MEMORIAL DO QUARTO ESCURO
Divulgação
 Família, religiosidade e sexualidade no baú
De quantos segredos e solidões somos feitos? A resposta à pergunta-mote do espetáculo de dança contemporânea Memorial do Quarto Escuro, explica o bailarino Edson Calheiros, “está em cada um, que a encontra quando olha para si”. Calheiros estréia a montagem, seu segundo solo, na quarta-feira 19/3 no Teatro Municipal de Barueri. Nana Pequini assina a direção.
Memorial aponta para memórias da infância, para a passagem do mundo infantil para o adulto. “A pesquisa começou em junho do ano passado”, conta o bailarino, também intérprete da Cia. Borelli de Dança, e envolveu o Coletivo de Artistas Intermitente Abismo de Sonhos (formado por Calheiros, Nana, Gustavo Ayala, Natália Fernandes, Natália Mendonça e Rui Ricardo Dias).
A montagem se escora em três vertentes – família, religiosidade e sexualidade – e parte de experiências do bailarino. “Mas essas coisas estão diluídas no espetáculo”, afirma Calheiros. “Não queríamos que Memorial fosse um depoimento pessoal. São coisas marcantes, porém universais, para que a platéia encontre identificação.”
Como os três temas se entroncam na coreografia? “A família aparece como uma intervenção externa que molda o espaço íntimo. O personagem recebe o impacto dessa família que procura ditar um modo de vida. E ela está alheia ao que se passa nessa intimidade”, diz o intérprete. Alheia por falta de interesse? “Sobretudo por não saber lidar com questões como choque de valores e distanciamento de gerações.”
Calheiros retoma experiências pessoais para demonstrar como a religiosidade se mistura nesse caldo. “Nasci envolto por evangélicos, e isso foi difícil para mim porque não me encaixava bem, queria coisas além do mundo que me apresentaram. Houve um conflito com valores familiares opressivos na formação da subjetividade.” Já a sexualidade “de certa forma se torna um oásis nesse conflito todo”: “A descoberta do prazer choca a família e se choca com a religiosidade e ao mesmo tempo é alívio e alento nessa existência meio tensa”.
Assuntos espinhosos, que ganham no espetáculo densidade de contestação, “mas sem conotação político-social”. “É no sentido da apropriação pela religiosidade da corporalidade das pessoas. O personagem almeja a liberdade e tem de se debater contra instituições e valores conservadores”, afirma.
Formado em Educação Física pela USP em 2002, o bailarino conta que começou a estudar dança em 1994 e profissionalizou-se nas artes cênicas há seis anos, quando passou a integrar o elenco da Cia. Corpos Nômades, dirigida por João Andreazzi. “Fiquei na companhia por dois anos e meio, depois atuei ao lado de Nana na peça Pretexto (texto e direção de Dias)”.
Seu nome consta nos programas da Cia. Borelli desde 2006 – sob a batuta de Sandro Borelli, dançou em Carta ao Pai, Kafka in Off, A Metamorfose, O Processo e Carne Santa. Em 2005 estreou seu primeiro solo, Recluso c.3.3 (direção de Dias), no evento O Masculino na Dança, do Centro Cultural São Paulo – pelo qual, no ano seguinte, apresentou o duo Desculpe o Transtorno (com Robson Ferraz, também intérprete da Cia. Borelli, e direção de Nana). Memorial segue em abril e maio para Guarulhos, Jacareí e Pindamonhangaba.
MEMORIAL DO QUARTO ESCURO. Direção de Nana Pequini. Com Edson Calheiros. No Teatro Municipal de Barueri. Rua Ministro Rafael de Barros Monteiro, 245, Barueri, SP. Fone (11) 4198-0972. Dia 19/3, às 20h. R$ 5.
Escrito por Mauro Fernando às 15h00
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