ROTUNDA


LENDAS DA NATUREZA





Realização do Grupo Faz e Conta, Lendas da Natureza traz Ana Luísa Lacombe como contadora de histórias e estréia neste sábado (5/8) no TBC, em São Paulo. A peça é recomendada para crianças a partir de 4 anos. Ana Luísa, que concedeu entrevista ao Rotunda por e-mail, traz à tona o universo da floresta por meio de lendas indígenas. A encenação é feita com adereços que misturam elementos naturais (sementes, palha e folhas) com lixo reaproveitável (tampinhas, latas e garrafas).

São duas histórias, A Árvore de Tamorumu e Begorotire, o Homem Chuva, com a presença de dois personagens do folclore nacional, Curupira e Boiúna. O Curupira é um protetor da mata e de seus habitantes, com cabelos cor de fogo e pés com calcanhares para frente que confundem os caçadores. Também conhecida como Cobra d’Água, a Boiúna tem chifres pontudos e olhos de fogo e vive no fundo dos rios – se alguém maltrata a natureza, ela espera a noite chegar, sai do rio e pode se transformar num barco iluminado a fim de atrair as pessoas e levá-las para o fundo das águas.


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Escrito por Mauro Fernando às 14h34
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LENDAS DA NATUREZA





Como nasceu o projeto?

Em 2002, escrevi um livro junto com minha mãe, Anna Maria Lacombe, que é psicopedagoga. O livro se chama Acender um Fogo - O Jogo e o Teatro na Escola e foi editado pela ONG Pró-saber para servir de material de apoio a professores e educadores populares. No livro, minha mãe apresenta a teoria da construção do pensamento segundo [o pedagogo e filósofo Jean] Piaget [1898-1980] de forma sucinta e ensina a confeccionar jogos para diferentes faixas etárias feitos de lixo reaproveitável. A minha parte no livro são os jogos teatrais. Selecionei algumas lendas indígenas para servirem como base para a realização desses jogos. O material desse livro virou uma exposição no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Durante a exposição, contei as duas lendas que estão no espetáculo. Resolvi, então, fazer o espetáculo para sair um pouco do papel de arte-educadora e dar a minha visão artística sobre esse material.

Por que falar sobre o folclore brasileiro?

Quando fui selecionar as histórias que serviriam de base para as atividades teatrais que propunha no livro, achei por bem escolher histórias brasileiras. Afinal, precisamos divulgar e valorizar o que é nosso, claro que sem abrir mão de todas as outras influências. O que no começo foi uma escolha de educadora virou um interesse de artista. Comprei vários livros com histórias indígenas e verifiquei que era um material riquíssimo! Tanto que, quando fui escolher as histórias para contar na exposição, já tinha encontrado outras, diferentes das que havia no livro e que tinham me chamado a atenção e me dado vontade de contar.

Como se deu a seleção dos dois mitos?

A Árvore de Tamoromu é o mito da árvore-mãe, provedora de todos os frutos. É uma linda história sobre a “saída do paraíso”. Por não saberem cuidar dessa maravilhosa árvore, os índios terão de passar a plantar e colher seu alimento. Antes a árvore lhes dava tudo. Begorotire, o Homem Chuva nos conta como surgiu a primeira chuva. A raiva de Begorotire por ter sido injustiçado faz com que ele provoque medo nas nuvens e elas chorem. A tribo de Begorotire se desune depois que ele vai embora e os protetores da floresta, Curupira e Boiúna, vão castigá-la. Escolhi os dois porque falam da relação do homem com a natureza, desse aprendizado de amor a ela, essa mãe que nos dá tudo e é tão esquecida e dilapidada pelos homens. Achei que, por serem histórias deliciosas de contar, ficariam bem ilustradas com meus trabalhos feitos com reaproveitamento de lixo e outros materiais.

O que a mitologia indígena tem a dizer às crianças de hoje, envolvidas em um sistema que privilegia a globalização cultural e os meios eletrônicos de comunicação?

Ela traz um olhar muito “limpo” sobre a vida e sobre as relações. Os índios nunca se colocam como “observadores da natureza” como nós, eles são parte dela. Transformam-se em animais e em gente de novo sem precisar de mágica. Trazem um imaginário poderoso, uma poesia própria, uma riqueza de situações, de animais, de seres e deuses. É o nosso povo! Eram eles que estavam aqui antes de todos os outros chegarem. É importante as crianças saberem quem é esse povo brasileiro. Não como gente estranha, pintada, que fala esquisito, mas essa gente que tem toda essa beleza cultural.

Por que trabalhar com materiais naturais e lixo reaproveitável? Trata-se apenas de reduzir custos de produção?

Na verdade, uso reaproveitamento desde sempre. Também sou aderecista de teatro. Quando ia confeccionar meus adereços, sempre olhei para as coisas que tinha em casa tentando encontrar nelas formas que me servissem. Nisso não havia nenhum olhar politicamente correto, apenas prático. Quando minha mãe inventou os jogos pedagógicos feitos de lixo, me pedia surpervisão na hora de confeccionar. Que materiais usar, como torná-los resistentes e duradouros e não descartáveis, etc. A idéia, no caso dela, era diminuir custos mesmo, pois o livro era voltado para educadores de creches e escolas de educação infantil populares, de morro, gente que não tinha dinheiro para comprar material didático para as crianças e tinha de se virar como podia. Mas queríamos uma coisa bonita, bem acabada. Acabei “garrando amor” pela coisa. É muito desafiador olhar para uma embalagem e pensar “O que eu posso inventar com isso?” e vice-versa, pensar numa coisa e tentar encontrar as embalagens que me servirão...

Como os adereços cênicos, a iluminação e a trilha sonora dialogam com a dramaturgia?

As histórias foram escolhidas e adaptadas por mim, mas como não sou escritora, chamei a premiada Simoni Boer, atriz, dramaturga e diretora, para redigir o texto final e dirigir o espetáculo. Cheguei com alguns objetos prontos e várias idéias e fomos andando juntas. Muita coisa acabei refazendo graças às discussões. Quando, há dois anos, contei essas histórias lá na exposição, fiz com sonoplastia ao vivo. Mas durante os ensaios com a Simoni chegamos num momento em que sentíamos falta de a floresta aparecer. Tínhamos uma canção do Gustavo Kurlat feita especialmente para o espetáculo e a canção de abertura, composta por Paulo Garfunkel. A sonoplastia não deu conta de “vestir” essas canções e criar uma floresta. Resolvemos chamar o Sérvulo Augusto para criar uma trilha sonora. Ele entendeu tudo o que queríamos e fez um trabalho rico, delicado, como as histórias e os objetos. Quando a trilha chegou, vimos que era preciso um trabalho corporal, pois a trilha tinha dado uma crescida no clima e era preciso aproveitar isso. Joana Mattei chegou para cuidar dessa parte. Seu trabalho foi fundamental para dar o acabamento que eu e a Simoni queríamos. O Pitty Santana, iluminador, foi o último a entrar nessa história. Infelizmente não temos os recursos que gostaríamos, mas com o que temos, ele foi extremamente competente. O teatro tem essa característica que é engrenagem de pessoas. Um depende do outro, e as coisas vão se complementando.

O que a motiva a fazer teatro infantil?

Também faço espetáculos e conto histórias para adultos. Mas sempre adorei teatro infantil. Faço desde que comecei minha carreira, há 25 anos, no Rio, e nunca considerei um teatro menor. Acho difícil de fazer à beça. Gosto de representar e contar histórias para crianças exatamente porque gosto de desafios. Elas são o que são, espontâneas, vivas, cheias de energia. Imprevisíveis. Gosto de falar coisas para as crianças e falo com elas através das histórias e dos espetáculos. Acho que vou fazer apresentações para crianças até ficar velhinha.


LENDAS DA NATUREZA. Seleção e adaptação das lendas indígenas de Ana Luísa Lacombe. Supervisão cênica e texto final de Simoni Boer. Com Ana Luísa Lacombe. No TBC. Rua Major Diogo, 315, São Paulo, SP. Fone 3104-5523. Sábados e domingos, às 16h. R$ 10 e R$ 20. Até 24/9.


Escrito por Mauro Fernando às 14h31
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ÁGORA TEATRO


Sonho de um Homem Ridículo



Aprofundar, por meio do teatro, o estudo sobre o homem do século XXI. A programação de agosto do Ágora Teatro, em São Paulo, tem essa premissa. Criado pelo ator Celso Frateschi e pelo diretor Roberto Lage, o Ágora recoloca em cartaz duas peças (Horácio e Sonho de Um Homem Ridículo), lança duas publicações (Ágora Livre Dramaturgias e Usando o Nome em Vão) e abre espaço para o seminário Teatro Paulistano Séc. V – Encontros para um Entendimento no Séc. XXI. Ricardo III, de William Shakespeare, segue em temporada com Frateschi na pele do protagonista.

Acompanhado da leitura dramática de Novas Diretrizes em Tempos de Paz, de Bosco Brasil (com Dan Stulbach e Pascoal da Conceição), o lançamento de Ágora Livre Dramaturgias obedece à lógica de verificar e discutir propostas ideológicas e estéticas e levar o homem contemporâneo para o centro da discussão. O livro contém os 12 textos que compuseram o seminário de mesmo nome realizado em 2001 – peças de Bosco Brasil, Fauzi Arap, Fernando Bonassi, Hugo Possolo, Luís Alberto de Abreu e Mário Bortolotto, entre outros.

Os 12 textos, que ganharam encenação no Ágora, procuraram responder a questões das quais a principal é “Poderá o mundo de hoje ser reproduzido no teatro?”. “Essa questão foi respondida plenamente, com maior ou menor felicidade artística”, afirma Frateschi. “Novas Diretrizes [que excursionou por boa parte do Brasil] é o mais emblemático.”

A conclusão de Frateschi: “Houve a necessidade de fazer o teatro continuar pensando sobre si, não só do ponto de vista do patrocínio como também da produção estética. É preciso refletir sobre qual o alimento fundamental para a solidez do teatro, dar um salto de qualidade. As coisas não vão tão bem quanto poderiam. Estar num bom estágio não significa que ele não possa ser superado. A reflexão faz com que nos apropriemos das conquistas”.

Tendo como objetivo mapear o teatro paulistano, 12 companhias participam do seminário Teatro Paulistano Séc. V – Encontros para um Entendimento no Séc. XXI. “São grupos que consideramos significativos, já consolidados ou em processo de consolidação. A idéia é discutir suas influências, em quem se inspiraram, a que outros grupos eles se sentem filiados. E, a partir do presente, voltar ao passado”, diz Lage. Não há a preocupação de dialogar com a produção de outros pontos do País, mas Lage está convicto de que o seminário ecoará, já que “São Paulo é um pólo irradiador”.

Sonho de um Homem Ridículo e Horácio são dois espetáculos solo nos quais Frateschi atua e que têm pontos em comum com Ricardo III. “O mote principal é a investigação do homem contemporâneo”, afirma o ator. “Sonho de um Homem Ridículo pega a questão do individualismo sob ângulo diferente de Ricardo III. Horácio questiona o indivíduo na sua essência.” Baseado em um conto de Diário de um Escritor, de Fiodor Dostoievski, Sonho de um Homem Ridículo contrasta os pensamentos niilista e revolucionário expressos em uma mesma pessoa. Horácio, de Heiner Muller, aborda valores éticos de uma sociedade.


[Mais informações abaixo.]


Escrito por Mauro Fernando às 16h49
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ÁGORA TEATRO


Horácio



PROGRAMAÇÃO


HORÁCIO. De Heiner Muller. Adaptação, direção e interpretação de Celso Frateschi. Dias 5 e 12/8, às 18h30. R$ 20.

SONHO DE UM HOMEM RIDÍCULO. De Fiodor Dostoievski. Dramaturgia e interpretação de Celso Frateschi. Direção de Roberto Lage. Dias 19 e 26/8, às 18h30. R$ 20.


ÁGORA LIVRE DRAMATURGIAS. Lançamento. Peças de Alcides Nogueira, Bosco Brasil, Fauzi Arap, Fernando Bonassi, Hugo Possolo, Izaías Almada, Luís Alberto de Abreu, Marcos Caruso e Jandira Martini, Mário Bortolotto, Marta Góes, Naum Alves de Souza e Noemi Marinho. Leitura dramática de Novas Diretrizes em Tempos de Paz, de Bosco Brasil, com Dan Stulbach e Pascoal da Conceição. Dia 21/8, às 20h.

USANDO O NOME EM VÃO. Lançamento. Registro do seminário realizado por Marilena Chauí, Marcos Nobre e Eugênio Bucci. Dia 30/8, às 20h.


TEATRO PAULISTANO SÉC. V – ENCONTROS PARA UM ENTENDIMENTO NO SÉC. XXI
9/8, às 20h30: Teatro da Vertigem e Grupo XIX de Teatro (debatedora: Beth Néspoli)
15/8, às 20h30: Fraternal Cia. de Arte e Malas-Artes e Cia. Estável (debatedor: Alexandre Mate)
16/8, às 20h30: Cemitério dos Automóveis e Os Satyros (debatedor: Sebastião Milaré)
22/8, às 20h30: Cia. Livre e Cia. São Jorge de Variedades (debatedor: Valmir Santos)
23/8, às 20h30: Razões Inversas e Cia. Balagans (debatedora: Johana Albuquerque)
29/8, às 20h30: Cia. Do Latão e Folias (debatedora: Iná Camargo Costa)
(Entrada franca. Retirar senha com uma hora de antecedência.)


No Ágora Teatro. Rua Rui Barbosa, 672, São Paulo, SP. Fone (11) 3284-0290.


Escrito por Mauro Fernando às 16h42
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100 SHAKESPEARE





“Quando você monta um clássico de [William] Shakespeare [1564-1616], que influenciou a história da humanidade, é cobrado por muitos intelectuais que pedem coerência. O teatro às vezes é chato porque há muitos donos, especialistas”, diz Beto Andretta, um dos fundadores do grupo Pia Fraus (“uma mentira contada com boas intenções”, expressão do latim). Ele deseja liberdade para fazer o teatro em que acredita.

Andretta assina concepção e dramaturgia de 100 Shakespeare, que estréia nesta quinta (3/8) no Sesi Vila Leopoldina, em São Paulo. A direção é de Wanderley Piras. O título é uma brincadeira com a possibilidade de criar livremente sobre a obra de Shakespeare – cem ou sem –, ainda mais por sabermos que ela trata da grande aventura humana.

Espetáculo filiado à linguagem do teatro de bonecos – especialidade da trupe criada em 1985 e responsável por montagens como Flor de Obsessão (para adultos) e Bichos do Brasil (para crianças) –, 100 Shakespeare agrega oito trabalhos do dramaturgo inglês. Estão à disposição do público (e da crítica) trechos de Ricardo III, Titus Andronicus, Sonho de uma Noite de Verão, O Mercador de Veneza, Hamlet, Otelo, Macbeth e Rei Lear.

“Queria falar sobre as impressões que causa a obra de Shakespeare”, afirma Andretta. “São cenas que sintetizam o principal de cada peça. Em Macbeth, por exemplo: a crueldade. Em Hamlet: a dúvida existencial. Em Otelo: o ciúme. É claro que assim os personagens perdem em profundidade, mas a idéia é buscar as sensações que a obra passa.”

São mais de 30 bonecos em cena, manipulados por quatro atores (Camila Ivo, Fábio Caniatto, Josafá Filho e Sidnei Caria, também o diretor de arte da peça) por meio de diversas técnicas. “Há a relação entre atores e bonecos, uma característica do grupo”, conta Andretta, que ressalta ser a montagem indicada para adolescentes e adultos.


100 SHAKESPEARE. Concepção e dramaturgia de Beto Andretta. Direção de Wanderley Piras. Com Pia Fraus. No Sesi Vila Leopoldina. Rua Carlos Weber, 835, São Paulo, SP. Fone (11) 3833-1093. Quintas a sábados, às 20h, e domingos, às 18h. Entrada franca. (Retirar ingressos com uma hora de antecedência de cada sessão.) Até 24/9.


Escrito por Mauro Fernando às 18h50
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PENTE FINO





Cinco executivos de uma grande empresa em um banheiro, e não apenas para atender ao chamado da natureza. Eles irão confabular, estabelecer conchavos e, eventualmente, esquecer amizades – como em um clube de futebol, um sindicato ou qualquer ambiente no qual as ambições em jogo não permitam uma partilha do poder. A Cia. Bravos Atores coloca em cartaz Pente Fino, do estadunidense Christopher Welzenbach, no WC masculino do Teatro Renaissance, em São Paulo, nesta sexta (4/8). Roberto Lage assina a direção.

Henrique (Daniel Gaggini), Walter (Elvis Shelton), Arruda (Luiz Baccelli), Bob (Mário Kondor) e João (Rafael Primo) fazem do banheiro a sala de reuniões. Há uma atmosfera de tensão, já que operações ilegais estão prestes a ser descobertas. Companheirismo se transforma em alianças frágeis, em salve-se quem puder. A peça apresenta uma discussão sobre amizade e ética. “Como são executivos do alto escalão, Pente Fino aborda também a vaidade”, afirma Gaggini.

O título da peça é uma referência a tudo que, por ser indesejado, precisa ser removido. “Acabaram de dar um golpe. A cada momento entra um personagem com uma novidade. Há uma disputa a qualquer custo pelo poder. Se um amigo meu está atrapalhando, não medirei esforços para destruí-lo”, diz Gaggini.

Responsável pela adaptação ao lado de Luciana Rossi, o ator conta que o primeiro contato com Welzenbach se deu há um ano. “Estava com a Luciana na Argentina buscando um texto contemporâneo para montar. E descobri, encenada no banheiro de um museu, essa peça sobre ética e corrupção que tem tudo a ver com o nosso país. O autor nos falou que a escreveu quando trabalhava em uma empresa que estava para ser incorporada e reuniões eram feitas no banheiro, onde os homens falam os podres sem medo de serem escutados.”

O ambiente corporativo está indefinido – nem se consegue identificar a posição de cada executivo dentro da empresa –, e Gaggini garante que a montagem não escamoteia intenções político-partidárias: “Queremos discutir ética de forma abrangente. Não há oportunismo em relação às denúncias contra políticos. Cada espectador pode ter sua leitura do espetáculo, tirar suas próprias conclusões”.

São 30 espectadores por sessão. O texto original foi escrito para palco, mas o banheiro é o espaço ideal “para deixar o público muito próximo dos atores, fazê-lo cúmplice”, explica Gaggini, que encara a proximidade da platéia como um desafio. “Como o espetáculo não tem artifícios, o ator trabalha sem muleta. O público pode se movimentar e ficar a 1 cm do ator. É fascinante.”


PENTE FINO. De Christopher Welzenbach. Direção de Roberto Lage. Com a Cia. Bravos Atores. No Teatro Renaissance. Alameda Santos, 2.233, São Paulo, SP. Fone (11) 3188-4141. Sextas, às 21h45, sábados, às 21h15, e domingos, às 18h15. R$ 40. De 4/8 a 30/9.


Escrito por Mauro Fernando às 12h39
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O CAIXEIRO DA TAVERNA (MARTINS PENA)


Martins Pena



CENA XV


ANGÉLICA e FRANCISCO, [e depois MANUEL e QUINTINO.]


ANGÉLICA, à parte – Hei-de saber como isto é... Empregarei um meio...

FRANCISCO – A Sra. D. Angélica está tão pensativa!

ANGÉLICA – E tenho motivos para isso. Sr. Francisco, é preciso que eu seja sincera com o senhor.

FRANCISCO – Há muito que isso desejo.

ANGÉLICA – O senho tem-me dado a entender que minha mão lhe seria agradável...

FRANCISCO – Senhora...

ANGÉLICA – Não tenho correspondido às suas finezas, porque, enfim... uma mulher vexa-se... Esperava poder confessar um dia esse segredo, mas ah, enganei-me, enganei-me!

FRANCISCO – D. Angélica!

ANGÉLICA – Foi uma zombaria! Eu, que o amava...

FRANCISCO – A mim?

ANGÉLICA – Sim, ingrato, a ti!

FRANCISCO – Oh! (À parte:) O Manuel que se arranje como puder; eu falo.

ANGÉLICA – A mim, semelhante traição! A mim, que já havia feito esta escritura de casamento; vê... Só o nome está em branco. O lugar era para o teu.

FRANCISCO – Dá-ma!

ANGÉLICA – Agora de nada serve. (Quer rasgar.)

FRANCISCO – Não rasgue!

ANGÉLICA – Estás casado.

FRANCISCO – Casado! (À parte:) Leve o diabo o Manuel! (Alto:) Angélica, quem te disse que estava casado, mentiu.

ANGÉLICA – Mentiu?

FRANCISCO – Eu não estou casado.

ANGÉLICA – Não estás casado? E quem é o marido de Deolinda?

FRANCISCO – Não lhe posso dizer, mas juro-lhe que estou tão solteiro como quando nasci. Eis-me a seus pés! (Ajoelha.) Dê-me essa promessa.

ANGÉLICA – Levanta-te. (Quintino aparece à porta do fundo e fica surpreendido, vendo Francisco aos pés de Angélica.)

FRANCISCO – Não me levantarei enquanto não me der a sua palavra que me fará ditoso.

QUINTINO – O marido de minha irmã aos pés de outra mulher?

ANGÉLICA – Lá de fora podem ver-nos...

FRANCISCO – E que vejam! Não serei eu seu esposo? (Manuel aparece à porta da direita e, vendo Francisco de joelhos, fica estupefato.)

ANGÉLICA – Talvez, mas levanta-te.

FRANCISCO – Não!

MANUEL – Muito bem, muito bem! Amigo falso!

FRANCISCO, levantando-se – Ah!

ANGÉLICA – Ah!

MANUEL – Muito bem!

FRANCISCO – Desculpa-me... Ela me ama e eu também a amo.

QUINTINO, que nesse tempo tem-se aproximado, segura a Francisco pela gola da jaqueta, dizendo – Ah! Tu a amas? E minha irmã, tua mulher?

FRANCISCO – Ai!

QUINTINO – Assim a enganas, patife?

FRANCISCO – Sua irmã não é minha mulher.

QUINTINO – Negas?

ANGÉLICA, para Manuel – Quem é o marido?


Escrito por Mauro Fernando às 20h45
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A SEPARAÇÃO DE DOIS ESPOSOS (QORPO-SANTO)


Qorpo-Santo



ATO PRIMEIRO


CENA TERCEIRA


FIDÉLIS (entrando) – Minha Marília! Minha adorada! Onde está o vosso aborrecido, insaciável marido?

FARMÁCIA (que assim se chama a mulher) – Passeia, meu amigo do coração!

FIDÉLIS – Então, podemos estar aqui tranqüilos?

FARMÁCIA – Com toda a tranqüilidade que pode gozar um espírito e prazer que pode fruir um coração!

(Esculápio bate à porta, com duas fortes pancadas, como costuma.)

FIDÉLIS – Não importa que saiba, menina; tu és muito timorata. Ainda não sabes de uma coisa: trago aqui uma carta; vai-lhe abrir a porta; é falsa; mas farei-o engoli-la como verdadeira!

FARMÁCIA – Tu és muito ardiloso! É o que nos vale, senão estávamos perdidos! Perdidíssimos!

FIDÉLIS – Não temas! Vai, vai, porque ao contrário poderá ele desconfiar e isso será pior!

FARMÁCIA – Sim, tens razão. (Aproxima-se à porta e abre:) Meu... sim, és tu, já viestes; chegastes.

ESCULÁPIO (entrando sem reparar para Fidélis) – Então, minha Farmácia, como passastes as longas horas que ausente de ti...

FARMÁCIA – Já sei: ausente de mim, palpitou seu coração, enfraqueceu-se sua existência, etc., etc. Não é assim?

ESCULÁPIO (percorrendo os olhos pela casa, dá com Fidélis; para este:) – Oh! O senhor por aqui!? O que quer; o que faz? Perdeu alguma coisa nesta minha habitação!?

FIDÉLIS – Vim de propósito (revelando certo receio em suas palavras e em seus gestos) trazer-lhe uma carta de um de seus maiores amigos. Ei-la (apresenta-lha a ele).

ESCULÁPIO (abrindo, e Fidélis escapando-se; aberta a carta, que nada tem escrito, Fidélis já se acha na rua) – Que cachorro! Que audaz! Vir trazer-me uma carta branca! Que quererá dizer isto? Carta branca! Isto faz um rei a um presidente quando neste deposita toda a confiança! Esperemos ou refletiremos. O papel traz a coroa imperial. Querem ver que estou feito Presidente da Província?! E com carta branca. (Para a mulher, que até então, como é seu costume, estava calada, arrumando a casa:) Sabes, minha queridinha? (Abraçando-a.) Estou feito Presidente da Província; e com carta branca! (Salta, pula, toca castanholas e faz o diabo de alegria.)


Escrito por Mauro Fernando às 20h38
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