DETERMINADAS PESSOAS - WEIGEL
Gal Oppido 
Esther e Helene: autonomia artística A atriz Esther Góes conta que esteve em Berlim há três anos a fim de obter mais elementos para trabalhar em Determinadas Pessoas – Weigel, montagem que estreou em 2008 e volta ao cartaz neste sábado (24/10) no Teatro Alfa, em São Paulo. Conheceu o Berliner Ensemble, a companhia (e o teatro por ela ocupado) que o dramaturgo e encenador Bertolt Brecht (1898-1956) fundou em 1949 com sua mulher, a atriz Helene Weigel (1900-1971). E pesquisou no arquivo da obra brechtiana erguido por Helene.
Determinadas Pessoas – Weigel se debruça sobre a obra e a vida de Helene. Esther e Ariel Borghi assinam o texto e a concepção da peça. A direção é de Borghi. Em cena: Esther, com participação de Borghi, fruto do casamento dela com o ator Renato Borghi. Eucir de Souza, Henrique Schafer e Renato Borghi surgem em cenas gravadas. O espetáculo recorta situações de vida de Helene, como um encontro crucial com Brecht.
“Weigel, uma das grandes atrizes que o mundo conheceu, sustentou com sua forma de pensar e agir as coisas mais nobres que a arte pode ter. Preservou a liberdade de pensamento e manteve uma autonomia extraordinária”, afirma Esther. “Weigel esteve em todas as trincheiras onde a arte tem de forçosamente estar. Foi uma operária incansável da arte.” Além dessa postura, Esther sublinha a contribuição da atriz na difusão da obra de Brecht, uma das mais importantes do teatro de todas as épocas, na crítica ao capitalismo e na consequente luta pela realização da utopia socialista.
É em relação à resistência ao empobrecimento cultural que Helene fala ao século XXI, sustenta Esther. “Há uma sensação de perda de potência, parece que o humanismo decresce, que somos menos capazes de construir a História, que estamos fadados ao embotamento da capacidade de assumir o próprio potencial. Libertária e revolucionária, Weigel integrou uma geração de artistas que tinha força para assumir bandeiras ideológicas e querer justiça.” A liberdade em oposição à submissão, enfim.
Esther ainda reivindica o quinhão de Helene na edificação da obra brechtiana. “Weigel foi importante na passagem de Brecht do teatro didático para o épico. Eles descobriram juntos essa passagem, ela foi coautora dessa obra. Colocou sua arte de intérprete a serviço dessa obra essencial (para o teatro).” Esther cita como exemplo a protagonista de Mãe Coragem e Seus Filhos, “cuja inspiração dramatúrgica foi a própria Weigel”.
Esther lembra também que “a construção material e ideológica e a sustentação econômica do Berliner Emsemble” contou com a colaboração fundamental de Helene. “Ela levou à frente a ideia e a prática da companhia depois da morte de Brecht e passou a obra dele para Berlim Ocidental para que fosse publicada integralmente a fim de não ser mutilada por Berlim Oriental”. Esther destaca que o regime férreo da Alemanha Oriental, onde Brecht e Helene se instalaram após o fim do nazismo – que os perseguiu –, não via com bons olhos a independência do Berliner Emsemble.
Determinadas Pessoas – Weigel, relata Esther, “é uma ficção biográfica”. “Ariel e eu concluímos que o maior respeito a Weigel seria dizer a verdade mais próxima do real. A intenção é expor o que os dois artistas fizeram, independentemente se o que fizeram é certo ou errado. É que as pessoas avaliem o que os dois eram e para que a trajetória deles nos serve. Por que tantos se apaixonaram e se apaixonam por essa obra? Deve haver um conteúdo que fascina. São ideias revistas e reapropriadas continuamente e sempre com paixão.”
DETERMINADAS PESSOAS – WEIGEL. Texto e concepção de Esther Góes e Ariel Borghi. Direção de Ariel Borghi. Com Esther Góes e Ariel Borghi. No Teatro Alfa. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, São Paulo, SP. Fone (11) 5693-4000. Sábados, às 21h, e domingos, às 20h. R$ 40. Até 29/11.
Escrito por Mauro Fernando às 20h11
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