POR UM FIO
Paulo Caldas 
Regina Braga e Rodolfo Vaz: um questionamento sobre a vida Uma especulação sobre a existência a partir de histórias de pessoas que passaram por um processo de transformação depois de anunciadas como portadoras de uma doença incurável. Por um Fio, que estreia nesta sexta (3/4) no Sesc Anchieta, em São Paulo, reúne 11 narrativas extraídas do livro de mesmo nome escrito pelo oncologista Drauzio Varella e retrabalhadas pelo diretor Moacir Chaves e pelos atores Regina Braga e Rodolfo Vaz.
“Por um Fio é um mosaico humano muito grande, uma reflexão sobre a vida, sobre o tempo, sobre a finitude”, sintetiza o ator. “Não damos aula sobre finitude”, complementa o diretor: “A peça trata do que acontece quando nos damos conta de que nosso tempo está acabando, de como podemos mudar a forma de nos relacionarmos com a vida”. A montagem não procura certezas para as indagações que propõe. “Não cogitamos respostas”, diz Chaves.
São 11 histórias independentes, que não se entrelaçam. “O texto não tem pena das personagens, porém tem compaixão pelo ser humano”, afirma o diretor. “O importante não são as narrativas, mas a percepção do que vem delas. Por um Fio é um espetáculo alegre, não há sadismo nele.” Concebido por J. C. Serroni, o cenário – um parque com bancos e árvores – está afinado com a ideia principal da peça. “É um lugar que remete a muitas coisas, um local de descanso, de curtir o tempo, de curtir a vida”, indica Chaves.
Regina aponta a maior dificuldade dos intérpretes: evitar uma tonalidade piegas. “Como estamos relatando experiências muito fortes, optamos pela neutralidade, por um tom mais discreto para não cairmos no pleonasmo”, diz. “O espetáculo é conciso e objetivo. É um grande relato de pessoas que se transformaram por estarem por um fio e, portanto, abre gavetas delicadamente”, arremata Vaz.
O ator trabalha no Grupo Galpão há quase 20 anos e foi chamado depois da desistência de Pedro Paulo Rangel – que ganhou o Prêmio Shell por Sermão da Quarta-Feira de Cinzas (texto do Padre Antônio Vieira) dirigido por Chaves – por problemas pessoais. O universo de Varella não é estranho a Vaz, que ganhou o Shell por Salmo 91, a adaptação de Dib Carneiro Neto para o best seller Estação Carandiru dirigida por Gabriel Villela.
Casada com o oncologista, Regina conta que conheceu alguns dos pacientes retratados pelo oncologista no livro. “São histórias dos anos 1980. Ele escrevia antes mesmo de ter computador, dizia que registrava para não esquecer. Depois mexeu nelas para publicar. Por um Fio é mais leve que Estação Carandiru, são histórias de vida, de esperança.”
Chaves revela esperar que a montagem – que já passou por Porto Alegre, Belo Horizonte e Curitiba – “seja bem sucedida”. E define a expectativa: que a peça atinja o público. “Se não estabelecermos contato com a plateia, fracassaremos artisticamente. Bilheteria e elenco recheado de atores de TV não passam necessariamente por esse conceito.”
POR UM FIO. De Drauzio Varella. Direção de Moacir Chaves. Com Regina Braga e Rodolfo Vaz. No Sesc Anchieta. Rua Dr. Vila Nova, 245, São Paulo, SP. Fone (11) 3234-3000. Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h. R$ 20. De 3/4 a 10/5.
Escrito por Mauro Fernando às 20h11
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