COLETIVO DE ARTISTAS INTERMITENTE ABISMO DE SONHOS
Divulgação
 Natália Fernandes e Natália Mendonça: tão próximas e tão distantes
O Coletivo de Artistas Intermitente Abismo de Sonhos não pretende fazer uma revolução cultural, mas experimentar uma forma de criação em dança que abrigue de maneira mais participativa o pensamento artístico de todos os membros de um grupo. Compartilhar idéias com mais franqueza, enfim. O Abismo de Sonhos coloca em cartaz na Feira de Teatro Ventoforte 08, em São Paulo, duas produções: Memorial do Quarto Escuro (sábado, 15/11) e Our Love Is Like the Flowers, the Rain, the Sea and the Hours (domingo, 16/11).
Memorial, que estreou em março no Teatro Municipal de Barueri, é um espetáculo solo de Edson Calheiros dirigido por Nana Pequini. Calheiros, Natália Fernandes, Natália Mendonça e Poliana Lima estão em cena em Our Love e assumem a criação coletiva da montagem, que estreou em agosto no Espaço Maquinaria, em São Paulo, durante a Mostra (In)Dependente de Dança?, iniciativa do Teatro de Paisagem e da Cia. Borelli de Dança. Memorial recebeu apoio do Programa de Ação Cultural (PAC), da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. Our Love é uma produção independente.
“O Coletivo é um apanhado informal de artistas”, explica Calheiros. A intenção é “lidar com a dança que se mistura com o teatro” e “questionar o caminho das formalidades, da arte que se pauta pelos moldes institucionalizados”. “Trabalhamos de forma mais aberta. O Coletivo é um tubo de ensaio para nós, tanto nas temáticas como no modo de fazer (dança). Nós nos encontramos e conversamos muito, já estamos discutindo uma nova produção para o próximo ano. Mas é um trabalho, tanto na rotina como no prazo, mais flexível que o de uma companhia estável, que tem no diretor e/ou coreógrafo uma figura muito forte.”
Os quatro intérpretes de Our Love integram uma companhia estável – Calheiros, a Cia. Borelli; Fernandes, a Cia. Siameses; Mendonça, a j.garcia&cia; Poliana, o P.U.L.T.Z Teatro Coreográfico. Os quatro formam o núcleo atual do Abismo de Sonhos. Colaboradores informais se juntam à trupe: além de Nana, participaram de Memorial Allen Ferraudo (trilha sonora), Gustavo Ayala (cenografia) e Rui Ricardo Dias (iluminação). André Prado assina a iluminação de Our Love.
Confome o Rotunda publicou em 11/3, Memorial confronta valores conservadores da nossa sociedade por meio de três assuntos: família, religiosidade e sexualidade. O espaço individual – e, portanto, íntimo – de um quarto é tomado por memórias da infância que trazem à tona referências à opressão sofrida por quem almeja liberdade plena e trafega na contramão do chamado comportamento de manada, caracterizado pela homogeneização de pensamentos e ações.
Espetáculo inspirado na obra do artista plástico britânico Martin Boyce, Our Love trata de relações humanas. “Boyce tem obras com nomes poéticos mas dentro de uma estética fria e ascética. Exploramos esta aparente contradição: a presença do afeto em um ambiente gélido, praticamente esterilizado de emoções”, diz Calheiros. O extremo pragmatismo que envolve relacionamentos pessoais e profissionais é o alvo. “Vivemos em um mundo que prega o distanciamento e gera relações superficiais. Para se manterem seguras, as pessoas criam no dia-a-dia sistemas de conduta, garantias, e esterilizam o contato com as outras.”
Calheiros relata que no espaço cênico – um local público como uma praça onde há um banco e gavetas que simbolizam “o quanto a gente se guarda nas relações” – transitam “encontros, desencontros, anseios, frustrações”. “Mas, sobretudo, está sempre presente a busca pelo encontro, inerente ao ser humano.” Inexiste uma história com começo, meio e fim: “É um encadeamento de ações”. A iluminação “tem um tom frio, mas não uma frieza crua, quase há uma certa ternura”.
MEMORIAL DO QUARTO ESCURO. Direção de Nana Pequini. Com Edson Calheiros. Dia 15/11, às 21h. OUR LOVE IS LIKE THE FLOWERS, THE RAIN, THE SEA AND THE HOURS. Criação coletiva. Direção de Edson Calheiros. Com Edson Calheiros, Natália Fernandes, Natália Mendonça e Poliana Lima. Dia 16/11, às 20h. No Teatro Ventoforte. Rua Brigadeiro Haroldo Veloso, 150, São Paulo, SP. Fone (11) 3078-1072. R$ 15.
Escrito por Mauro Fernando às 17h01
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