CAPOBIANCO MOSTRA DENISE STOKLOS
 Mary Stuart
Denise Stoklos está em São Paulo, onde apresenta Capobianco Mostra Denise Stoklos no Teatro da Memória, no Instituto Cultral Capobianco. Constam no programa cinco espetáculos solo de seu repertório: Calendário da Pedra (que esteve em cartaz entre os dias 14 e 22/10), Olhos Recém-Nascidos, Mary Stuart, Vozes Dissonantes e Casa. A programação termina em 10/12. A atriz, diretora e dramaturga concedeu entrevista ao Rotunda por e-mail.
Paranaense de Irati, Denise iniciou-se no teatro profissional em 1968. Até 1977 trabalhou com diretores como Ademar Guerra (1933-1983), Antonio Abujamra, Antunes Filho, Fauzi Arap e Luis Antônio Martinez Corrêa (1950-1987). Em 1979 especializou-se em mímica em Londres, construindo sólida carreira internacional.
Lançou em 1988 o manifesto Teatro Essencial, pelo qual prega o distanciamento dos parâmetros convencionais do teatro, a simbiose entre diversão e reflexão e o uso em cena do mínimo de recursos materiais e do máximo dos meios do ator (corpo, voz e pensamento). Possui vários prêmio internacionais – entre os recebidos no Brasil, estão o APCA por Elogio, Des-Medéia e Mary Sturt (atriz), o Shell por Mary Stuart (atriz) e o Apetesp por Mary Stuart (roteiro).
Olhos Recém-Nascidos, sua 24ª montagem, estreou em 2004. Escrito após a morte de seu pai, é um texto sobre morte e vida, sobre fins e recomeços. Mary Stuart, de 1987, opõe duas rainhas, as primas Elizabeth I (Inglaterra) e Mary Stuart (Escócia). Vozes Dissonantes, de 1999, coloca o foco na rebeldia de artistas, pensadores e políticos que se levantaram contra as ordens oficiais em cinco séculos de Brasil. Em Casa, de 1990, há uma personagem presa dentro da própria casa trafegando entre a comédia e a tragédia.
[Mais informações abaixo.]
Escrito por Mauro Fernando s 13h40
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CAPOBIANCO MOSTRA DENISE STOKLOS
 Vozes Dissonantes
Abaixo, trechos da entrevista com Denise Stoklos.
ROTUNDA – Qual a matéria-prima de Olhos Recém-Nascidos? DENISE STOKLOS – O momento de mudança. Aquele em que passamos de uma montanha para outra, cruzamos um precipício, “passamos para o outro lado”. Em busca do quê? De abandonarmos o que não gera nada mais. O “vencido” se entrega, esteja a data visível ou não. É demonstração nítida de que nossos movimentos não mais se reforçam com a estrutura a que nos entregávamos e tudo caminhava, sugeria. Tem que ter a humildade de abandonar o lugar que sempre serviu e ir em busca cega de consciência mas iluminada de intuição, em frente.
ROTUNDA – Mary Stuart é uma discussão sobre o poder? DENISE – O poder e a inevitabilidade de seu caráter destrutivo. A tese é que mesmo o poder entre duas mulheres, em tempos de fertilidade como os anos de mil e quinhentos. A rainha Elizabeth I na Inglaterra e sua prima Mary Stuart, rainha da Escócia, não suportaram que poder tenha limites. Poder parece ser a tentação diabólica de proporcionar que se teste se apresenta limites ou não e nesta enunciação iniciar-se sua implosão com consentimento de todos – ninguém sobra para culpar, é demolidor.
ROTUNDA – Vozes Dissonantes fala mal do Brasil ou é uma peça otimista? DENISE – Fala da vocação bela e ativa de nosso sangue e hábitos mesclados e sem cerimônia com o fato de que querem ser brasileiros. Fala dos que querem executar seus destinos com identidade e originalidade. Fala da gente brasileira que não foge à luta. Mas atravessa a conversa um grito escandaloso de que o capital, desde sempre bem instaladinho, abandona tanto as vozes dissonantes e vai derrubando cáustico este povo, sem o menor respeito cívico ou emocional, num chão de lama, para que passem os vitoriosos tão sujos e sem poesia.
ROTUNDA – Casa aborda a questão da identidade ou a banalidade do cotidiano? DENISE – Tudo isso, colado.
ROTUNDA – Qual o critério de escolha dessas cinco peças para a mostra? O que as une? DENISE – Critério de diversidade clara, de formatos bem contraditórios na aparência e por baixo sua extrema semelhança de finalidades, poderiam ser quaisquer cinco. Fizemos um pequeno foro, Thais, minha filha que é fotógrafa e cenógrafa de tantos dos últimos espetáculos, minha produtora e assistente de direção, Egla Monteiro, e eu. Juntamos nossos gostos pessoais e nossas justificativas cívicas e estéticas para celebrar o Teatro da Memória. Finalmente encontrei um teatro que se iguala tanto na busca desta memória que nos abraça a todos, desta memória que constrói nosso presente e futuro, Instituto Capobianco. Uma família torna a casa que seus mais íntimos compartilharam ao literalmente nascerem ali, buscarem com sua respiração seu primeiro difícil grito ali, e baseado em seus afetos ali construírem seu império da poderosa ação de expressão de seu amor. É lindo de ver, de estar ali e de participar de seus projetos. Manter a memória, revificar o centro. Julio Capobianco está reconstruindo amor no meio dos escombros mundiais. Não o vi ganhar uma página de jornal. Não faz mal. Mais uma vez a imprensa come barriga e ele, revolucionário, modifica o mundo. As grandes corporações vão dormindo achando que controlaram tudo. Esqueceram que Julio Capobianco está rindo e que formou uma platéia para chutar serragem do chão aos ares, alegres confetes, celebra a vida. Foi sempre assim, na calada da noite, escondido dos opressores, os poetas fazem barba e cabelo do sistema, não matam ninguém, mas o dia amanhece misteriosamente outro. E sorridente.
ROTUNDA – O que a impulsiona a criar? DENISE – A necessidade de me sentir dialogando com meu pai. A necessidade de me sentir dialogando com os netos que ainda não tenho. E nessas convesas reina a satisfação de deveres cumpridos. Onde cada qual com sua tarefa pronta proporciona ao outro completar o círculo de realização, o que faz a terra nitidamente como o circuito redondo de suas bordas se movimentarem harmonicamente, rolando, rolando indo direto pra dentro da trave. Gol dos dois times, em matemática subversiva porque abolida da competição: tudo soma e ninguém perde.
ROTUNDA – Pode o teatro mudar o mundo? o que tem ele a nos dizer? DENISE – Pode. E muda. E nos mostra esse fenômeno. E embarcamos nele, e em goleada nos refestelamos. Não faz mal a ninguém. Só aos que já nasceram perdedores pois escolheram como meta a fatalmente e intrinsecamente destruidora regra improvável por natureza: “eu sou melhor do que você, irmão, não sou, mãe-Terra?”
CAPOBIANCO MOSTRA DENISE STOKLOS. No Instituto Cultural Capobianco. Rua Álvaro de Carvalho, 97, São Paulo, SP. Fone (11) 3237-1187. Sábados, às 18h, e domingos, às 17h. R$ 40.
OLHOS RECÉM-NASCIDOS. Texto, direção e interpretação de Denise Stoklos. De 28/10 a 5/11. MARY STUART. Textos de Dacia Maraini, Romain Gary e Denise Stoklos. Concepção, direção e interpretação de Denise Stoklos. De 11/11 a 19/11. VOZES DISSONANTES. Adaptação, texto original, direção e interpretação de Denise Stoklos. De 25/11 a 3/12. CASA. Concepção, texto, direção e interpretação de Denise Stoklos. Dias 9 e 10/12.
Escrito por Mauro Fernando s 13h35
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