QUERIDO PAI

“Em que medida o pai quer se ver ecoando no filho?”, questiona o diretor Antônio Januzelli. Querido Pai parte de Carta ao Pai, de Franz Kafka, para investigar relações humanas e se constituir em ótimo exercício cênico, de acordo com os preceitos do Laboratório Dramático do Ator, o processo de treinamento e criação elaborado por Januzelli. A peça está em cartaz no Viga Espaço Cênico, em São Paulo.
Nesse relacionamento afetivo que os títulos do espetáculo e da obra kafkiana deixam explícito, autoritarismo e submissão se encontram para configurar um distanciamento entre gerações. Com sensibilidade, o clima de opressão (e de tentativas de superá-la) se desanuvia em benefício de um discurso que transcende épocas e lugares e que não procura imprimir certezas ou soluções enfáticas na aventura humana.
É possível enxergar nessa atmosfera algo além da questão familiar ao se mirar em outras situações do cotidiano. Querido Pai, no entanto, não cuida de fornecer fórmulas fáceis de convívio, como se fosse almanaque de regras de etiqueta compiladas por figurinha de trânsito fluente em colunas sociais.
Inexiste um tom de chorumelas e queixumes, o que se poderia esperar de produções flácidas, condescendentes com a precariedade de uma pesquisa mal realizada. Os atores não se sustentam em esgares ou muxoxos, o que poderia se esperar de um elenco complacente com uma interpretação rudimentar. Henrique Schafer e Frederico Foroni destacam-se.
Tampouco se trata de sessão de análise, psicologismo barato, auto-ajuda ou qualquer tipo de banalização da discussão sobre a qual a montagem se debruça. É teatro, e dos muito bem feitos. A potência do espetáculo reside na força poética do texto expressa pelos atores expostos pela encenação em um palco nu repleto de possibilidades por eles aproveitadas.
QUERIDO PAI. Adaptação livre de Carta ao Pai, de Franz Kafka. Dramaturgização e direção de Antônio Januzelli. Com Henrique Schafer, Frederico Foroni, Eduardo Ruiz e Patricia Ermel. No Viga Espaço Cênico. Rua Capote Valente, 1.323, São Paulo, SP. Fone (11) 3801-1843. Terças e quartas, às 21h. R$ 20. Até 11/10.
Escrito por Mauro Fernando às 16h07
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