RÉQUIEM
Pablo Ferreira

Priscilla Herrerias, Fernanda Viacava e uma especulação sobre a existência
O dramaturgo e diretor israelense Hanoch Levin (1943-1999) concebeu Réquiem a partir deste conceito inexorável: sem morte não há vida. O fio condutor da peça é o Velho, que percorre uma estrada onde mortes, nascimentos, chegadas, partidas - as encruzilhadas da existência, enfim - o acompanham. Sob a direção de Francisco Medeiros, Réquiem estreia no Centro Cultural São Paulo na terça-feira (27/1). Sete atores (André Blumenschein, Chico Carvalho, Dinah Feldman, Fabricio Licursi, Felipe Schermann, Fernanda Viacava e Priscilla Herrerias) interpretam 12 personagens em 15 cenas curtas.
Medeiros refuta a ideia de que o texto seja pessimista ou niilista. "Não existe desencanto nem desânimo, mas um olhar franco. A peça pode ser lida como uma aventura repleta de perdas e ganhos, dias e noites, encontros e desencontros", afirma. "A morte é um tema complexo que invariavelmente nos tira do eixo. Nunca é uma experiência corriqueira e pode gerar pânico ou serenidade, mas sempre provoca altos questionamentos." Para Priscilla, "quanto mais olhamos para a morte, mais encontramos a vida". Dinah concorda: "Quando começamos a questionar a morte, perguntamos pelos valores da vida".
Na opinião do diretor, a iniquidade presente no planeta - conflitos étnicos, injustiças sociais - moveu a sensibilidade de Levin. A vontade de anular "o tormento que resulta dessa paisagem" transformou-se no alimento do autor. "É impossível para o artista ser sereno diante disso. Essa luta, que nos mantém vivos, vem da perspectiva de mudar o mundo. Falo em luta e não em guerra, que pressupõe o extermínio do outro. Tenho até um certo constrangimento de dizer ‘quero mudar o mundo' porque parece que isso não tem mais sentido, mas não me sinto falando sozinho".
Personagens como a Velha, a Mãe, o Cocheiro, bêbados e prostitutas estão no percurso do Velho, interpretado por Carvalho. Priscilla se encarrega de uma prostituta e da Mãe. "Os bêbados e as prostitutas, que representam a vida mundana, trazem comicidade à peça e contrastam com outras personagens. A Mãe tem 17 anos e perde um filho de 6 meses. Na plenitude da juventude, fica atônita pela perda", afirma. A Velha está sob responsabilidade de Dinah. "A Velha tem uma relação de 50 anos com o marido. Apesar de serem pobres, vivem numa miséria que não tem a ver com dinheiro, mas com afeto e atenção", revela.
Priscilla lembra que o autor escreveu Réquiem inspirado em três contos do dramaturgo e escritor russo Anton Tchekhov (1860-1904), que desafiou as convenções do teatro com as peças A Gaivota, As Três Irmãs, Tio Vânia e O Jardim das Cerejeiras. "Levin foi um autor de esquerda. Assim como Tchekhov, acreditava em um futuro melhor", relata. "Uma das características de Levin é sua peculiar radicalidade, ele não fazia concessões. Dirigiu os últimos ensaios de Réquiem do leito hospitalar, já sabendo que tinha um câncer em estado irreversível", conta Medeiros.
RÉQUIEM. De Hanoch Levin. Tradução de Priscilla Herrerias, com a colaboração de Dinah Feldman, Francisco Medeiros, Lilian Froiman e Pablo Ferreira. Direção de Francisco Medeiros. Com André Blumenschein, Chico Carvalho, Dinah Feldman, Fabricio Licursi, Felipe Schermann, Fernanda Viacava e Priscilla Herrerias. No Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000, São Paulo, SP. Fone (11) 3397-4000. Terças a quintas, às 21h. R$ 10 (R$ 2 em 3/2). De 27/1 a 5/3.
Escrito por Mauro Fernando às 20h51
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