A TRILOGIA DE ALICE
Nathalie Colas
 Alice e seu alter ego: cicatrizes
Alice aos 25 anos: uma dona de casa entediada. Alice aos 40 anos: uma mãe resignada. Alice próxima dos 60 anos: uma senhora com uma existência cheia de dores empilhadas. A Trilogia de Alice, peça do irlandês Tom Murphy dirigida por Carlos Gomes, estréia nesta quinta (22/5) no Teatro Cultura Inglesa – Pinheiros, em São Paulo. Martha Meola interpreta a protagonista em três momentos distintos de vida. Eliana César, Evandro Soldatelli e Fábio Tomasini fazem personagens que a rodeiam. A montagem integra o 12º Cultura Inglesa Festival e fica em cartaz até domingo (25/5).
“Trata-se de um texto universal, que fala do ser humano sem colocá-lo em Dublin (capital da Irlanda). Aborda a famíla, um núcleo importante e estranho, e discute o que é Deus, o que é religião”, diz Gomes. O diretor conta que o autor erigiu em A Trilogia de Alice, obra de 2005, “três peças diferentes que têm ligação”: “Na primeira ele é mais obcecado; a segunda é linear; a terceira é fragmentada. Mas a dramaturgia é bem resolvida, o espectador não fica perdido”. E o desfecho é catártico, garante.
Na primeira parte, em meio a uma bagunça num espaço de confinamento, Alice mantém um diálogo bem-humorado com seu alter ego (Eliana). “É um lugar onde ela consegue se libertar em pensamento”, afirma o diretor. “Ela é inteligente, sabe quais são seus problemas. É casada com um homem que não ama, tem vários sonhos. Mas não consegue mudar sua vida apesar das chances que tem.”
A protagonista reencontra seu primeiro amor, Jimmy (Soldatelli), no segundo movimento. “Ela tenta resgatar algo, mas as dores vão se acumulando”, relata Gomes. Um aeroporto, “local de consumo estéril, sem vida”, é o cenário para uma conversa entre Alice e o marido, Bill (Tomasini), na terceira parte. “Sarcástica e amarga” são os adjetivos aplicados a ela nesse momento.
O diretor conta que procurou, em consonância com o texto, dar tratamento estético diferenciado a cada uma das três peças que constituem o todo. “É um espetáculo híbrido. Como o autor, não trabalho com um só estilo. Na primeira parte brinquei de fazer teatro do absurdo. Na segunda há um diálogo naturalista dentro de uma situação surreal, parecido com os filmes de David Lynch (como Veludo Azul e Cidade dos Sonhos). A terceira está ente o absurdo e o surreal.”
A TRILOGIA DE ALICE. De Tom Murphy. Direção de Carlos Gomes. Com Eliana César, Evandro Soldatelli, Fábio Tomasini e Martha Meola. No Teatro Cultura Inglesa – Pinheiros. Rua Deputado Lacerda Franco, 333, São Paulo, SP. Fone (11) 3814-0100. Quinta a sábado, às 21h, e domingo, às 19h. Ingressos devem ser trocados por um livro usado.
Escrito por Mauro Fernando às 11h14
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COMO VOCÊ ME QUER e CADA UM A SEU MODO
Lenise Pinheiro
 Fiéis a Pirandello
A famosa Fulana aparece nua na capa de uma revista masculina; no mês seguinte surge com a filha de 3 anos num paraíso exclusivo de uma revista de celebridades. Qual das duas é a verdadeira: a fêmea que irriga o imaginário masculino ou a mulher que povoa o universo feminino? Ou ambas? Ou nenhuma? Essa dicotomia ser/parecer, realidade/ilusão, rosto/máscara enlaça a sociedade do nosso tempo à obra do siciliano Luigi Pirandello (1867-1936).
Ao desbastar a objetividade das certezas e grifar a subjetividade das possibilidades em meio ao requinte metalingüístico de peças como Seis Personagens à Procura de um Autor, Pirandello demonstrou sua vocação para questionar as coisas do mundo. Sob a direção de Maurício Paroni de Castro, é o que pretendem demonstrar a Cia. Linhas Aéreas e o Atelier de Manufactura Suspeita com o projeto Cada um a seu Modo, que reúne no Teatro João Caetano, em São Paulo, dois textos do autor italiano (Como Você me Quer e Cada um a seu Modo).
“O procedimento pirandelliano funda-se em algumas premissas básicas, assumidas até as últimas conseqüências. Em primeiro lugar, eu posso crer-me alguém, mas sou tantos quantas são as pessoas que me contemplam, já que as imagens não se igualam. (...) Por outro lado, se eu me creio hoje um, essa pessoa não é a mesma de ontem e não será igual à de amanhã. O fluxo da vida pode acumular imagens parecidas, numa mesma linha direcional, mas ninguém estará fixado numa realidade única e imutável”, explica o crítico Sábato Magaldi no livro O Cenário no Avesso. É lícito inferir: a roda da História gira.
Com uma ironia sofisticada e rascante, Pirandello permite perceber em peças que não vêm com data de validade uma visão um tanto pessimista atada à sociedade que se enovelou nos próprios equívocos, à hipocrisia condicionada por relações sociais pautadas pela falsidade. Nutridos pelos próprios sonhos, todos podem viver no mundo enganoso das aparências. Mas esse mundo ilusório cobra seu preço: favorece a incapacidade crítica ao esgarçar a identidade do indivíduo.
O centro do enredo de Como Você me Quer está na mulher que leva uma vida dupla – a frívola Elma ou Lúcia, a esposa desaparecida de Bruno? Motivos financeiros em relação à família de Bruno movem sua busca pela desaparecida. Todos os atores (Alexandre Magno, Fabio Marcoff, Fernanda Moura, Vanderlei Bernardino e Ziza Brisola) interpretam a enigmática mulher em momentos diferentes da montagem, instigando no público a reflexão sobre os dilemas da identidade e das aparências.
Conta-se que Pirandello escreveu Cada Um a Seu Modo inspirado no suicídio de um escultor que surpreendeu a noiva, uma atriz, nos braços de um barão. O jogo metateatral se faz presente: uma companhia encena a peça baseada nos acontecimentos reais quando a atriz e o barão chegam para contestar os personagens neles inspirados. Conforme a ambientação cênica elaborada por Paroni de Castro, Magno, Marcoff, Fernanda, Bernardino, Ziza e Roberto Alencar (que atua apenas nesta montagem), o plano da realidade é representado no fundo do tablado e o da ficção, na frente. O palco, assim, é visto pelo avesso, acentuando a discussão, embutida no texto pirandelliano, sobre uma ética ambígua.
Os recursos antiilusionistas utilizados nos dois espetáculos enfatizam as questões caras ao autor e isolam os contornos melodramáticos das tramas, leitura possível em montagens convencionais – nota-se estar diante de produções que se diferenciam do mercadão teatral. O esforço do homogêneo elenco, que retrabalhou os textos originais, anda em sintonia com as idéias e brincadeiras cênicas de Pirandello.
O programa de Cada um a seu Modo esclarece o subtexto sobre o qual se debruçam a Cia. Linhas Aéreas e o Atelier de Manufactura Suspeita: “A mensagem, amarga, do abaixamento da arte ao nível da exposição indecente de intimidades de famosos ou boçais e o conseqüente arrivismo social e decadência do gosto”. O trabalho das duas companhias, na trincheira dos que ambicionam tornar viáveis as transformações sociais, não é pequeno.
COMO VOCÊ ME QUER. De Luigi Pirandello. Dramaturgia de Cia. Linhas Aéreas e Atelier de Manufactura Suspeita. Direção de Maurício Paroni de Castro. Com Alexandre Magno, Fabio Marcoff, Fernanda Moura, Vanderlei Bernardino e Ziza Brisola. Quartas, às 21h. Até o dia 28. CADA UM A SEU MODO. De Luigi Pirandello. Dramaturgia de Cia. Linhas Aéreas e Atelier de Manufactura Suspeita, com colaboração de Sérgio Yamamoto. Direção de Maurício Paroni de Castro. Com Alexandre Magno, Fabio Marcoff, Fernanda Moura, Roberto Alencar, Vanderlei Bernardino e Ziza Brisola. Quintas, às 21h. Até o dia 29. No Teatro João Caetano. Rua Borges Lagoa, 650, São Paulo, SP. Fone (11) 5573-3774. R$ 20.
Escrito por Mauro Fernando às 17h05
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