A NOITE DO BARQUEIRO
Arnaldo Torres

Autoconhecimento versus conquistas materiais
ROTUNDA - Qual sua motivação para escrever A Noite do Barqueiro? A peça foi escrita especialmente para Helio Cicero comemorar 30 anos de carreira?
SAMIR YAZBEK - Minha motivação foi investigar o impasse do homem idealista ao se deparar com a brutalidade de uma realidade que o contraria. Também queria retomar a possibilidade de criar um texto poético. Para isso me utilizei da metáfora, tanto no plano da fábula quanto das falas. A peça já existia antes de eu começar a trabalhar com o Helio. Mas a nossa parceria é sempre cheia de estímulos e surpresas. Helio fez de A Noite do Barqueiro a sua peça, se colocando em cada palavra, em cada atmosfera, em cada acontecimento. Mais do que comemorar trinta anos de carreira, foi o nosso encontro artístico que conduziu esse processo.
ROTUNDA - De que trata a peça? É uma especulação sobre a presença do homem na terra?
YAZBEK - A Noite do Barqueiro é uma tentativa de criar uma mitologia própria para mergulhar na psique do homem contemporâneo. A metáfora se realiza através da trajetória de um barqueiro que, por conta de um acidente, interrompe uma viagem que faria a um farol do outro lado do continente. O enredo acompanha a transformação desse personagem, a princípio um semideus, em homem, através da sua consciência. A peça estrutura-se em "estações", que representam as etapas que o personagem deve passar até perceber que sua travessia tem mais a ver com autoconhecimento do que com conquistas materiais.
ROTUNDA - Onde a questão ética, temática que acompanha seus trabalhos, se encaixa em A Noite do Barqueiro?
YAZBEK - Pelo menos duas características fazem do personagem de A Noite do Barqueiro um prolongamento dos personagens de outras peças minhas: a honestidade na busca pelo sentido da vida e a coragem de enfrentar os percalços que surgem nessa direção.
ROTUNDA - Sobre a direção: em que esse exercício interfere na produção dramatúrgica?
YAZBEK - Escrever e dirigir são facetas de um só fenômeno, que é recriar a vida em sua plenitude.
ROTUNDA - Espetáculo solo implica necessariamente em solilóquio? Como fugir dessa armadilha, já que o público pouco acostumado com monólogos tende a considerá-los enfadonhos antes mesmo de entrar no teatro? Evitar essa arapuca é um trabalho de direção ou de dramaturgia?
YAZBEK - A Noite do Barqueiro é um coração exposto aos olhos do público. Helio Cicero faz a personagem com uma sinceridade e delicadeza como poucas vezes vi em nosso teatro. Além do mais, acredito que a temática do texto é pungente para quem reconhece no teatro uma oportunidade de aprofundar as questões e dilemas da condição humana. Não acredito que uma peça afaste o público por ser monólogo, mas por não ser boa. E eu espero sinceramente que a nossa seja uma experiência inesquecível para o espectador.
A NOITE DO BARQUEIRO. Texto e direção de Samir Yazbek. Com Helio Cicero. No Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822, São Paulo, SP. Fone (11) 3340-2000. Sábados, às 20h, e domingos, às 18h. R$ 5 a R$ 15. Até 15/2.
Escrito por Mauro Fernando às 17h56
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