DIÁLOGO DAS SOMBRAS
Arnaldo J. G. Torres
 A Jovem e o Tio: metalinguagem a serviço de uma causa
O dramaturgo Samir Yazbek sempre procurou perscrutar a condição humana, aprofundando-se nas questões éticas. Foi assim, por exemplo, com A Terra Prometida (de 2001, sobre a liberdade de escolha), A Entrevista (de 2004, sobre o fazer artístico) e O Invisível (de 2006, sobre o esvaziamento do sentido da vida). Com Diálogo das Sombras, que estréia para o público nesta sexta-feira, na Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista, em São Paulo, não poderia ser diferente. Em cena, a Cia. Arnesto nos Convidou.
A peça, nas palavras do autor, “é uma tentativa de discutir o individualismo no universo contemporâneo”. Um tema que ele não quer “denunciar nem radiografar, mas investigar suas causas, sob a perspectiva de entender sua origem”. E, a partir disso, identificar “o que a gente aceita” e verificar “o que a gente pode transformar”.
Narcisista ao extremo, a Jovem (Rubia Reame) sofre pressões do Pai (Eduardo Semerjian), que pretende inseri-la no mundo adulto ao desafiá-la a arrumar um emprego. O Tio (Helio Cicero) tem em mente outro método, mais sutil, para a tarefa: uma representação teatral que confronte realidade e imaginação. “Trata-se de uma reencenação da vida dela com as outras personagens com o intuito de compreender as coisas que ficaram pelo caminho e fazer uma prospecção da alma humana, entender melhor a realidade para poder mudá-la”, revela.
A Mãe (Maristela Chelala), o Namorado (Duda Mattos) e a Amiga (Júlia Corrêa) também integram essa história. “São personagens arquetípicas, não dou nome a elas”, conta o dramaturgo, que busca com esse recurso metalinguístico esquadrinhar “a maneira como as relações socias se dão”. Assim, as personagens surgem como representantes de segmentos da sociedade. “O Pai tem um discurso mais conservador; a Mãe, mais libertário; o Tio, mais voltado para o indivíduo. A Jovem fica no meio de um fogo cruzado, tentando se encontrar.”
Inexiste no texto um jogo entre protagonista e antagonista em relação ao Tio e à Jovem: “Ele é um grande parceiro, aliado, o condutor, uma espécie de mediador mágico entre o mundo da luz e o da sombra”. O Tio é cego – contribuição de Cicero, não concebida por Yazbek. “A cegueira é uma metáfora inspirada na visão apurada das personagens do filme Janela da Alma (de João Jardim e Walter Carvalho)”, diz o autor.
Yazbek trabalha com o conceito aristotélico de catarse, que Patrice Pavis define em seu Dicionário de Teatro como “a purgação das paixões (essencialmente terror e piedade) no próprio momento de sua produção no espectador que se identifica com o herói trágico”? “De certa maneira, sim”, responde o dramaturgo. “A Jovem vai sendo premida pelas circunstâncias, emparedada por outras personagens. A trajetória dela pode servir de espelho para muita gente. Há a preocupação de humanizar a personagem.”
Diálogo das Sombras formaliza a Cia. Arnesto nos Convidou, cujo núcleo é formado por Yazbek, Campanholi e Cicero. Com O Invisível, os três já haviam lançado a pedra fundamental do grupo, cujo nome é uma referência a Adoniran Barbosa (1910-1982), autor de Samba do Arnesto, Saudosa Maloca e Trem das Onze, entre outras composições que o colocam no cume da música brasileira. O dramaturgo explica a ligação do trabalho da trupe com os sambas de Barbosa, genuíno cronista da urbanidade: “A arte que procura uma prospecção do mundo contemporâneo na metrópole”.
DIÁLOGO DAS SOMBRAS. De Samir Yazbek. Direção de Maucir Campanholi. Com a Cia. Arnesto nos Convidou. Na Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista. Avenida Paulista, 119, São Paulo, SP. Fone (11) 3179-3700. Sextas a domingos, às 19h30. R$ 5,50 a R$ 20,00. Até 16/12.
Escrito por Mauro Fernando às 18h28
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