AQUI NINGUÉM É INOCENTE
Divulgação
 Gilvanka/Ziza na Roosevelt
Há diretores de teatro, e também coreógrafos, que consideram a pesquisa para um espetáculo tão (ou mais) importante quanto o resultado que chega às vistas dos espectadores. De fato, pelas possibilidades que apresenta de experimentar, ousar e refletir sobre a criação, o processo de montagem enriquece o trabalho da companhia, colhendo vantagens até mesmo para espetáculos posteriores.
Aqui Ninguém É Inocente, produção do Atelier de Manufactura Suspeita e da Cia. Linhas Aéreas em cartaz no Espaço dos Satyros Um, em São Paulo, é um desses exemplos. Apresentada em fevereiro ainda na fase da pesquisa, a montagem dirigida por Maurício Paroni de Castro e inspirada em crônicas escritas por Voltaire de Souza (pseudônimo de Marcelo Coelho), publicadas no jornal Agora São Paulo, parte do exercício da deriva.
A deriva, Castro a sintetiza em Aqui Ninguém É Inocente, o livro que relata a experiência. “O exercício consiste, na prática, em criar situações reais, em locais públicos, nas quais o ator realiza um deslocamento a partir de premissas previamente determinadas e com um tempo de duração também estipulado. O exercício gera um fluxo de ações que é determinado pelo percurso feito. (...) Esse exercício foi o ponto fundamental desta pesquisa, onde os atores são o suporte da dramaturgia, e não o contrário, como se costuma fazer tradicionalmente. Os ganhos dessa inversão de percurso são de vários níveis: conceitual, criativo e interpretativo.”
O empresário e humanista internacional Gilberto Madeira (Alexandre Magno), o estilista argentino Kuko Jimenez (Fabio Marcoff), a empresária do ramo de uniformes Gisela (Fernanda Moura), o morador de rua Fergusson (Roberto Alencar), o professor de história e ex-petista Elpídio (Vanderei Bernardino) e a morena postulante a atriz e apresentadora Gilvanka (Ziza Brisola) são os personagens.
O público escolhe um deles e acompanha suas ações em uma volta pela Praça Franklin Roosevelt, onde o Espaço dos Satyros Um se localiza. Depois, já na sala de espetáculos – onde o palco-camarim e os instigantes truques com os retratos dos personagens compõem uma ao mesmo tempo desmistificadora e ambivalente relação ator-personagem –, dá-se a correspondência direta tablado-assento.
Colocar o público na condição de cúmplice-observador na primeira parte da peça e convidá-lo a participar da segunda, com voz ativa, é a idéia. Isso redunda em jogo cênico que se forma a partir das propostas atiradas pela platéia ao elenco, obrigado a improvisar sem fugir às características de cada personagem. (Sublinhe-se, por sinal, o trabalho dos intérpretes.) Assim, cada apresentação se torna realmente única, independentemente de variações de humor que possam acometer atores e corroboram a ênfase de arte efêmera dada ao teatro.
Às favas com as convenções – essa é a maior qualidade da peça. O teatro se mostra mais vivo que nunca em Aqui Ninguém É Inocente, limpo de tradições empoeiradas que tanto convêm à bilheteria e àquele tipo de espectador que se deslumbra perante a pequenez de grandes somas de verba publicitária, de musicais conformistas, de comédias de gabinete oportunistas.
AQUI NINGUÉM É INOCENTE. Dramaturgia e direção de Maurício Paroni de Castro. Com Alexandre Magno, Fabio Marcoff, Fernanda Moura, Roberto Alencar, Vanderei Bernardino e Ziza Brisola. No Espaço dos Satyros Um. Praça Franklin Roosevelt, 214, São Paulo, SP. Fone (11) 3258-6345. R$ 20. Até 29/7.
Escrito por Mauro Fernando s 19h25
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
|