TITO

Em Batismo de Sangue, Frei Betto escreve: “Parte-se da idéia de que ninguém confessa seus ‘crimes’, a menos que seja forçado a falar. E para isso só há um recurso: a tortura. A dor física, o pânico psíquico e o medo desencadeiam, no prisioneiro, o instinto de sobrevivência, sob ameaça de levá-lo a dizer ou assinar o que querem seus carrascos. Troca-se a dignidade pela preservação da vida. Nesse momento, a escolha é crucial, entre ceder à ânsia de sobreviver ou aceitar a dor e a morte por fidelidade aos princípios assumidos”.
No Teatro Conchita de Moraes, em Santo André, estréia neste sábado (30/9) Tito, peça escrita por Solange Dias, dirigida por Cássio Castelan e produzida pelo Teatro da Conspiração. A montagem recupera a trajetória do cearense Tito de Alencar Lima, frade dominicano que combateu a ditadura militar brasileira, foi torturado e se suicidou no exílio em decorrência das seqüelas psicológicas deixadas pela tortura, e especula sobre a capacidade de resistência do homem.
O texto não se preocupa com um enfoque histórico nem se prende ao Tito guerrilheiro ou ao Tito religioso: o que interessa é o Tito humano. “Embora todas essas facetas apareçam, o foco está no homem que resiste às pressões, à tortura física e psicológica, em alguém tentando se manter são, não se quebrar”, enfatiza Castelan.
O espetáculo começa com uma conversa entre Tito e a dra. Rolland (Alessandra Moreira), sua psiquiatra – a memória, pois, é uma questão fundamental. “Das 18 cenas, somente a primeira e a última estão no tempo real. A peça é a memória dele, a qual funciona de duas formas. O ponto forte do primeiro momento é a resistência – a lembrança dos companheiros faz com que Tito não os entregue. No segundo, a memória não o deixa se esquecer do que passou e faz com que ele não avance”, diz Castelan.
Ao protagonista Tito (Castelan), símbolo dos direitos humanos, se opõe o antagonista Fleury (Marcio Ribeiro), o delegado Sérgio Paranhos Fleury que se tornou ícone da tortura durante o regime militar. Mas não se trata da luta do bem contra o mal, garante o ator e diretor. “Quisemos fugir do maniqueísmo, do embate entre o mártir e o demônio, ainda que torturador, por princípio, não seja bonzinho.” A peça não se envergonha de emitir opinião: “Optamos por Tito, não somos imparciais. Mas sem santificar nem satanizar ninguém”.
A proposta da direção é a do “realismo exacerbado”, revela Castelan: “O gesto um pouco maior que o normal gera visceralidade”. Quanto ao espaço cênico, a idéia inicial era a do alternativo. A peça, entretanto, estréia em palco italiano. “Durante os ensaios percebemos que a encenação ficou grande. O espetáculo fica mais forte com a visão frontal que o italiano proporciona. O texto trabalha com cortes cinematográficos, e as cenas curtas pedem mudanças rápidas de luz, de tempo. O palco italiano ajuda nisso”, explica.
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Escrito por Mauro Fernando s 18h09
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TITO
O elenco de Tito – Alessandra Moreira, Cássio Castelan, Emerson Santana, Marcio Ribeiro, Pitty Santana e Renata Bonadio – inicia temporada no Conchita de Moraes, em Santo André, graças a edital de ocupação do teatro. “Resolvemos estabelecer um programa de compartilhamento melhor da pauta do Conchita dentro de uma política sugerida pelo diretor de Cultura de Santo André, Alberto Alves de Souza”, afirma o coordenador da Escola Livre de Teatro (ELT), Kil Abreu.
Assim, a ELT – cuja sede é o próprio Conchita – passa a dividir o teatro com produções exteriores. “Santo André possui poucos espaços [teatrais], acho que esse diálogo com a escola pode ser produtivo”, diz Abreu. Revólver, da Cia. Os Subterrâneos, estréia no início de novembro.
Com a iniciativa, pretende-se estimular a formação de público, evitar caça-níqueis e fomentar experiências artísticas de qualidade, provocadoras. “A idéia é que as temporadas tenham fôlego”, resume. Os grupos de teatro, porém, devem estar cientes “dos riscos que uma temporada traz em uma cidade em que esse não é o hábito”.
TITO. De Solange Dias. Direção de Cássio Castelan. Com o Teatro da Conspiração. No Teatro Conchita de Moraes. Praça Rui Barbosa, 12, Santo André, SP. Fone (11) 4996-2164. Sábados, às 20h, e domingos, às 19h. R$ 10. Até 29/10.
Escrito por Mauro Fernando s 18h05
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