A JULIETA E O ROMEU
Divulgação
 Zabobrim e Mafalda: a arte de sonhar
O Barracão Teatro é um espaço de investigação e criação cênica formado em 1998 por Esio Magalhães e Tiche Vianna em Campinas (SP). Magalhães esteve na capital paulista no ano passado com o solo WWW para Freedom, criado e dirigido por ele mesmo, com dramaturgia de Tiche e dele próprio. Um espetáculo que, por intermédio do jogo do palhaço, questiona a validade da força bélica e as atrocidades que o homem comete em nome da liberdade. E faz, é claro, a platéia soltar a gargalhada, rir das mazelas humanas.
De volta à capital paulista, o Barracão Teatro está em cartaz no Teatro Fábrica São Paulo com A Julieta e o Romeu. Dois clowns, Zabobrim (Magalhães) e Mafalda (Andrea Macera), estão em cena. Naomi Silman, Andrea e Magalhães assinam criação e concepção. A direção é de Naomi. A dupla clássica de clowns, o augusto (o atrapalhado Zabobrim) e o branco (a autoritária Mafalda), a fazer a platéia soltar a gargalhada, rir das mazelas humanas.
Está escrito no programa: “Nestas tribos [indígenas norte-americanas], o homem deve se ver em várias direções para se encontrar com o ridículo da beleza humana ou com a beleza deste ridículo. Segundo aquela tradição as direções são seis: norte, sul, leste, oeste, baixo profundo e cima infinito. O palhaço, então, é aquele que se coloca nestas várias direções (máscaras) para instaurar o encontro com este ridículo e beleza, comungando com o público as questões da nossa própria condição ao revelar diversas facetas da humanidade”.
A história do circo aponta: o palhaço desajustado é fruto das contradições da sociedade industrial do século XIX que promete a erradicação da pobreza por intermédio da integração do indivíduo ao progresso mas entrega à massa justamente a pobreza. O real a contradizer o discurso, a sociedade de classes a se perpetuar.
Na interpretação memorável de Magalhães, Zabobrim é a espontaneidade febril, aquele que não se encaixa na ordem das coisas imaginada e imposta por Mafalda, símbolo do pensamento dominante. Com suas sublimes brincadeiras, ambos descortinam a grandeza e a miséria humanas, como afirma o programa da peça. E propõem uma transformação social a partir da transformação das pessoas. Em cena: amor, dignidade, fome, liberdade, poder, sexo.
Mas também cabem em A Julieta e o Romeu outros tipos de leitura. Sobre a arte da interpretação, por exemplo. Debruçando-se sobre personagens de William Shakespeare – Otelo e Desdêmona, o casal MacBeth, Romeu e Julieta –, Zabobrim e Mafalda abordam os perigos e as delícias do vôo do ator e contestam modelos consolidados de representação.
Com recursos próprios do picadeiro – poucos objetos de cena, a capacidade de improvisar e, sobretudo, a qualidade dos artistas –, a dupla de clowns tira dos conflitos inerentes às relações de dominação que expressam a graça que faz de A Julieta e o Romeu uma montagem imperdível. O profundo e o infinito – além da diversão e da reflexão – reunidos num só espetáculo e embrulhados na popular arte do circo (e de sonhar).
A JULIETA E O ROMEU. Criação e Concepção de Naomi Silman, Andrea Macera e Esio Magalhães. Direção de Naomi Silman. Com Andrea Macera e Esio Magalhães. No Teatro Fábrica São Paulo. Rua da Consolação, 1.623, São Paulo, SP. Fone (11) 3255-5922. Quintas-feiras, às 21h. R$ 30. Até 4/10.
Escrito por Mauro Fernando às 12h41
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