ROTUNDA


IFIGNIA

Divulgao

Cia. Apnia inverte a ordem trgica

Apnia, do grego pnoia, significa suspenso da respirao. A Cia. Apnia estria nesta tera-feira (21/8), no Centro Cultural So Paulo, Ifignia, sua verso para a tragdia Ifignia em ulis, de squilo (525? a.C.-456? a.C.). Mrcio Tadeu assina a direo e a adaptao, que conta com trechos de Agammnon e Coforas (duas das peas de squilo que compem a trilogia Orstia), Electra, de Sfocles (496 a.C.-406 a.C), e Electra, de Eurpedes (480 a.C.-407 a.C.). Felipe Chagas, Helosa Aidar, Kuarahy Fellipe, Mariana Mattar e Vanessa Medeiros formam o elenco.

Reis de Argos, Agammnon e Clitemnestra tm trs filhos: Ifignia, Electra e Orestes. Agammnon mata uma cora sagrada no bosque de rtemis, deusa da caa e dos caadores, mas tambm protetora dos animais. Enfurecida, esta exige em troca do animal o sacrifcio da primognita Ifignia. O rei obedece. Aps dez anos, Clitemnestra se vinga do marido, matando-o. Mais dez anos se passam, e Orestes mata a me com o apoio de Electra. Aviso: a Cia. Apnia conta essa histria de trs para frente.

Mariana revela que o grupo existe desde 2004, quando a turma de alunos que ingressou na Unicamp [Universidade de Campinas] em 2002 montou seu primeiro trabalho, Catlia. O Mrcio Tadeu professor da Unicamp, dirigiu nossa turma em O Doente Imaginrio, de Molire. Depois, a nosso convite, dirigiu-nos novamente no nosso espetculo de formatura. Depois que nos formamos, pedimos a ele que continuasse nos acompanhando, e ele aceitou, assinala. Abaixo, trechos da entrevista, concedida por e-mail.


Escrito por Mauro Fernando s 08h48
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IFIGNIA

Divulgao

Modernizao da tragdia grega

Rotunda Em que aspectos da sociedade contempornea a adaptao quer tocar? H uma abordagem crtica sobre eles?

Mariana Mattar A adaptao quer tocar numa questo que no to moderna assim, mas que hoje em dia se revela de maneira mais intensa por carregar toda a histria da humanidade: a responsabilidade do ser humano sobre suas aes. Traamos um paralelo com o meio ambiente e o limite a que chegamos por atitudes muito anteriores a ns, mas que damos continuidade. Isso fica claro quando declamamos o poema do Cacique de Seattle: Todas as coisas so conectadas como o sangue que une uma famlia, o que acontecer com a terra acontecer com os filhos e filhas da terra... Com relao abordagem crtica, ns a chamaramos de metafrica, mas ainda crtica.

Rotunda Trata-se de uma tragdia grega modernizada: esteticamente, a montagem apresenta elementos que remetem poca dos textos?

Mariana Sim, os figurinos so completamente inspirados em trajes gregos, as sandlias, coroas, mantos... Tambm os adereos como espadas, machado, capacetes. Tudo o que vestem os atores ou que eles usam baseado no real. Salvo duas mochilas, que so modernas para quebrar com a idia de tempo real e tempo imaginrio.

Rotunda A pea-ncora do espetculo Ifignia em ulis mas h cenas recortadas de outras tragdias gregas. Por qu?

Mariana Porque queramos contar a histria inteira desta famlia. Em Ifignia em ulis, a pea termina quando morre Ifignia, mas a saga dessa famlia interminvel. Em Agammnon vem a continuao, o pai de Ifignia morto pelas mos de sua mulher, em vingana. E assim termina tambm esse texto. Somente em Electra e em Coforas aparece Orestes, o filho do casal, que vinga a morte do pai matando a prpria me. Queramos narrar a histria completa, mas montar na ntegra quatro textos no era interessante para ns.

Rotunda Por que a histria contada de trs para frente?

Mariana Queramos mostrar primeiro as conseqncias e depois o motor delas. Ao colocarmos na primeira cena dois filhos matando a prpria me, queremos instigar o pblico: qual seria o motivo para tal atitude? Ento voltamos e explicamos porque ela matou seu marido. Mas, por que ela matou seu marido? Porque ele matou a filha. E porque ele matou a filha? A chegamos onde queramos: porque ele matou um cervo em uma caada, mas este cervo era querido da deusa rtemis, que exigiu como resgate o sacrifcio do que o assassino tinha de mais querido, a filha, Ifignia. Ficamos inconformados ao estudar a histria inteira da famlia, que tamanha desgraa tenha ocorrido por uma atitude to simples, mas no menos cruel. Ou seja, pequenas atitudes, grandes conseqncias.

Rotunda Como a companhia pretende renovar a linguagem trgica?

Mariana A linguagem trgica renova-se em nosso espetculo atravs da nossa interpretao. Por desconhecermos exatamente o que o trgico grego, j que no temos documentos exatos, buscamos construir as personagens baseadas em sentimentos e emoes prximas a ns e ao nosso tempo. Isso faz com que a grande empostao trgica caia por terra e fique uma intrepretao que busca somente a verdade, a emoo mais pura, a inteireza e no o simulacro de situaes, como imaginamos que era na antigidade clssica. O prprio texto, por ser recortado e invertido, nos obriga a ter quebras no tempo e na seqncia. No queremos tirar da tragdia o que ela tem de melhor, que a profundidade dos temas e o embate das personagens, buscamos aprofundar estas questes observando o nosso redor e colocando para dentro de cena.

Rotunda Qual a inteno da companhia em relao ao fazer teatral? Transformar o mundo? Ganhar a vida com simplicidade e honestidade?

Mariana Acho que ganhar a vida com simplicidade e honestidade no s a inteno de atores de uma companhia de teatro, mas de todos aqueles que tentam encontrar algum sentido para a vida. Sabemos que no vamos transformar o mundo, apenas seguimos vivendo nele, eu e voc e todos ns. trabalho de formiguinha fazer teatro. Penso mais nessa arte como uma possibilitadora de encontros, seja do espetculo com a platia, seja dos atores com diferentes cidades e pessoas, seja dos atores consigo mesmos ou daquele que assiste com algo adormecido dentro dele. O teatro nos inspira vida, ar, respiro, contato, comunicao... No esperamos grandes revolues, mas que as pequenas e invisveis que se processam em quem nos assiste sejam verdadeiras.

Rotunda Como o grupo interpreta conceitos como indstria cultural e sociedade do espetculo?

Mariana Bem, esta pergunta eu respondo apenas por mim, apesar de conhecer a opinio de alguns integrantes e saber que no divergem muito da minha. Sinto que estamos to imersos nisso tudo que nem sabemos mais onde fica a superfcie para tentarmos colocar a cabea pra fora e respirar um pouco. E mais, do lado de fora tem ar? Tentar combater a indstria cultural com muita veemncia s nos faria panfletrios. Tentamos ignor-la, rir dela, xingar os que se venderam morrendo de medo de sermos os prximos. Acredito que a cultura s pde virar uma indstria porque tudo virou indstria, nosso modo de viver a vida autoriza isso tudo. Sem querer ser clich, mas no poderia ser diferente disso no capitalismo, no qual o show e o brilho tm que atingir grandes massas de uma s vez. Entendo como indstria cultural toda a produo artstica que no tenha sido gerada a partir de uma inquietao ou necessidade do artista, mas com o intuito de agradar ao pblico, ganhar dinheiro ou vender um produto ou idia. Trabalhar nesta profisso no ser artista, ser um profissional do entretenimento. Estas pessoas no firmaram um compromisso consigo mesmas. Como sociedade do espetculo entendo um modo de viver baseado no que se aparenta ser, na imagem que se consegue produzir nos outros, no fascnio em ver a imagem do outro. Como se nada mais fosse real, como se no tivssemos mais direito de sermos o que somos. Acho que dentro disso est a moda, a televiso, tudo o que gera uma imagem do que seria perfeito.


IFIGNIA. De squilo. Adaptao e direo de Mrcio Tadeu. Com a Cia. Apnia. No Centro Cultural So Paulo. Rua Vergueiro, 1.000, So Paulo, SP. Fone (11) 3383-3402. Teras e quartas, s 21h. R$ 10 (R$ 1,90 em 28/8). At 26/9.


Escrito por Mauro Fernando s 08h43
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