CALÍGULA
João Caldas
 O imperador de Roma: considerações existenciais e humanistas
Calígula, “imperador tirano” e “imperador-artista” na definição do diretor Gabriel Villela, deixou um legado à humanidade que merece atenção. É o que prova a peça Calígula, de Albert Camus (1913-1960), que cuida de esmiuçar a trajetória do imperador romano para além das proverbiais extravagâncias e crueldades e estréia no dia 28/11 no Teatro Paulo Autran (Sesc Pinheiros). Thiago Lacerda é o protagonista.
O mergulho de Calígula no caminho das possibilidades humanas principia com a morte de sua irmã e amante, quando toma consciência da própria condição efêmera. O imperador de Roma conhece a solidão no primeiro ato. No segundo, no exercício do poder, aprofunda sua relação com os outros homens sob o argumento de que a liberdade real não possui limites. Experimenta a sensação de igualar-se aos deuses – e de superá-los – no terceiro. No último cria um diálogo com a morte.
Ao lado de Jean-Paul Sartre (1905-1980), Camus popularizou na França o chamado drama filosófico – investigações sobre a situação do homem contemporâneo num mundo complexo, de que interpretações simples não dão conta. Camus escreveu romances (O Estrangeiro, A Peste, A Queda), ensaios (O Mito de Sísifo) e peças (O Mal-Entendido, Calígula, Estado de Sítio, Os Justos). Abaixo, entrevista com Villela concedida por e-mail.
Escrito por Mauro Fernando às 16h17
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CALÍGULA
João Caldas
 Thiago Lacerda e Magali Biff: liberdade irrestrita
ROTUNDA – Qual sua motivação para encenar Calígula? GABRIEL VILLELA – Calígula, O Mito de Sísifo, O Mal-Entendido e Estado de Sítio foram textos que estudamos nos primeiros anos de ECA-USP. Meu colega de classe William Pereira fez uma belíssima montagem do sombrio O Mal-Entendido. Apaixonamo-nos pelo Camus no coletivo. Como sou capricorniano e teimoso, esperei duas décadas para fazer essa montagem.
ROTUNDA – Há coincidências entre o momento histórico em que ela foi escrita e os tempos atuais? VILLELA – Sob o ponto de vista mítico (o mito de Sísifo), não há novidades, tudo se repete, como uma monotonia musical.
ROTUNDA – De que trata a peça? VILLELA – É um texto alegórico com textura realista, mas trata da profunda dor humana que á de nascer, crescer, morrer e não conseguir ser feliz.
ROTUNDA – Ela fala sobre liberdade ou autoritarismo? VILLELA – Em vários momentos ela trata do tema liberdade sob as vistas do imperador tirano.
ROTUNDA – É uma especulação sobre a presença do homem na terra? VILLELA – Tenho a impressão que sim. Aliás, toda peça de teatro que conheço trata desse tema.
ROTUNDA – A solidão proveniente da perda do ser amado, o exercício do poder, o sentimento (irreal ou não) de ser uma divindade e a morte como alívio para o tédio são assuntos abordados na peça? VILLELA – São estes os principais temas sugerido pelo Camus, mas a morte não é alívio pro nosso imperador-artista, é só o recomeço. Ele (Calígula) encerra a peça, depois de morto e brutalmente assassinado por Chereas, erguendo-se e dizendo “Ainda estou vivo”...
ROTUNDA – Calígula pode ser considerado teatro de tese? Camus converte o palco em instrumento de afirmações político-sociais? VILLELA – Não posso afirmar que é teatro de tese porque seria tão chatinho se fosse... Mas é uma peça sobre um “suicida superior”. É um teatro de idéias, como as obras gregas revisitadas por Sartre no mesmo período.
ROTUNDA – Onde entra a questão ética em Calígula? VILLELA – A ética histórica reporta-se à Roma pagã. Mas as reflexões existenciais e humanistas dizem respeito à Europa de duas grandes guerras mundiais. É o mundo da poesia de olho no cogumelo atômico de Hiroshima.
ROTUNDA – É uma peça otimista ou pessimista? Por quê? VILLELA – É uma peça niilista.
ROTUNDA – A montagem apresenta o texto original, em quatro atos? VILLELA – Sim, com pequenos cortes e sem intervalos. São 90 minutos de espetáculo.
CALÍGULA. De Albert Camus. Tradução de Dib Carneiro Neto. Direção de Gabriel Villela. Com Thiago Lacerda, Pascoal da Conceição, Magali Biff, Rodrigo Fregnan, Pedro Henrique Moutinho, Jorge Emil e Ando Camargo. No Teatro Paulo Autran (Sesc Pinheiros). Rua Paes Leme, 195, São Paulo, SP. Fone (11) 3095-9400. Sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 18h. R$ 5 a R$ 20. De 28/11 a 21/12/08 e de 08/01 a 22/02/09.
Escrito por Mauro Fernando às 16h11
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