PROJETO HOMENS AO MAR
André Garolli 
Zona de Guerra: impacto e prêmio André Garolli resolveu abandonar definitivamente a Engenharia e, convicto, abraçar o Teatro em 1993, quando entrou no Programa de Demissão Voluntária da empresa na qual trabalhava e ingressou, como ator, no Grupo Tapa. Antes disso, rodara festivais amadores dirigindo peças de Molière e de William Shakespeare e enfrentando o juízo de autoridades teatrais como Sebastião Milaré. Aprendeu muito, reconhece: “Foi uma grande escola antes de entrar no Tapa”.
Da Engenharia, Garolli trouxe alguns ensinamentos – ao contrário do que possa parecer, ela não se mostrou totalmente inútil no universo do tablado. “Até hoje me pergunto qual a razão da Engenharia na minha vida. Mas ela serviu para que eu entendesse melhor a geometria do palco, a disposição dos atores.”
Com a Cia. Triptal, Garolli caminhou pelas veredas da direção em peças de Maria Clara Machado – a primeira, A Menina e o Vento, em 1994 – até chegar a Eugene O’Neill, autor de Longa Jornada Noite Adentro, Electra Enlutada e Desejo sob os Olmos. E sempre em paralelo com a atuação em montagens do Tapa, como O Noviço (de Martins Pena, direção de Eduardo Tolentino de Araújo), e em espetáculos como Caixa 2 (de Juca de Oliveira, direção de Fauzi Arap).
O reconhecimento chegou com as chamadas “peças do mar” de O’Neill, o conjunto de textos que o dramaturgo estadunidense escreveu no princípio de sua trajetória baseados em sua experiência de marinheiro mercante e que revelam inequívocas preocupações sociais. Garolli montou quatro delas – Rumo a Cardiff (2003), Luar Sobre o Caribe (2004), Zona de Guerra (2006) e Longa Viagem de Volta para Casa (2007) –, formando o Projeto Homens ao Mar.
O diretor foi indicado para o Prêmio Shell por Cardiff em 2006, quando da remontagem em caráter profissional – a peça nasceu com um tom didático, de uma oficina do Tapa, com elenco reforçado por Tony Giusti e Zécarlos Machado. André Luis Lima ganhou pela música, e a Triptal ainda foi indicada pelo cenário. Zona de Guerra foi eleito pela Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) um dos quatro melhores espetáculos da temporada. Bete Dorgam, Eduardo Agni, Lucia Gayotto, Ricardo Rizzo e Tiago Antunes, pela preparação de atores, concorreram ao Shell na categoria especial.
Ainda que a crítica tenha interposto reparos, como Sérgio Salvia Coelho, na Folha de S.Paulo, apontou em relação a Zona de Guerra – “um naturalismo um pouco datado” –, Garolli trata Homens ao Mar como “um projeto vitorioso”. “É óbvio que não tinha a pretensão de sucesso de público porque não se trata de um tema digestivo”. diz. A espinhosa vida no mar, vista como um questionamento do ser humano, não é assunto fácil para paladares comuns. “Mas prêmios dão prestígio, e houve o reconhecimento da classe.”
Cardiff, Zona de Guerra e Longa Viagem atravessaram o continente em janeiro – o festival A Global Exploration: Eugene O’Neill in the 21st Century, no Goodman Teatre, em Chicago, recebeu a companhia. A internet aproximou a Triptal do festival. “O diretor artístico do Goodman, Robert Falls, que organizou o festival, viu imagens nossas no YouTube e enviou uma mensagem em janeiro do ano passado perguntando se eram as ‘peças do mar’. Ele achou curioso o interesse de brasileiros naquelas que são considerados textos menores de O’Neill. Começamos a trocar ideias e a discutir O’Neill nos dias de hoje”, relata Garolli. “Quando o primeiro e-mail dele chegou, pensei que fosse uma brincadeira.”
Em agosto, Garolli e a produtora Carla Estefan foram para Chicago e fecharam a proposta de levar a trilogia, que lá aportou sem que as ideias originais – espaço cênico, figurinos, iluminação, música – fossem alteradas. Foram sete apresentações de Zona de Guerra, seis de Longa Viagem e cinco de Cardiff, todas em português, conta Garolli. “Em Zona de Guerra e Longa Viagem projetamos legendas, mas como eles não estão acostumados a elas distribuímos um resumo em inglês, como um libreto de ópera, para as apresentações de Cardiff.” A companhia arrancou elogios do Chicago Tribune. Sobre Cardiff, por exemplo, em texto de Chris Jones: “Algumas das imagens aqui são inesquecíveis”.
Embora a Triptal tenha encerrado o Homens ao Mar, há convites de dois teatros paulistas para a trilogia e negociações para apresentações em Los Angeles e Saint Louis, afirma o diretor. Zona de Guerra foi para a TV em 2007: em parceria com o SescTV, a Cultura produziu a transposição (sob a direção de Garolli) da montagem para a linguagem da telinha dentro do Projeto Direções – Por um Novo Caminho na Teledramaturgia. No ano passado, Garolli dirigiu para o mesmo projeto A Longa Viagem, uma síntese de Cardiff, Luar Sobre o Caribe e Longa Viagem.
Escrito por Mauro Fernando às 17h47
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