ROTUNDA


A GIRA DA RAINHA

Divulgação

A condição feminina no ambiente patriarcal, sob chave cômico-popular

 

A Fraternal Cia. de Arte e Malas-Artes utiliza seu palco itinerante para estrear a comédia épico-musical A Gira da Pomba no domingo (dia 8), no Parque da Luz, na capital paulista – e, como teatro de rua, sem cobrança de ingresso. A peça investiga a trajetória mítica de Maria Padilha, de amante de um monarca de Castela no século XIV à atual Pomba-Gira da umbanda. Ednaldo Freire assina a direção. Luiz Oliveira Santos e Alex Moletta respondem pela dramaturgia. A trupe tem 12 apresentações confirmadas em parques paulistanos, sempre aos domingos.

Freire conta que Santos sugeriu o tema ao grupo, que começou a trabalhar nele a partir da dissertação Maria Padilha e Toda a sua Quadrilha: de Amante de um Rei de Espanha à Pomba-Gira de Umbanda, de Marlyse Meyer. “O que mais nos interessou é a circularidade oral dessa personagem, que existe desde 1350 na Europa e foi incorporada à nossa cultura popular por meio do candomblé”, informa o diretor. “Mas não há na montagem um envolvimento místico-religioso no assunto”, esclarece.

O grupo trabalha com o conceito de processo colaborativo – dramaturgia e encenação são erguidas com o elenco. Trocas de ideias e de impressões, sugestões e pesquisas que enriquecem uma peça. Os atores Aiman Hammoud, Carlos Mira, Daniela Theller, Fabio Takeo, Mariana Rosa, Mirtes Nogueira e Roberto Barbosa também se debruçaram sobre obras como O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro.

Isso desencadeou “um mergulho fundo na representação cênica”, afirma o diretor. “Fomos ao estúdio de Valdeck de Garanhuns, especialista em teatro de mamulengos, a fim de conhecer essa técnica e introduzi-la no espetáculo, para que ele não fique histórico, chato. A linguagem de bonecos e a de HQ oferecem várias possibilidades cênicas para (apresentações em) praça pública.”

A Gira da Pomba é uma comédia épica porque o recurso da narrativa está presente. E uma comédia musical porque “a música ocupa um papel preponderante”, diz. “Mas ela evita a reconstituição de rituais do candomblé. O caráter é profano, o objetivo é não misturar religião e teatro. O tom é de fabulação leiga”, destaca. A música original é de Lincoln Antonio.

A peça propõe, ainda, uma reflexão sobre a condição feminina. “Maria Padilha consegue desenvolver uma afronta à sociedade patriarcal. Tida como a rainha da sensualidade, conquistou o rei, que fez o diabo para ficar com ela”, afirma Freire. Trata-se de tema polêmico, reconhece. “Trabalhamos uma personagem que foi histórica, virou mito e tornou-se entidade do candomblé. É reverenciada do ponto de vista popular.”

Amante de Pedro, o Cruel, Maria Padilha foi coroada rainha depois de morta – assim como Inês de Castro (por Pedro, o Cru, de Portugal). “Ela começou a cair na boca do povo, no diz que diz, nas invenções populares. Começou a virar mito já na Europa por causa dessas histórias. Colocamos em cena algumas delas. O mito veio para o Brasil com os colonizadores e se propagou. É a trajetória de uma personagem marginal construída pela imaginação popular. E vira universal porque a cultura popular não tem pátria”, sintetiza.

A Fraternal surgiu em 1993 e inaugurou seu tablado itinerante – uma carreta que conta com palco de 56 m² e oferece cobertura para cem pessoas sentadas – em 2011. Vem apresentando em espaços públicos, como parques e praças, montagens concebidas para sala de teatro, como Auto da Paixão e da Alegria, Borandá e Sacra Folia. “É teatro na rua (por conta do palco), não necessariamente teatro de rua”, nota o diretor. “E aquela eterna nostalgia, a volta à origem do teatro.”

O que mudou para a companhia? “O interesse do público muda. Quem vai ao teatro já está predisposto a ver um espetáculo, e o público de rua é espontâneo. Há interferências, como o motor de um caminhão passando, uma intempérie. O ator está sempre sob risco, mas aumentam a capacidade de foco e a preocupação em não fazer um espetáculo longo demais e em fisgar o público e fazer com que ele não perca o interesse”, relata Freire.

 

A GIRA DA POMBA. Dramaturgia de Luiz Oliveira Santos e Alex Moletta. Direção de Ednaldo Freire. Com a Fraternal Cia. de Arte e Malas-Artes. Em 8/6: Parque da Luz. Em 15/6: Parque do Carmo. Em 22/6: Parque Anhanguera. Em 29/6: Lions Club Tucuruvi. Em 6/7: Parque Raposo Tavares. Em 20/7: Parque da Aclimação. Em 27/7: Parque Shangrilá. Em 3/8: Parque Jardim Felicidade. Em 10/8: Parque Independência. Em 17/8: Parque Ibirapuera. Em 24/8: Parque Rodrigo Gásperi. Em 31/8: Parque Vila Guilherme. Sempre às 11h. Grátis. Recomendação: livre.



Escrito por Mauro Fernando s 17h04
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