SOSLAIO
Eduardo Campos
 Indústria cultural e/ou sociedade do espetáculo em xeque
A Cia. da Mentira surgiu em 2005, com O que Você Foi Quando Era Criança (de Lourenço Mutarelli, direção de Gabriela Flores e Donizeti Mazonas). A segunda montagem do grupo, Soslaio (de Priscila Gontijo, direção de Gabriela e Mazonas), estreou no ano passado e volta ao cartaz nesta sexta, 31/10, dentro da programação do Especial 7 Anos do Teatro do Centro da Terra, em São Paulo.
No limite entre ficção e realidade, Soslaio trata, à primeira vista, de relações familiares viciadas. “São relações apodrecidas, que não conseguem se renovar, nas quais há lugar para agressividade, desrespeito, ironia e sarcasmo, mas também para o amor. São personagens verborrágicas, que têm dificuldade de se relacionar e se protegem com a fala, possuem a palavra como arma”, conta Gabriela. “São pessoas isoladas em suas individualidades”, reforça Priscila.
As personagens estão trancadas numa casa. Tropeço (Mazonas) é um cineasta que há onze anos tenta concluir um filme. Sua mulher, Estela (Priscila), alimentou pretensões artísticas na juventude. Uma de suas cunhadas, Martha (Liana Matheus), está grávida há onze anos – o bebê se recusa a nascer. Ana (Gabriela) retorna após longa ausência a fim de equacionar essas relações. Genérico (Silvio Restiffe) não consegue entrar na casa. Ainda há a outra cunhada de Tropeço, Dulce (Gilda Nomacce).
Além das questões familiares, o espetáculo aborda outras. “Vivemos num mundo sedado, no qual para existir você precisa de 15 minutos de fama. E no qual transbordar é perigoso, você não pode sair da linha”, afirma Priscila. Genérico, relata, é uma metáfora “da dificuldade de encontrar espaço no mundo contemporâneo”: “Quem não tem bilhete vip, carta na manga, senha ou código não consegue acesso aos lugares”. Tropeço representa “a dificuldade de concretizar um trabalho, como os grupos de teatro de pesquisa”.
O título da peça é uma referência “a uma maneira como pessoas se olham, ao olhar de viés, de canto de olho, não direto”, diz Gabriela, e “representa a forma como as personagens se relacionam”. Priscila fala na dificuldade da comunicação: “Em bares e restaurantes há TVs ligadas o tempo todo, o que é uma maneira de pessoas não entrarem em contato. Há uma impotência em sentir o olhar do outro”.
A montagem pisa em terreno onde convivem realismo e expressionismo, e inexiste a preocupação em apresentar uma história linear. “É um drama, mas não nos moldes do realismo burguês. Há uma aproximação com o expressionismo. A idéia é distorcer um pouco os padrões”, revela Gabriela.
Não realista, o ambiente cênico é uma casa transformada em set de filmagem. “Há elementos significativos, como porta e janela, que se configuram como elementos de cena. Tudo é móvel, menos a ilha de edição, na qual Tropeço edita o filme e pela qual controla as mulheres. O tapete vermelho é uma alusão ao glamour do cinema”, relata Gabriela. “Os elementos sugerem idéias, não as explicam.” A intenção, afirma Priscila, “é compartilhar dúvidas”: “Trata-de de uma reflexão, não de um julgamento”.
A programação do Especial 7 Anos do Teatro do Centro da Terra continua em 7 e 8/11, com A Obscena Senhora D (adaptação de Germano Mello e Susan Damasceno para o livro de Hilda Hilst, direção de Mazonas e Rosi Campos, com Suzan em cena). Em 14, 15, 21 e 22/11 é a vez de Homens, Santos e Desertores (de Mário Bortolotto, direção de Fernanda D’Umbra, com Gabriel Pinheiro e Bortolotto).
SOSLAIO. De Priscila Gontijo. Direção de Donizeti Mazonas e Gabriela Flores. Com a Cia. da Mentira. No Teatro do Centro da Terra. Rua Piracuama, 19, São Paulo, SP. Fone (11) 3675-1595. Dias 31/10, às 21h30, e 1º/11, às 21h. R$ 20.
Escrito por Mauro Fernando às 22h07
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HOMEM CAVALO & SOCIEDADE ANÔNIMA
Jonatas Marques
 A opressão nossa de cada dia
Atualmente soa inadequado falar em vanguarda – como expressionismo e surrealismo, que se espalharam pela Europa, ganharam o planeta e mudaram a face do século XX – para designar o que surge de inovador no panorama artístico. Mas pode-se identificar no teatro paulista companhias que apontam novas perspectivas para as artes cênicas ao se relacionar com o espaço cênico de uma maneira diferente da usual.
O Teatro da Vertigem (O Paraíso Perdido, O Livro de Jó, Apocalipse 1,11 e BR-3), a Cia. São Jorge de Variedades (As Bastianas) e a Cia. Triptal (Rumo a Cardiff) são exemplos de grupos que investigam, com êxito, possibilidades fora da caixa cênica tradicional. Com Homem Cavalo & Sociedade Anônima, em cartaz no Arsenal da Esperança (casa que abriga homens em situação de falta de casa, de família, de trabalho), a Cia. Estável se coloca nesse conjunto.
Como se precisasse reverberar que a esquerda está viva, ao contrário do que apregoam os entusiastas do neoliberalismo, a montagem se utiliza de princípios do teatro épico – fragmentação do texto em tom de fábula, solos narrativos – a fim de abordar a exploração do homem pelo homem. Sim, o bom teatro também é uma manifestação política, não apenas uma proposta estética.
As cenas se sucedem em três pontos do Arsenal. Um painel com diversos logotipos sugere a redução do ser humano a mercadoria. O texto brinca com típicos sonhos de consumo. A relação do Sr. Patrão com seu empregado e as cenas dos garis e da classe média (exposta em sua frivolidade e alienação) indicam os vícios a que se entrega uma sociedade guiada por valores individualistas e questionáveis. Além disso, há os significados ocultos de expressões como Cidade Limpa (livre da miséria não por justiça social, mas pela força do Estado autoritário) e Sociedade Anônima (aquela em que a maioria não tem voz).
A diretora Andressa Ferrarezi revela rara coerência na organização da matéria-prima da montagem, colhida pela companhia junto aos desabrigados do Arsenal – a Cia. Estável, dentro do Projeto Vagar não É Preciso, investigou por dois anos a precária situação social dos que passam pela casa de abrigo. Os depoimentos de desabrigados, gravados após um ensaio e inseridos no espetáculo, evidenciam a linha de pesquisa da companhia e jogam luz sobre o pensamento dos artistas que a compõem.
O elenco (Daniela Giampietro, Maria Carolina Dressler, Nei Gomes, Osvaldo Hortencio, Osvaldo Pinheiro e Sandra Santana) demonstra pleno conhecimento técnico. As cenas cômicas da Mulher da Lata e do Bêbado, em especial, suscitam comentários dos homens acolhidos pelo Arsenal que assistem à peça e comprovam a pertinência do trabalho, realizado em consonância com eles. O espaço cênico torna-se, então, agente do espetáculo e não se presta à condição de mero ornamento.
HOMEM CAVALO & SOCIEDADE ANÔNIMA. Texto: criação coletiva. Direção de Andressa Ferrarezi. Com a Cia. Estável. No Arsenal da Esperança. Rua Doutor Almeida Lima, 900, São Paulo, SP. Fones (11) 8708-9563 e (11) 8121-0870. Sábados e domingos, às 19h. (Em dia de chuva não há apresentação.) Ingresso: 1 kg de alimento não perecível. Até 30/11.
Escrito por Mauro Fernando às 22h55
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