MUKHTARAN - ENSAIOS SOB A GUERRA
Divulgação

Reflexão sobre a humanidade
Maíra Dvorek não se lembra bem quantas vezes apresentou o espetáculo solo Mukhtaran - Ensaios sob a Guerra, que estreou há quatro anos - foram diversos espaços na capital e no interior de São Paulo. Nesta terça-feira, 16/12, ela recoloca a peça em cartaz, desta vez no Pátio dos Coletores de Cultura - Paidéia, na capital.
Sob a direção de Eugênia Thereza de Andrade, sua mãe, Maíra interpreta seis mulheres em diferentes contextos. O que há em comum entre as personagens "é o fato de que elas ultrapassaram os limites da dignidade", afirma a diretora. Uma das personagens é Mukhtaran, paquistanesa que depois de sofrer um estupro deveria, de acordo com os costumes, suicidar-se para limpar a honra da família mas optou pela vida - publicada no jornal The New York Times, a história foi reproduzida no Brasil.
Outra personagem, também extraída da mídia, é a soldado do exército dos Estados Unidos Lynndie England, que apareceu em fotos humilhando prisioneiros iraquianos em Abu Ghraib durante a invasão em 2003. Uma terceira foi pinçada da peça O Interrogatório, de Peter Weiss, sobre as atrocidades cometidas no campo de concentração de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial. A diretora e a atriz costuraram textos próprios ao de Weiss e a um poema de Bertolt Brecht, A Infanticida Maria Farrar.
O monólogo possui um caráter humanista. "Mukhtaran não é um espetáculo depressivo, ele fala sobre guerra, opressão e diferença de classes (sociais) de um jeito transformador. A peça trata de situações extremas. A guerra, infelizmente, é um assunto universal. O homem faz guerra e arte desde que é homem", diz Maíra. "Não há catarse em Mukhtaran, que não é um espetáculo pessimista nem depressivo. Ele remete à luta. Aponta para a resistência porque na depressão não existe um estado de ação", confirma Eugênia.
A montagem desafia o embotamento de consciências com o mérito de não ser panfletária. "Não julgamos as personagens. Nem Maria Farrar, uma mulher pobre que matou seu filho", relata a atriz. "Tivemos a preocupação de não colocar uma ‘moral da história'." A grande dificuldade, segundo Maíra, foi fazer a transição entre as personagens (baseada em alterações no uso do corpo e da voz e na transformação de elementos cênicos) sem deixar que a interpretação caísse no melodramático e no piegas - e muito menos no maniqueísmo.
A concepção do espetáculo, explica a diretora, é brechtiana. "Usamos recursos que levam a pessoa a ser tocada emocionalmente e a refletir. Brecht toca o coração e a consciência." Ao mesmo tempo, a atriz utiliza princípios stanislavskianos na construção das personagens. "Para (Constantin) Stanislavski, o ator deve trabalhar com emoções genuínas, entrar em contato com sua sinceridade. É um engano achar que um Stanislavski bem feito tem de levar à catarse, como uma sessão de candomblé", diz Eugênia.
MUKHTARAN - ENSAIOS SOB A GUERRA. Concepção e dramaturgia de Eugênia Thereza de Andrade e Maíra Dvorek. Direção de Eugênia Thereza de Andrade. Com Maíra Dvorek. No Pátio dos Coletores de Cultura - Paidéia. Rua Darwin, 153, São Paulo, SP. Fone (11) 5522-1283. Dia 16/12, às 20h. R$ 3 a R$ 12.
Escrito por Mauro Fernando às 09h42
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