HOTEL LAUTRÉAMONT - OS BRUSCOS BURACOS DO SILÊNCIO
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Transposição da poética de Lautréamont para o palco Nascido em Montevidéu – seu pai, um diplomata francês, na época servia no Uruguai –, o poeta Isadore Ducasse (1846-1870) viveu numa França conturbada, em meio a campanhas militares e distúrbios sociais. Morreu num hotel parisiense em circunstâncias nunca esclarecidas. Considerado precursor do surrealismo, adotou o pseudônimo Conde de Lautréamont e publicou em 1869 Cantos de Maldoror, obra marcada pelo uso do recurso do zoomorfismo, ato de representar a forma de um animal.
Dirigida por João Andreazzi, a Cia. Corpos Nômades estreia nesta sexta (20/3) Hotel Lautréamont – Os Bruscos Buracos do Silêncio em sua sede, O Lugar, em São Paulo. “Lautréamont coloca o ser humano em situação de sarcasmo e ironia em relação à crueldade que tem com si mesmo”, afirma Andreazzi. O diretor enxerga em Cantos de Maldoror, “obra maldita e provocativa, de devaneio e rebeldia”, uma chance de investigar, sob a chave da dança contemporânea, as “possibilidades existenciais dos seres que habitam a solidão”.
Os seis intérpretes (Aldiane Dala Costa, João Pirahy, Mariana Mantovani, Ricardo Silva, Tiago Teles e o próprio Andreazzi) trabalham com um conceito que o diretor chama de coreodramaturgrafia, cuja tônica é a interação do corpo com o espaço cênico. Coreografia e dramaturgia mesclam-se e se utilizam dos corpos e das vozes dos intérpretes e dos objetos cênicos para organizar no palco e reverberar a poética turbulenta de Lautréamont. “A ideia do corpo nômade é de não se viciar, não se contaminar negativamente”, diz Andreazzi.
A gestação de Hotel Lautréamont, conta o diretor, começou em julho, quando a companhia mantinha em cartaz O Barulho Indiscreto da Chuva. Esse espetáculo, a participação do tradutor de Lautrémont, Claudio Willer, no processo de criação, os cursos de formação em dança contemporânea no Lugar e os improvisos em sala de ensaio alimentaram a nova montagem. A companhia nasceu em 2000 – seu trabalho de pesquisa ganhou dois prêmios da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), em 2000 e em 2005.
HOTEL LAUTRÉAMONT – OS BRUSCOS BURACOS DO SILÊNCIO. Concepção geral, direção e coreodramaturgrafia de João Andreazzi. Com a Cia. Corpos Nômades. O Lugar. Rua Augusta, 325, São Paulo, SP. Fone (11) 3237-3224. Sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 20h30. Entrada franca. Até 26/4.
Escrito por Mauro Fernando às 12h18
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CHAPETUBA F.C.
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A paixão nacional segundo Vianinha Depois de se formar na Escola de Arte Dramática (EAD), José Renato fundou em 1953, em São Paulo, o Teatro de Arena. Com Sérgio Britto no elenco, Renato dirigiu Esta Noite É Nossa, de Sttaford Dickens, no Museu de Arte Moderna (MAM), que então funcionava no prédio dos Diários Associados, na Rua 7 de Abril. A casa própria, na Rua Teodoro Baima, foi apresentada à imprensa em 1954.
Décio de Almeida Prado, em O Teatro Brasileiro Moderno, relata que o Arena ganhou maior projeção quando a ele se juntaram Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006) e Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha (1936-1974). O primeiro “sucesso completo, maciço, de imprensa e de bilheteria”, veio em 1958 com Eles não Usam Black-Tie, texto de Guarnieri dirigido por Renato.
O Arena comandado por Renato estabeleceu no Brasil uma nova disposição cênica – elenco no centro e espectadores ao redor –, o que levou “a uma reformulação completa das relações quer entre os atores em cena, quer entre estes e o público”. Com a chegada de Boal, Guarnieri e Vianinha, o Arena revolucionou a dramaturgia nacional ao ventilar no teatro a discussão sobre questões sócio-políticas brasileiras.
Em relação ao Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), o paradigma da época, “a grande originalidade” do Arena “era não privilegiar o estético, não o ignorando mas também não o dissociando do panorama social em que o teatro deve se integrar”. Chapetuba F.C., peça de Vianinha dirigida por Boal – Renato estava na Europa com uma bolsa de estudos –, sucedeu em 1959 o êxito de Eles não Usam Black-Tie.
Arena Conta Zumbi (1965) e Arena Conta Tiradentes (1967) – nas quais Boal solidificou o Sistema Curinga, que fomenta uma comunicação cerebral com a platéia – também marcaram a cena brasileira. Assim como o Seminário de Dramaturgia, elaborado em 1958 para, a partir de análises e debates, estudar as realidades artística e social brasileiras e estimular jovens autores. Antes de extinguir-se no início dos anos 1970 – e deixar o mítico espaço da Teodoro Baima –, o Arena mantinha dois núcleos de criação.
Em 2007 e 2008, sob a administração da Fundação Nacional de Artes (Funarte), o Teatro de Arena passou por mais uma de suas várias reformas. Chapetuba F.C. foi escolhida para a reinauguração, que se deu em novembro. A Renato coube a direção. A montagem reestreia na sexta-feira (20/3).
Vianinha coloca em cena um pequeno time de futebol do interior, o Chapetuba, que busca o acesso à divisão principal. Às vésperas da partida decisiva, surgem indícios de negociação do resultado. Um empresário penetra na pensão onde os jogadores se concentram; o goleiro titular aparece contundido e seu reserva é inexperiente; o craque da equipe deseja reviver seus dias de glória em um grande clube; a mulher de um dos zagueiros está prestes a parir.
Em meio a esse turbilhão de sentimentos e interesses, o sonho coletivo parece desmanchar-se em função de benefícios individuais. “A peça permanece atualíssima”, afirma o diretor, “porque as relações humanas em que Vianinha se aprofundou, os defeitos e as virtudes das personagens, continuam válidas”.
“O futebol, paixão nacional, torna-se o símbolo de um ideal de comunidade. Sua prática seria a vida cidadã, exercida com consciência, fruída com alegria, buscada como necessidade vital. (...) Mas o futebol, paixão nacional, é, na verdade, o símbolo da disputa desenfreada por um lugar ao sol, a desesperada batalha pela sobrevivência, o trincar dos dentes dos interesses menores, em resumo, o retrato de um mundo desunido, egoísta, covarde, traiçoeiro e decadente”, escreveu Renato no programa da montagem atual.
Em Vianinha – Cúmplice da Paixão, Dênis de Moraes reproduz texto de Sábato Magaldi sobre a peça: “‘Chapetuba F.C.’ examina, por dentro, o mecanismo do esporte, engastando-o no quadro amplo da realidade social, que o condiciona e sem dúvida lhe determina as características. O texto transcende, nesse caminho, as fronteiras da tipificação de um grupo humano, para situar-se como um estudo de indivíduos de uma classe desfavorecida, em face da ordem social injusta”.
O elenco original de Chapetuba F.C. contou com nomes expressivos do teatro brasileiro: Chico de Assis, Flávio Migliaccio, Milton Gonçalves, Nelson Xavier, Riva Nimitz (1936-1993) e Xandó Batista (1920-1992), além do próprio Vianinha, que tinha 22 anos quando escreveu o texto. Renato integrou o elenco quando o grupo montou a peça no Rio de Janeiro.
O diretor revela-se emocionado ao reviver Chapetuba F.C.: “O que há de emoção nesse reencontro é inexplicável. Vianinha é um exemplo de lealdade. Brigávamos e nos reconciliávamos com frequência; era uma amizade tempestuosa, porém amorosa, franca e verdadeira. Foi um homem corajoso, um dramaturgo raro que tinha uma percepção intensa da realidade brasileira e não se iludia em relação aos problemas do País, mas cuja obra não é panfletária”.
CHAPETUBA F.C.. De Oduvaldo Vianna Filho. Direção de José Renato. Com Álvaro Gomes, Emerson Natividade, Fábio Pinheiro, Fernanda Sanches, Fernando Prata, Flávio Kena, João Ribeiro, Luiz Fernando Albertoni, Pedro Monticelli e Vinicius Meloni. No Teatro de Arena Eugênio Kusnet. Rua Teodoro Baima, 94, São Paulo, SP. Fone (11) 3256-9463. Quintas, sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 20h. R$ 10. De 20/3 a 19/4.
Escrito por Mauro Fernando às 17h46
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