BEIJE MINHA ALMA
Maria Tuca Fanchin
 Vanessa Macedo e o universo de Tracey Emin
A instalação My Bed, da artista plástica britânica Tracey Emin, é a fonte primária de inspiração do novo trabalho da Cia. Fragmento de Dança, Beije Minha Alma. Em My Bed, de 1998, Tracey, nascida em 1963, expõe sua intimidade ao reconstituir o ambiente onde passou quatro dias a tentar o suicídio: cama, bitucas de cigarro, camisinhas usadas, lençóis sujos, objetos em desmantelo. A arte como imagem nua e crua da própria vida, sem meias palavras.
Vanessa Macedo, que assina coreografia e direção de Beije Minha Alma, assinala que My Bed representa uma síntese da obra de Tracey. Vanessa também coloca em pauta outros assuntos explorados pela artista britânica – moralismo, sexualidade, voyerismo –, ainda que a discussão sobre a intimidade seja o eixo do espetáculo. “As questões íntimas que Tracey retrata são as nossas situações, são universais”, diz a coreógrafa. A montagem estréia nesta sexta (16/5) no Centro Brasileiro Britânico, na capital paulista, pela 12ª edição do Cultura Inglesa Festival.
“Tracey é uma artista confessional e ousada, que quebra regras, posiciona-se contra o moralismo. Ela explora o universo feminino como (a pintora mexicana) Frida Khalo (1907-1954), tem uma obra que é um auto-retrato de Frida com o rosto dela”, afirma Vanessa. Fundada em 2002, a Cia. Fragmento inspirou-se na artista mexicana para levar ao linóleo, há dois anos, a coreografia sem voz, sem sono, sem vez. Pode-se concluir, portanto, que a trupe se move pelo recinto de Beije Minha Alma com experiência. A coreógrafa conta que pensa em Tracey há tempos – apresentou projeto de montagem sobre a obra da artista plástica também para o 11º Cultura Inglesa Festival, mas não obteve sucesso e remodelou-o.
A sexualidade surge no espetáculo “de maneira despojada, natural”. “Pode parecer promíscua, mas a sexualidade na obra de Tracey é meio sagrada, ela também trabalha com símbolos religiosos”, relata Vanessa. Por conta de uma cena de nu masculino frontal, Beije Minha Alma recebeu classificação etária de 16 anos. A cena é uma mera provocação? Inexiste a intenção de chocar, mas há uma “preocupação em descortinar a nudez com naturalidade”: “Não dá para falar da obra dela sem o nu, há muitas imagens delas nua”. Soaria moralista, então, tocar na produção da artista britânica sem colocar a nudez em cena? “Não que seja necessário, mas ficaria estranho sem encarar isso com naturalidade.”
Érica Tessarolo, Marcos Buiati, Robson Ferraz e a própria Vanessa formam o elenco de Beije Minha Alma. Adriana Guidote responde pela assistência de direção. A primeira idéia era fazer do espetáculo uma sucessão de solos sobre um tapete, revela a coreógrafa – uma remissão ao “universo solitário de Tracey sobre um tapete, que é um lugar íntimo”. Os quatro solos permaneceram, mas há dois duos, um trio e seqüências de conjunto. O tapete foi conservado, mas Nani Brisque incluiu na cenografia ambiente com cadeiras, TV e vaso com flores.
Também intérprete da Cia. Borelli de Dança – assim como Ferraz –, Vanessa define o território pelo qual a Cia. Fragmento transita como dança teatralizada, amálgama de dança e teatro, uma fusão de elementos diversos que se estruturam como um todo. Influência assumida do trabalho do coreógrafo Sandro Borelli. Sob a Nudez dos Olhos, coreografia que a Cia. Fragmento estreou em março, cumprirá agenda de seis semanas no interior de São Paulo a partir de setembro pelo projeto Sesi Dança 2008.
BEIJE MINHA ALMA. Coreografia e direção de Vanessa Macedo. Com a Cia. Fragmento de Dança. Na Sala Cultura Inglesa do Centro Brasileiro Britânico. Rua Ferreira de Araújo, 741, São Paulo, SP. Fone (11) 3095-4466. Dias 16 e 17/5, às 21h, e 18/5, às 19h. Ingressos devem ser trocados por um livro usado.
Escrito por Mauro Fernando às 15h33
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