VELEIDADES TROPICAES
José Romero 
País que se moderniza conservando velhos hábitos Antonio Vanfill, Fausto Franco, Fernanda Haucke, Fernanda Rapisarda, Flávio Pires, Guto Togniazzolo, Livia Guerra e Petronio Nascimento entram em cena nesta sexta (7/8) na sede da Cia. do Feijão, em São Paulo, para o nono espetáculo do grupo, Veleidades Tropicaes. Assim como nas primorosas Mire Veja (2003) e Nonada (2006), Pedro Pires e Zernesto Pessoa assinam dramaturgia e direção da peça, sustentada por pesquisa sobre a utopia.
Na montagem anterior da trupe, Pálido Colosso (2007), Pires e Pessoa passaram a limpo os últimos 40 anos da vida política do País. Em Veleidades Tropicaes, eles também perscrutam o jogo do poder, mas desta vez tiram os olhos do retrovisor e miram à frente: a utopia, entendida como o lugar onde o governo proporciona condições de vida ideais ao povo.
Três blocos compõem a montagem, uma sátira à promiscuidade que envolve classe política, Judiciário, elite financeira e até ONGs que vivem de favores oficiais e não trabalham em função de projetos de igualdade de oportunidades. “O primeiro bloco: um espaço virtual associado à capital federal. O segundo: uma capital estadual, um pouco menos virtual que a federal. O terceiro: um rincão, uma cidadezinha do Brasil profundo onde o poder político e os habitantes são muito próximos”, relata Pires.
As Veleidades, personagens inspiradas nas três bruxas de Macbeth (de William Shakespeare) que instigam o nobre escocês a tomar o reino para si, conduzem o espetáculo. “Elas provocam o público, fazem com que ele entre no jogo de poder”, revela Pires. Veleidade, registram os dicionários, é desejo sem consistência, volubilidade, vontade vã.
Além das Veleidades, os irmãos Pedro e Paulo (inspirados em Esaú e Jacó, de Machado de Assis) e a República, outra personagem alegórica, formam a espinha dorsal da peça. “As bruxas incitam os irmãos, representantes das elites, a disputar a República. Trabalhamos com alegorias, mas sem perder o pé da realidade”, diz Pires.
Trata-se, portanto, de teatro político. Está embutida no espetáculo a ideia de transformação da sociedade? “Não ousaria dizer isso. Mas questionamos o modelo neoliberal”, afirma Pires. O modelo que realça “o culto ao sucesso a qualquer preço, o trabalho mais alienado”. Em oposição ao teatro burguês, a Cia. do Feijão busca, pois, o teatro que interfere na esfera social “a partir do questionamento do próprio indivíduo”, já que não adianta pregar o socialismo “se o indivíduo não for incluído nisso”.
A pesquisa partiu de um texto de Machado de Assis, Quase Ministro. “É uma peça de gabinete que fala sobre a política da época”, conta Pires. “Resolvemos então investir no universo político brasileiro e fomos atrás de autores como França Júnior, que em peças como Caiu o Ministério e Como se Fazia um Deputado radiografou a política de seu tempo”. Textos da segunda metade do século XIX que mostram os mesmos costumes políticos de hoje.
“Estudamos também teóricos como Thomas Hobbes (Leviatã) e Henry Thoreau (A Desobediência Civil), sempre relacionando com o que o poder faz com as pessoas, com a sede de poder que corrompe e influencia a vida todas as pessoas”, conta Pires. A intenção: chacoalhar o espectador que, por ação ou omissão, é conivente com o atual estado das coisas. “Queremos que as pessoas saiam pensando em reencontrar as ações coletivas”, arremata.
VELEIDADES TROPICAES. Dramaturgia e direção de Pedro Pires e Zernesto Pessoa. Com a Cia. do Feijão. Na Cia. do Feijão. Rua Teodoro Baima, 68, São Paulo, SP. Fone (11) 3259-9086. Sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 20h. Entrada franca às sextas; R$ 20 aos sábados e domingos. Até 25/10.
Escrito por Mauro Fernando às 12h09
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