A COLEIRA DE BÓRIS
Divulgação

Combater o bom combate
A maioria das melhores peças em cartaz no circuito paulistano está em salas pequenas, de platéias diminutas. Circunstâncias de produção - verba parca ou nula para quem não tem o rosto exposto na mídia, conforme a cartilha neoliberal - levam os artistas a procurar soluções criativas a fim de superar a asfixia financeira e apresentar um trabalho consistente.
É certo que investimento e capital de giro reduzidos - para brincar com jargões do noticiário econômico - não garantem a qualidade proveniente da criatividade, mas há espetáculos que justificam a teoria segundo a qual a excelência não está na grandiloqüência que escamoteia encenações frouxas. A Coleira de Bóris, no Espaço dos Satyros Dois, se encaixa nesse parâmetro, o do bom teatro que não se apequena por não se entregar ao pejorativo "palatável ao gosto médio".
Dois personagens sem nome, identificados por A (Nicolas Trevijano) e B (Rafael Losso) pelo dramaturgo Sérgio Roveri, estão confinados em um espaço indeterminado. Que pode ser uma cárcere político, uma cela comum, um hospital psiquiátrico ou mesmo uma prisão interna - dirigida por Marco Antonio Rodrigues, a montagem não se fecha em uma única leitura.
B confessa ter sido levado ao confinamento, onde A se encontra há um bom tempo, por tentar "atravessar para o lado de lá". Ao dizer "Eu o condenaria por acreditar que existe alguma coisa que valha a pena do outro lado", A põe as cartas sobre a mesa. Estamos diante de um embate entre a utopia que faz a pessoa se mover mas parece inatingível e a resignação que pode levar à auto-indulgência e, por extensão, à anulação de si próprio.
B planeja a fuga, atitude da qual A desdenha. Roveri faz dessas figuras diametralmente opostas, desse choque de contrários, a matéria-prima para uma rica discussão sobre liberdade e cegueira social. "Qual o limite de violações sociais que um indivíduo (...) pode cometer ao mesmo tempo sem que isto se constitua em uma ameaça social?", questiona Rodrigues no programa da peça.
Ao longo do espetáculo, A e B passam por um processo de degradação física, mutilações que simbolizam as castrações e as frustrações que os torturam - uma contribuição do diretor ao texto. Rodrigues e os atores - louve-se o trabalho de preparação corporal - imprimem à montagem a intensidade e a visceralidade capazes de gerar a transcendência que separa o teatro de cores vivas e entusiasmado do teatro pálido e padronizado.
O autor e o diretor foram indicados para o Prêmio Shell. Roveri recebeu o Shell de 2007 por Abre as Asas Sobre Nós; Rodrigues, o de 2003 por Otelo, considerado pela Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) um dos seis melhores espetáculos daquela temporada. Abaixo, dois trechos de A Coleira de Bóris.
Escrito por Mauro Fernando às 08h35
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