de Borelli sobre a obra. “É motivante tentar criar um espetáculo inspirado nessa carta, que não foi escrita para ser literatura. De todos os livros de Kafka, talvez seja esse o que mais me toca. Fiquei mais apaixonado pela figura humana do Kafka, uma pessoa sofrida, fraca, medrosa. Ele é o que nós somos”, diz.

Por ser Carta ao Pai um acerto de contas, “Kafka se expõe totalmente”. “A gente percebe que o pai é a grande fonte inspiradora da obra kafkiana. Para ele, o pai é o grande déspota. Durante a pesquisa, fui ficando com pena do pai”, afirma. Borelli ainda enxerga no livro uma inversão de expectativas: “Dessa vez, Kafka é o tirano. Acusa e não dá direito de resposta. O pai não soube da existência da carta. O pai é acusado sem saber do crime que cometeu. E Kafka é o sistema que condena. Ele inverte O Processo [em que o protagonista, Joseph K., é preso, julgado e condenado por motivos que nunca descobriu]”.

Borelli se reconhece em Kafka? “Sim, totalmente. Sou pai, também. E filho. Se Kafka me permite, o espetáculo não deixa de ser autobiográfico. Quem lê a carta, e é pai, se reconhece.” E emenda, com ironia: “O livro é um bom presente para o Dia dos Pais. E para as mães também, já que ele coloca a mãe, em alguns momentos, como submissa, como o Pilatos que lava as mãos”.

Apesar de ser denso, “uma cabeçada no peito da platéia e ter uma tristeza no ar, o espetáculo é lúdico, tem um lado infantil”. O coreógrafo explica: “É a criança dentro do adulto e vice-versa”. Há em Carta ao Pai também uma atmosfera de despedida. “Em todo acerto de contas existe uma tentativa de rompimento. E talvez essa seja a minha despedida em relação a Kafka.”

Espelhos compõem a cenografia, elaborada por Guilherme Isnard. “São um signo importante”, define Borelli. “São o seu próprio reflexo. Você vê de maneira distorcida várias facetas de si próprio. E às vezes confundem, você percebe o pai e filho no mesmo intérprete.” Outros elementos de cena que identificam para depois confundir são um paletó e um chapéu, “que criam uma dualidade”: “Eles, que remetem ao pai, transitam entre os bailarinos”.


CARTA AO PAI. Concepção, criação coreográfica e direção de Sandro Borelli. Com a Borelli Cia. De Dança. Na Galeria Olido. Avenida São João, 473, São Paulo, SP. Fone (11) 3331-8399. Sextas e sábados, às 20h, e domingos, às 19h. Entrada franca. (Retirar convites com uma hora de antecedência.) Até 23/7.


Escrito por Mauro Fernando às 17h12
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O MARIDO IDEAL





São características do vaudeville os qüiprocós, os equívocos, as situações cômicas, os acontecimentos imprevisíveis dos quais personagens tentam escapar enquanto outras ciladas, não necessariamente premeditadas, são armadas. Para o ator Edwin Luisi, Um Marido Ideal, de Oscar Wilde (1854-1900), “é uma comédia de enganos, com uma estrutura de vaudeville como os do [mestre desse gênero, Geroge] Feydeau. Mas Um Marido Ideal vai além disso, uma coisa séria permeia a peça”. Dirigida por Victor Garcia Peralta, a montagem estréia nesta sexta (14/7) no Teatro Procópio Ferreira, em São Paulo.

“É um espetáculo leve em cima de um assunto sério, não pesado. Sir Robert Chiltern [Herson Capri], o tal do marido ideal, é quase Fausto [de J. W. Goethe], que comete um erro grave no passado. Mas não é Mefistófeles quem vem cobrar a dívida, e sim uma mulher bonita”, afirma o diretor. A tal da mulher bonita é Laura Cheveley (Vanessa Gerbelli). Casado com a austera Lady Gertrude (Silvia Pfifer, debutante no palco), Chiltern vê sua união em risco quando Laura surge. Lord Arthur Goring (Luisi) ajuda a tentar salvar o casamento. “Há uma leveza, a peça não cai numa grande reflexão”, diz Silvia.

As ações acontecem em 1895, sob a moral vitoriana que satanizou o comportamento do autor. “A hipocrisia continua. O espetáculo fala sobre ética”, conta Peralta. “Atualmente vemos valores investidos, os importantes em segundo plano. A peça traz essa questão”, complementa Silvia. “Fala sobre cinismo, sobretudo o da classe política. Há uma identificação com os dias de hoje. A corrupção existiu a vida inteira. Mas de Wilde para cá isso tudo vem piorando, chegamos ao paroxismo do mensalão. A sensação é de que o ser humano é o mesmo sempre”, emenda Luisi.

Miguel Falabella consta na ficha técnica como o tradutor da adaptação francesa de Pierre Laville. “A idéia do espetáculo do Falabella, que há dois anos começou a tentar montar, a priori com Zezé Polessa. Por causa da TV, eles não tiveram como continuar, e ele ficou só como tradutor. Eu estava no primeiro elenco, coloquei o [produtor] Sandro Chaim em contato, formou-se novo elenco, convidou-se o Peralta”, revela Luisi.

“O original tem 18 personagens”, afirma o diretor. A adaptação, “viável para os dias de hoje”, segundo Luisi, reduziu-os a sete. “Mas os seis personagens centrais se mantêm”, diz Jacqueline Laurance, que interpreta Lady Markby, personagem que “traça um retrato de sua sociedade com humor”. “Ela fala sobre tudo e sobre todos, inclusive sobre si mesma, comenta e critica a sociedade a que pertence.”


O MARIDO IDEAL. De Oscar Wilde. Direção de Victor Garcia Peralta. Com Herson Capri, Silvia Pfifer, Edwin Luisi, Vanessa Gerbelli, Jacqueline Laurance, Lafayete Galvão e Larissa Bracher. No Teatro Procópio Ferreira. Rua Augusta, 2.823, São Paulo, SP. Fone (11) 3083-4475. Sextas e sábados, às 21h30, e domingos, às 19h. R$ 30 a R$ 50. Até 8/10.


Escrito por Mauro Fernando às 19h41
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