SAPATOS BRANCOS
Gil Grossi 
Tradição e contemporaneidade O coreógrafo Luis Ferron conta que se apaixonou pelas evoluções do casal mestre-sala e porta-bandeira na avenida ainda quando criança. Em 2000 foi convidado para ser o mestre-sala da Unidos da Vila Alice, agremiação de Diadema (SP) – neste ano ele fará seu décimo desfile. Essa paixão levou Ferron a conceber Sapatos Brancos, espetáculo que permanece em cartaz na Sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo até domingo (15/2).
Com a montagem, Ferron pretende discutir assuntos culturais. “O Carnaval implica na questão da construção da identidade brasileira”, afirma. “Os festejos carnavalescos existem na Europa desde o século XII. Em contexto diferente do nosso, é claro. Aqui no Brasil o Carnaval nasce do encontro entre as culturas negra e européia”. Uma vez que “os sapatos brancos representam a aculturação do negro”, ele indaga “se não estamos neglicengiando nossa matriz cultural”: “Que identidade é essa? Somos filhos de bandeirantes? Quem somos nós?”
O coreógrafo concorda com quem diz que o Carnaval está se afastando das próprias origens e que os desfiles das escolas de samba resumiram-se a um evento midiático: “Colocamos essa ideia na montagem. O Carnaval está voltado para patrocinadores e consumidores. Hoje vemos atrizes e modelos assumindo o posto de rainhas das baterias, tomando o lugar das cabrochas das comunidades. Assim, começa-se a anular a tradição”.
Ferron arquitetou um espetáculo híbrido na linguagem, baseado na dança contemporânea e no imaginário e no ritual contidos nos passos do casal que “apresenta, conduz e defende um pavilhão, que é o símbolo máximo de representação de uma sociedade”. “Há signos que levam o público a perceber sincretismos e tradições pertinentes à cultura brasileira. As pessoas verão na construção cênica signos que permeiam essa matriz da nossa cultura marcada pelo hibridismo. Existem cenas corporais e musicais que dão pistas disso”, sintetiza.
O elenco de intérpretes-criadores (Jorge Luis Nascimento, Ferron, Maurici Brasil, Mestre André, Mestre Ednei Mariano, Tony Siqueira e Zélia de Oliveira) não é simplesmente ligado ao Carnaval. “Eles são do Carvaval”, informa o coreógrafo. Sapatos Brancos estreia nesta quarta (11/2) em palco, mas já passou por escolas (Barroca Zona Sul, Camisa Verde e Branco, Rosas de Ouro e Unidos de São Lucas), por CEUs (Rosa da China e São Rafael), pelo corredor térreo da Galeria Olido e pela lona circense do Arsenal da Esperança.
SAPATOS BRANCOS. Concepção e direção de Luis Ferron. Com Jorge Luis Nascimento, Luis Ferron, Maurici Brasil, Mestre André, Mestre Ednei Mariano, Tony Siqueira e Zélia de Oliveira. No Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000, São Paulo, SP. Fone (11) 3397-4000. Quarta a sábado, às 19h30, e domingo, às 18h30. Entrada franca.
Escrito por Mauro Fernando às 17h37
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