VESTIDO DE NOIVA
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Marcello Antony e Leandra Leal: amor e morte, desejo e repressão O grupo Os Comediantes estreou Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, sob a direção de Zbigniew Ziembinski em 28 de dezembro de 1943 no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Trata-se do marco inaugural do modernismo no teatro brasileiro. Conjugando expressionismo e naturalismo, o texto de Rodrigues e a encenação de Ziembinski provocaram uma revolução nos palcos nacionais.
O texto ganhou incontáveis montagens, como a de Sérgio Cardoso em 1958, a do próprio Ziembinski em 1976, a do Grupo Tapa em 1994 e a da Cia. Os Satyros no ano passado. Além da adaptação (por Domingos Oliveira) para a TV conduzida por Paulo José em 1979, houve a versão cinematográfica dirigida por Joffre Rodrigues (filho do dramaturgo) em 2006.
No livro O Teatro na Estante, João Roberto Faria lembrou uma afirmação do dramaturgo sobre Vestido de Noiva: “Como todos os meus textos dramáticos, é uma meditação sobre o amor e sobre a morte. Mas tem uma técnica especialíssima de ações simultâneas, em tempos diferentes”. Três planos compõem a inovadora peça, que rejeita a ordem cronológica na apresentação da ação dramática: o da realidade, o da memória e o da alucinação.
No plano da realidade se desenvolvem o atropelamento, a operação e a morte de Alaíde, a protagonista, aos 25 anos. No da memória, enquanto sua mente se desagrega na mesa de cirurgia, Alaíde recorda Pedro (seu marido), Lúcia (sua irmã) e outros familiares. No da alucinação surge Madame Clessi (prostituta assassinada 38 anos antes do acidente da protagonista), cujo diário Alaíde encontrou quando solteira.
“E, assim, os diálogos e as situações de Vestido de Noiva resumem-se, quase sempre, à projeção exterior da mente decomposta de Alaíde, dividida entre o delírio e o esforço ordenador da memória”, explicou Sábato Magaldi quando organizou os quatro volumes do Teatro Completo de Nelson Rodrigues. Magaldi agrupou a obra do dramaturgo em três núcleos temáticos (peças psicológicas, tragédias cariocas e peças míticas), cujos elementos não se mostram isolados. E inseriu Vestido de Noiva na lista das peças psicológicas.
Agora é a vez do diretor Gabriel Villela se aventurar pelo universo de Vestido de Noiva – a montagem entra em cartaz no Teatro Vivo, em São Paulo, na sexta (8/5) para convidados e no domingo (10/5) para o público. Leandra Leal (Alaíde), Marcello Antony (Pedro), Vera Zimmermann (Lúcia) e Luciana Carnieli (Clessi) estão no elenco.
Um triângulo amoroso temperado por questões morais se desenrola na peça. Antes de casar com Alaíde, Pedro namorou Lúcia. “O texto mostra a vida de Alaíde por meio dos seus desejos. Ela tem uma relação conflituosa, de disputa, com a irmã. Coloca-se dentro de uma moral mas tem uma fixação por Clessi. Vive uma oposição entre desejo e repressão”, diz Leandra.
"Começamos a ensaiar sem pensar na mística de Vestido de Noiva para não criar muita responsabilidade. Como lidar com esse clássico sem o peso de Ziembinski?”, especula Villela. O diretor revela que buscou inspiração no impacto causado por encenações de textos rodrigueanos realizadas por Antunes Filho, que concebeu Nelson 2 Rodrigues (Álbum de Família e Toda Nudez Será Castigada) em 1984 e Paraíso Zona Norte (A Falecida e Os Sete Gatinhos) em 1989.
Em relação à linguagem cênica dos três planos, Villela indica que eles “caminham para uma evolução mais etérea”. “Com o advento do teatro contemporâneo eles ficaram obsoletos como arquitetura cênica. (O cenógrafo J.C.) Serroni imaginou o interior de uma cripta onde os personagens topam com um baile que tem um lado mórbido e no qual dançam Eros e Tânatos (amor e morte). Há uma curiosa interpenetração de planos. O cenário valoriza o mergulho interior de Alaíde, o embate entre desejo e impedimento”, afirma o diretor.
VESTIDO DE NOIVA. De Nelson Rodrigues. Direção de Gabriel Villela. Com Leandra Leal, Marcello Antony, Vera Zimmermann, Luciana Carnieli, Maria do Carmo Soares, Pedro Henrique Moutinho, Rodrigo Fregnan, Cacá Toledo, Helô Cintra e Flávio Tolezan. No Teatro Vivo. Avenida Chucri Zaidan, 860, São Paulo, SP. Fone (11) 7420-1520. Sextas e sábados, às 21h30, e domingos, às 19h. (A partir de junho também às quintas, às 21h30.) R$ 60 e R$ 70. De 10/5 a 5/7.
Escrito por Mauro Fernando às 04h23
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