BRUTA FLOR
Cacá Bernardes 
O jogo do amor, o jogo do teatro A diretora Cibele Forjaz chama Bruta Flor de “rito do fim”; a atriz Lucienne Guedes, de “ritual de passagem”. Assinada por Claudia Schapira, a peça trata em dez cenas do rito da separação afetiva: amor, abandono e dor. Lucienne e Mariana Senne se encarregam de dividir com o público – a partir de quinta-feira (15/10) no Sesc Consolação, em São Paulo – uma visão cênica desse processo em que se enquadram a perplexidade e a aceitação da perda, a morte e o renascimento. “É um ritual de sobrevivência”, sintetiza a diretora.
Cada uma das cenas – que têm desenvolvimento, clímax e fim – corresponde a uma fase desse processo doloroso, mas aberto à catarse. “São dez momentos, da imensa dor da perda até a reconstrução como pessoa”, diz Cibele. Em cada uma delas há uma carta. “O texto tem um ‘eu lírico’ forte”, revela a diretora. “Bruta Flor é uma espécie de poema em estações pelas quais o ‘eu lírico’ passa”, comenta Lucienne.
As duas atrizes-jogadoras dividem entre si os papéis – uma lê a carta e dirige a outra. Como se fossem, nas palavras da diretora, “o eu e a sombra, a diretora e a que vive”. Lucienne e Mariana estão prontas para fazer tanto quem conduz como quem se deixa conduzir, o que dá margem a improvisos. O jogo, pois, passa não apenas pela relação entre personagens, mas também pela relação entre intérpretes. “Tratamos o material não como drama, mas como jogo”, afirma Cibele.
Uma mistura de linguagens caracteriza a estrutura de Bruta Flor. “É um espetáculo épico para um texto lírico”, relata a diretora. “O processo (de montagem) deriva muito das experiências de artistas das três companhias (de teatro), está relacionado à pesquisa (de linguagem) delas.” Cibele se refere à Cia. Livre (que dirige), à Cia. São Jorge de Variedades (na qual Mariana milita) e ao Núcleo Bartolomeu de Depoimentos (que Claudia integra).
A identificação da plateia com o que se dá no palco é certa, garante a diretora: “Qualquer pessoa que já amou, abandonou ou foi abandonada, viveu situações como as da peça. Na verdade, é uma história de amor”. Uma história que não dispensa um certo humor e uma certa leveza. “A dor é um aspecto, mas há situações patéticas”, diz Lucienne.
Mariana destaca a existência de leituras além das atreladas ao coração. “São duas atrizes encarnando uma mulher em seu rito de passagem, falando de um amor passado que também pode ser uma ideia.” E que Bruta Flor não se restringe ao olhar feminino. “Talvez os fundos do poço dos homens estejam mais escondidos.”
BRUTA FLOR. Dramaturgia de Claudia Schapira. Direção de Cibele Forjaz. Com Lucienne Guedes e Mariana Senne. No Sesc Consolação. Rua Dr. Vila Nova, 245, São Paulo, SP. Fone (11) 3234-3000. Quintas e sextas, às 21h. R$ 2,50 a R$ 10. Até 4/12.
Escrito por Mauro Fernando às 20h20
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