CIA. BORELLI DE DANÇA - O PERENE E O EFÊMERO
 Carne Santa: direção, concepção e criação coreográfica de Sandro Borelli
“A arte só serve para alguma coisa se é irreverente, atormentada, cheia de pesadelos e desespero. Só uma arte irritada, indecente, violenta, grosseira, pode nos mostrar a outra face do mundo, a que nunca vemos ou nunca queremos ver, para evitar incômodos à nossa consciência.”
Estampadas em página de guarda do nº 14 (verão de 2006) da revista literária Coyote, essas frases revelam, além de um poder de sentença, o cerne do trabalho da Cia. Borelli de Dança. O escritor, jornalista e pintor cubano Pedro Juan Gutiérrez, evidentemente, não as cunhou nem como exegese da obra do coreógrafo Sandro Borelli nem para lustrar os egos da trupe, que sequer ouvira falar dele. Mas elas dialogam com surpreendente naturalidade com o fazer artístico do grupo.
Escrito por Mauro Fernando às 18h42
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
CIA. BORELLI DE DANÇA - O PERENE E O EFÊMERO
 O Processo: direção, concepção e coreografia de Sandro Borelli
“Ser artista é um ato político.” No palco da Sala Paissandu da Galeria Olido, em São Paulo, Sandro Borelli fez sua profissão de fé. “Vocês aí (na platéia) são mais importantes que nós aqui (sobre o linóleo). Cuidado com o sofá e a TV. O Brasil tem várias fomes, e a maior é de cultura”, arrematou.
Ouviam-no naquele 31 de julho de 2007 os 56 aprendizes (e seus parentes, na platéia) inscritos nas oficinas que culminaram na mostra de exercícios coreográficos prevista no projeto de remontagem de O Processo, contemplado pelo Programa Municipal de Fomento à Dança de São Paulo.
O Processo, sobre a obra de Franz Kafka, estreara cinco dias antes, no ano em que a Cia. Borelli de Dança completou uma década de existência – a coreografia original marca o fim da primeira fase do grupo (fundado com outro nome, FAR-15), encerrada em dezembro de 2003.
Ao pedir cuidado com sofá e TV, Borelli se referia a quem Plínio Marcos chamava de “homens-prego”, os fixos no mesmo lugar, os acomodados, atentos somente à pobreza alienada dos sonhos de consumo. A arte que interessa, então, é a que rasga o véu da ilusão, a que expõe contradições e possibilidades, a que confronta idéias, a que transita na contramão do pensamento hegemônico contemporâneo, o neoliberal.
Escrito por Mauro Fernando às 18h38
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
CIA. BORELLI DE DANÇA - O PERENE E O EFÊMERO
 Carta ao Pai: direção, concepção e coreografia de Sandro Borelli
É importante compreender a posição que a Cia. Borelli de Dança ocupa no contexto atual porque somente assim se terá uma visão mais ampla de seu trabalho. “Só poderemos descrever o mundo atual para o homem atual na medida em que o descrevermos como um mundo passível de transformação”, escreveu Bertolt Brecht em Estudos sobre Teatro. A transformação a partir da tomada de consciência, com a conseqüente mudança de postura em relação à iniqüidade narcisista que caracteriza a indústria da diversão, tão apegada a valores apenas mensuráveis por cifrões.
Theodor Adorno, para quem a arte é o gesto crítico e libertador perante a racionalidade da existência comezinha, formulou o conceito de indústria cultural na década de 1940; Guy Debord, o da sociedade do espetáculo vinte anos mais tarde. Vivemos sob este. Mas a passagem de um para outro não representa exatamente uma mudança de padrão, “talvez seja uma conseqüência da própria expansão daquela indústria”, como indica Maria Rita Kehl em Videologias: “A alienação do trabalhador completa-se na sua transformação em consumidor. Ainda quando não consome as (outras) mercadorias propagandeadas pelos meios de comunicação, consome as imagens que a indústria produz para seu lazer”.
É neste contrafluxo que se esgueira a companhia dirigida por Borelli: ao abordar com espírito crítico as miudezas do homem contemporâneo, trata de lançar um sinal de alerta. Não é difícil constatar que suas criações coreográficas partem de uma espécie de tumulto íntimo, de uma necessidade espontânea de expressar (e expurgar) o que incomoda – não estão atadas a efemérides como o sesquicentenário de nascimento de fulano ou à ocupação de algum nicho do feirão cultural.
Quando põe em cena, por exemplo, a angústia – que transcende tempo e espaço – de A Metamorfose, O Processo e Carta ao Pai, de Franz Kafka, Borelli coloca-a sem concessões, aprofundando-se no assunto, provocando questionamentos. Coloca-a com a convicção de que a arte lida não apenas com a estética, mas também com a ética, procurando o entroncamento entre reflexão e diversão, porque o universo humano é vasto e a especulação sobre ele não deve ficar no nível da superfície. Coloca-a com a convicção de que entretenimento é roda-gigante, carrossel, prestidigitação – e o fazer artístico, quando autêntico, vai além disso. Afasta a companhia, assim, da vanguarda frívola mencionada por Roland Barthes em Mitologias, aquela que não tolera na burguesia a sua linguagem, mas o seu estatuto...
Uma vez que “a televisão é a mais espetacular tradução da indústria cultural”, como aponta Kehl, Borelli transpôs para seu discurso as preocupações de ordem ideológica inconscientes embutidas em suas criações.
Preocupações de ordem ideológica porque, nas palavras da ensaísta, os “efeitos da expansão da indústria cultural dos objetos da cultura (...) são indissociáveis da produção e transmissão do que chamamos de ideologia, de modo que afetam não apenas os indivíduos isolados: dizem respeito ao laço social”.
E inconscientes porque o coreógrafo não possui o hábito de ler teoria, nem sobre artes cênicas. Costuma dizer que Kafka e Augusto dos Anjos formam seu “patrimônio cultural” e surpreendeu-se quando soube que seu nome consta em dois verbetes – dança-teatro e teatro físico – do Dicionário do Teatro Brasileiro (coordenação de J. Ginsburg, João Roberto Faria e Mariangela Alves de Lima). Borelli é um daqueles artistas que capta a realidade nos domínios do etéreo – uma apreensão poética – para marcar posição contra a redução do ser humano a mercadoria e da vida a mercado.
Escrito por Mauro Fernando às 18h33
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
|