ZONA DE GUERRA

Entre outras coisas – a capacidade de reunir o prazer estético à questão ética, por exemplo –, o teatro que encanta alimenta o gosto pela renovação, pela negação das regras do mercantilismo cultural. Trupes paulistas novas que desafiam a biheteria fácil proporcionada por celebridades globais – e atuam sob princípios de pesquisa de linguagem e de continuidade do trabalho – exercem o notável papel de oxigenação do ambiente artístico contaminado pela influência midiática.
Dirigido por André Garolli, um desses grupos é a Cia. Triptal, que reestréia nesta terça (5/12), na Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista. Volta ao cartaz Zona de Guerra, um dos textos iniciais de Eugene O’Neill, o primeiro dramaturgo estadunidense de grandeza universal. A trupe debutou com Cardiff, que consta (assim como Zona de Guerra) entre as chamadas peças do mar de O’Neill, recebendo três indicações ao prêmio Shell: direção, cenário (a companhia) e música (André Luis Lima).
Em Zona de Guerra, uma embarcação mercante britânica carrega, clandestinamente, armamento durante a 1ª Guerra Mundial. O medo de um ataque alemão está estampado no rosto da tripulação. Smitty (Roberto Leite) carrega, escondida, uma caixa preta. Quando Davis (Bruno Feldman) e Scotty (Kalil Jabbour) descobrem o objeto, deflagra-se a suspeita de que Smitty seja um espião sob soldo tedesco.
Assim começa a caça pelo bode expiatório necessário para a indústria do medo que agita a opinião pública em tempos de guerra – seja pela obtenção de mercados ou pela reconquista de fornecedores, ambas a movimentar a máquina de produzir, na marra, populações servis. O expediente da caça às bruxas para mascarar intenções inconfessáveis.
Um dos destaques da montagem é o prólogo, no qual tudo – as circunstâncias de vida dos marujos, os proletários do mar, a hierarquia que molda suas relações sociais – é dito sem palavra alguma, apenas com gestos precisos e esclarecedores. Ponto para a direção e para o elenco, afinados com a crítica social embutida no texto. Ponto também para a criativa iluminação de Nelson Ferreira, que atira a platéia nessa atmosfera plena de sacrifícios pessoais e interesse coletivo – ou de interesses pessoais e sacrifício coletivo.
Há no elenco vigor a nortear a criação dos personagens e na direção, capricho no trato com a cena – ambos a demonstrar inequívoco talento. A movimentação dos atores conforma uma coreografia que adensa o clima claustrofóbico construído pelo espaço cênico de 10m², assinado por Garolli e Wagner Menegare.
ZONA DE GUERRA. De Eugene O’Neill. Tradução de Fernando Paz. Adaptação e direção de André Garolli. Com a Cia. Triptal. Na Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista. Avenida Paulista, 119, São Paulo, SP. Fone: (11) 3179-3700. Terças a quintas, às 21h. R$ 7,50 a R$ 15. Até 14/12.
Escrito por Mauro Fernando às 22h20
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