ROTUNDA


ESCOLA

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Utopia em discussão

 


“Ideologia! Eu quero uma pra viver”, cantou Cazuza (1958-1990). Henfil (1944-1988), no longa-metragem Tanga (Deu no New York Times?), satiriza a direita palaciana e a esquerda burocrática. O historiador inglês Eric Hobsbawn (1917-2012), marxista, dedica um capítulo de sua autobiografia (Tempos Interessantes – Uma Vida no Século XX) às pesquisas que realizou na América Latina. “A revolução esperada, e em tantos países necessária, não aconteceu estrangulada pelos militares nativos e pelos Estados Unidos, porém não menos pela debilidade doméstica, divisão e incapacidade”, afirma. E conclui:  “A injustiça social ainda precisa ser denunciada e combatida. O mundo não vai melhorar sozinho”.

É sobre o terreno da paixão política que se move a peça Escola, que cumpre hoje no Itaú Cultural, às 19h e com entrada franca, sua última apresentação pela 1ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp). O chileno Guillermo Calderón assina texto e direção. Em pauta: aulas (teóricas e práticas) sobre a mais-valia, a contrainformação na revolução, a postura guerrilheira, o manuseio de armas de fogo, a confecção de explosivos.

O povo libertado da dominação e da exploração, eis o lema. Os personagens – Camila González, Carlos Ugarte, Francisca Lewin, Luis Cerda e Trinidad González formam o elenco – surgem em cena encapuzados, medida de segurança indispensável para militantes que trafegam na clandestinidade. O espetáculo é ambientado no Chile do final da década de 1980, quando o país ainda vivia sob a ditadura militar, de direita, instalada em 1973 pelo general Augusto Pinochet (1915-2006).

A montagem, no entanto, não se restringe a essa época e a esse lugar. O tema é por demais abrangente para que a peça permaneça circunscrita – ideologia, por sinal, é uma palavra que abraça escolhas díspares, do anarquismo ao fascismo. Canções evocam grupos de esquerda que combateram regimes ditatoriais na América Latina, como os montoneros (Argentina), os sandinistas (Nicarágua) e os tupamaros (Uruguai), e deixam a plateia na cativante estrada da utopia.

Calderón opta por uma encenação simples, sem efeitos visuais grandiloquentes, o que favorece o texto. Não se trata de peça de tese, mas de discussão de ideias. Atual, já que manifestações políticas estão no noticiário brasileiro e nas redes sociais cotidianamente, o discurso não se submete ao sectarismo – abre espaço para as incertezas inerentes à ação política e para a possibilidade da derrota. Os personagens, por vezes, soam patéticos nessa batalha por corações e mentes. Como a História não acabou, ensinam que desistir da utopia significa desistir de si mesmo.

Palestra de Frei Betto – autor de Batismo de Sangue, livro que retrata a participação de frades dominicanos na resistência à ditadura militar brasileira – sobre o espetáculo está agendada para depois da apresentação. A mediação é da jornalista Beth Néspoli. A palestra integra uma série de ações da MITsp que visa promover o desenvolvimento de um olhar crítico por parte dos espectadores. “Palmatória quebra dedo / Palmatória faz vergão / Quebra tudo, quebra pedra / Só não quebra opinião”, canta Antonio Nóbrega.

ESCOLA. Texto e direção de Guillermo Calderón. Com Camila González, Carlos Ugarte, Francisca Lewin, Luis Cerda e Trinidad González. No Itaú Cultural. Avenida Paulista, 149, São Paulo, SP. Fone (11) 2168-1777. Hoje (15/3), às 19h. Distribuição de ingressos a partir das 18h. Recomendação: 14 anos. Em espanhol, com legendas.



Escrito por Mauro Fernando s 14h13
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DE REPENTE FICA TUDO PRETO DE GENTE

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Interação entre os cinco e os 110 no ringue

 

 

Marcelo Evelin foi estagiário de Pina Bausch (1940-2009), o nome mais conhecido da dança-teatro após a década de 1960, o que evidencia a linguagem híbrida na qual está imersa De Repente Fica Tudo Preto de Gente, montagem em cartaz no Centro Cultural São Paulo. Cinco intérpretes nus, com os corpos cobertos de fuligem, estão em cena. A eles se somam as 110 pessoas que enfrentam fila para obter ingressos – o espetáculo integra a 1ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), com entrada franca.

Piauiense, Evelin radicou-se em 1988 em Amsterdã, onde criou a companhia Demolition Inc. – em Teresina, em 2006, fundou o Núcleo de Criação do Dirceu. Dedica-se às artes performáticas contemporâneas. O elenco de De Repente Fica Tudo Preto de Gente ostenta procedências variadas – Amsterdã, Ipatinga, Kyoto, São Paulo e Teresina –, o que indica o caráter multicultural da montagem, inspirada em Massa e Poder, do búlgaro Elias Canetti (1905-1994). Publicado em 1960, o livro se debruça, a partir do nazismo, sobre a formação das massas e sua relação com o poder.

Os cinco intérpretes constituem um aglomerado, compõem uma unidade – a massa – e se deslocam pelo espaço cênico, um autêntico ringue, por entre o público, que permanece de pé. Essa mistura – plateia incluída na cena – rende. Em uma inversão de expectativas, os 110 que adentraram o ringue na qualidade de espectadores acabam por formar a massa. Formula-se, então, uma espécie de jogo de espelhos: a metáfora se desenrola nos cinco e nos 110.

Os cinco – ainda juntos, corpos colados – estancam aqui e ali. Surge o comportamento típico de transporte público, de show de rock, de manifestação política, de estádio de futebol. Pessoas abrindo espaço em meio a esbarrões fortuitos, a encontrões discretos, a risinhos difusos, a comentários sussurrados, a cheiros diversos, a olhares atônitos, céticos, cúmplices ou fugidios a fim de examinar, notar, ponderar, prescrever juízos. São sujeito e objeto nessa gramática cênica, mesmo a contragosto ou desatentos quanto a essa condição.

Os momentos em que as individualidades dos cinco se encontram nitidamente com as subjetividades dos 110 são aqueles em que os intérpretes se descolam e se espalham pelo ringue. Despertam curiosidade, arrancam compaixão, trocam experiências mediante conexões especiais, dão origem a seguidores (como se se tratasse de uma rede social presencial, não virtual), causam retiradas estratégicas – jamais suscitam indiferença. A interação é clara. Mas também há tensão no ar: quando os cinco provocam-se em choques corporais.

O espetáculo, enfim, remete tanto a questões urbanas atuais quanto a deslocações humanas dispersas na História, o que o enriquece ao potencializar possibilidades de leitura. O diálogo franco entre dança e teatro – com a participação evidente da performance – dirigido por Evelin liga-se a uma pesquisa pautada pela qualidade, que pressupõe um pensamento crítico sobre as artes cênicas. De Repente Fica Tudo Preto de Gente cumpre três apresentações pela MITsp – a última está agendada para hoje.

DE REPENTE FICA TUDO PRETO DE GENTE. Encenação de Marcelo Evelin. Com Demolition Inc. No Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000, São Paulo, SP. Fone (11) 3397-4002. Hoje (13/2), às 19h. Distribuição de ingressos a partir das 18h. Recomendação: 18 anos.



Escrito por Mauro Fernando s 07h59
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