O QUARTO e COMUNICAÇÃO A UMA ACADEMIA
Edson Kumasaka 
Juliana Galdino: primata em ação O risco é inerente ao fazer teatral – ou, pelo menos, deveria ser. Em oposição ao trabalho convencional, o experimental promove a faísca que impulsiona a arte – seja na linguagem que for – rumo ao novo, em conformidade com as transformações da sociedade. A convenção pode fazer a caixa registradora trabalhar com mais rapidez, mas não explora a linguagem o suficiente a ponto de provocar indagações pertinentes sobre a maneira que vivemos.
Grupo fundado pela atriz Juliana Galdino e pelo diretor Roberto Alvim, o Club Noir está em cartaz em São Paulo com duas peças que trazem o risco em seu bojo. O Quarto, de Harold Pinter, permanece no Club Noir até 29/3 e Comunicação a uma Academia, de Franz Kafka, fica no Teatro Imprensa até 20/5.
O que chama a atenção em O Quarto, logo à primeira vista, é a radicalidade da encenação, a evidente rejeição ao naturalismo que transmite uma sensação de renovação do panorama cênico. Um poder de ataque que surpreende a defesa da equipe da estagnação teatral, afeita à retranca.
Assinada por Alvim, a eficiente iluminação ajusta-se à técnica indiscutível de Juliana, que brinca com modulações e entonações, pausas e andamentos para edificar uma atuação que brilha em meio ao palco vazio. Forma-se, então, uma atmosfera singular, capaz de gerar no espectador a interrogação que move o pensamento.
A sinopse, assim, perde importância diante do eficiente trabalho de pesquisa de linguagem. Em todo caso, à ela: Rose (Juliana) se vê encurralada em seu aposento por Sr. Kidd (Rodrigo Pavon), Sr. Sands (Gê Viana) e Sra. Sands (Lígia Yamaguti), uma metáfora para as ameaças exteriores ao quarto de cada um.
Embora o diretor provoque uma discussão sobre a necessidade de diálogo com platéias acostumadas somente às artes cênicas de índole industrial, presta melhores serviços ao teatro que qualquer comédia de gabinete de digestão fácil. Se transferíssemos esse debate para a literatura, poderíamos falar, por exemplo, sobre as díspares contribuições que Raduan Nassar e Paulo Coelho já deram às letras.
Comunicação a uma Academia também se encaixa na seara do teatro experimental, aquele que expande os limites da linguagem. No conto de Kafka, um macaco explica aos membros de uma academia como incorporou, pela imitação, atitudes humanas – sucessivamente: cuspir, fumar, beber e falar, até adquirir “a cultura média de um europeu”.
Um tom soturno, característico da obra kafkiana, sustenta o espetáculo. Isso, no entanto, não impede que Juliana – numa atuação de rara intensidade – aplique um conjunto de nuances e traga à tona ironias escondidas no texto, que chegam ao terreno do sarcasmo e revelam um tanto da natureza humana.
Uma cabeça de cervídeo empalhada, símbolo da supremacia do Homo sapiens sobre as outras espécies, ilumina a metáfora do processo de adestramento cultural a que muita gente se submete (conscientemente ou não) para emergir na sociedade do espetáculo e pertencer à ideologia dominante. A discreta porém significativa presença de Gê Viana em cena, como um guarda, enriquece a montagem.
O QUARTO. De Harold Pinter. Direção de Roberto Alvim. Com Juliana Galdino, Lígia Yamaguti, Gê Viana e Rodrigo Pavon. No Club Noir. Rua Augusta, 331, São Paulo, SP. Fones (11) 3257-8129 e (11) 3258-8111. Sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 20h. R$ 10. Até 29/3.
COMUNICAÇÃO A UMA ACADEMIA. De Franz Kafka. Direção de Roberto Alvim. Com Juliana Galdino e Gê Viana. No Teatro Imprensa. Rua Jaceguai, 400, São Paulo, SP. Fone (11) 3241-4203. Terças e quartas, às 21h. Ingressos: uma lata de leite em pó (até 31/3); R$ 10 (de 1º/4 a 20/5). Até 20/5.
Escrito por Mauro Fernando às 08h58
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